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Instrumental: Experimentações japonesas

Com a ajuda da internet, bandas surgidas da fusão entre o post e o math rock divulgam seu trabalho e influenciam outros grupos ao redor do mundo

TEXTO Fernando Athayde

01 de Abril de 2014

Banda Toe é das mais relevantes no cenário do instrumental não erudito

Banda Toe é das mais relevantes no cenário do instrumental não erudito

Foto Divulgação

Um ditado popular foi criado após a imersão do mundo na era digital: “Para tudo que você pode fazer, uma criança japonesa de 8 anos pode fazer melhor e ainda vai divulgar no YouTube”. Ainda bem. Não desmerecendo as afecções e potências do restante do mundo, mas se não fosse a ponte virtual que liga os hemisférios, é bem possível que o Ocidente ainda não conhecesse mais da fascinante cultura de países como o Japão.

E foi assim, através da internet, que um gênero musical bastante singular chegou ao Ocidente e explodiu a cabeça de diversos apreciadores da boa música. Com ascendências no post rock, caracterizado pelo intenso trabalho de dinâmicas sonoras melancólicas, e no math rock, em que todo ritmo é uma possível variável, o som primordialmente instrumental de artistas como Toe, Mouse On The Keys e Lite é algo ainda escasso de um nome próprio, mediante sua complexa grandiosidade tão à frente do próprio tempo.

É difícil decifrar quando foi o início de tudo, mas um ponto de partida fundamental é o EP Songs, ideas we forgot, do quarteto de Tóquio Toe, lançado em 2003. A banda, talvez um dos maiores expoentes da música instrumental contemporânea não erudita, é a peça central cujo eixo sustenta uma verdadeira gama de admiradores e seguidores por todo o mundo.

Aliando um nível técnico altíssimo à espontaneidade, o grupo, que começou graças à forte influência do math rock da banda norte-americana Ghosts and Vodka, transcende barreiras e provoca no ouvinte uma sensação intensa de querer ouvi-la ao vivo, por não conseguir imaginar de forma alguma como aquilo é feito. É algo como tentar imaginar uma cor que não existe.

Graças a isso, um grande trunfo desse gênero musical, e potencialmente um dos responsáveis pela sua crescente aceitação, está na performance. Sentimental, é tão espontânea, que torna-se um organismo vivo, mutável a cada nova apresentação.


Um dos trunfos desses grupos, como Lite, está na performance no palco. Foto: Divulgação

No palco, o que vemos são músicos atingindo o êxtase. De expressões corporais frenéticas ao virtuosismo, é um espetáculo quase teatral. Tanto que, em 2010, o vídeo da performance da canção Goodbye, do Toe, contida em seu registro ao vivo CUT_DVD, tornou-se um viral, atingindo mais de um milhão de views no YouTube, algo impressionante no meio da música alternativa e que consolidou sua relevância para o universo musical contemporâneo.

EXPERIMENTAÇÃO
Se há mais um elemento que une esses grupos, sem dúvida, trata-se da ousadia e da busca intensa por novas sonoridades. O Mouse On The Keys, por exemplo, é composto por dois pianos e uma bateria, o que por si só já é curioso, ainda que a banda se apresente ao vivo com uma dupla de metais. Em seu disco An anxious object, de 2007, o trio esteve em seu melhor momento, explorando profundamente o lado percussivo que o piano há de proporcionar quando nas mãos de um exímio pianista.

Uma tônica comum no meio é a de inverter os papéis. Se é tido como convenção que a sustentação rítmica da música popular está na percussão, os japoneses souberam fundamentar um contraponto com exuberância. Muitas vezes é a massa sonora de caóticas cordas e teclas que provém a estrutura dos temas musicais, enquanto a bateria atua solta, livre para improvisos, dando personalidade à música. Uma bateria melódica, por assim dizer.

Exceção à regra é o Lite, outro quarteto de Tóquio, que desenvolve um trabalho tão meticuloso, a ponto de sugerir um verdadeiro estudo técnico sobre composição. Redefinindo o posicionamento da harmonia e da melodia, o grupo usa seus instrumentos frequentemente, como um conjunto unitário, valorizando o silêncio e as pausas rítmicas.


Trio Mouse on the Keys é composto por dois pianos e uma bateria. Foto: Divulgação

Muitas vezes incorporando elementos eletrônicos, vocais e barulhos desconexos de qualquer musicalidade aparente, testando os limites do que é a própria música, um traçado comum em muitas dessas bandas é o de reinventar-se na transição entre discos. For long tomorrow, de 2009, segundo trabalho de estúdio do Toe, é a prova viva de que classificar o gênero como “instrumental” é um erro. No álbum, a banda incorpora letras, vozes, ruídos e até registros de conversas à sua composição, provando que, antes de ser cantada ou não, a música é o agrupamento coerente de sons. É quase um ménage à trois entre Thurston Moore, Miles Davis e Brian Eno.

VONTADE
Apesar da qualidade artística e do reconhecimento mundial, é bom ter em mente que enriquecer fazendo música é algo extremamente difícil. Na música experimental e em suas ascendências, especialmente. Para o artista, de modo geral, uma das condições mais desgastantes é a de se submeter ao cumprimento de prazos ou de exigências criativas da parte de terceiros. Assim, torna-se ainda mais belo saber que esse grupo de bandas japonesas não tem vínculo com gravadoras e afins. É independente, fruto da total liberdade de seus idealizadores.

Criado por Yamazaki Hirokazu, guitarrista do Toe, o selo Machu Picchu Industries é uma plataforma de divulgação e venda de conteúdo sem fins lucrativos. Além dos grupos locais, o selo hoje abriga bandas ao redor de todo o mundo. Um exemplo disso é o Tangled Hair, trio britânico que lançou em 2011, através do Machu Picchu, seu único disco até o momento, autointitulado. Ainda na Europa, o selo apadrinhou os irlandeses do Enemies, famosos na internet pela veiculação do seu segundo videoclipe, da música Robert Reid.

Fundamental destacar que, após as duas grandes guerras e uma série de desastres naturais acontecidos no último século, a Terra do Sol Nascente sempre ressurgiu das cinzas. Assim, apreciar o que foi construído por essa gama de artistas faz com que seja até fácil de entender o porquê do ditado que abre esse texto. Se a arte é uma reação proporcional ao que se vive no dia a dia, esses músicos, a exemplo da própria cultura, conseguiram subverter um tipo de música denso e pouco difundido numa forma única e cativante de se expressar. 

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