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Regionalismo: Ordem e sentido para a babel da fala

Publicação de verbetes regionais em livros responde ao interesse do brasileiro em conhecer sua variedade cultural, criatividade e identidade através da língua

TEXTO Thiago Corrêa

01 de Dezembro de 2013

Colagem Janio Santos

Até os homens se estabelecerem numa planície do Sinar, a Bíblia diz que o mundo inteiro falava a mesma língua. Aparentemente, essa vantagem fez com que eles decidissem cozer tijolos para substituir as pedras e usassem o piche no lugar da argamassa. Enquanto erguiam uma cidade onde poderiam se agrupar e uma torre tão alta, que chegaria ao céu, Deus lhes fez uma visita e percebeu que, para aquele povo de uma só língua, nenhum projeto seria irrealizável. Ele então condenou os homens à confusão, fazendo com que não mais entendessem a língua dos outros e a construção de Babel fosse interrompida.

O mito da Torre de Babel, narrado do versículo 1 ao 9 do capítulo 11 do Gênesis, tem sido usado como lição para o atrevimento do homem, mas também ilustra o surgimento dos vários idiomas. Espalhados pelo mundo, os homens precisaram retomar a tarefa que Deus passou a Adão para dar nome às coisas. Séculos se passaram, as línguas se desenvolveram e foram registradas, frutificaram em arte literária, foram normatizadas, disseminadas pelos sistemas educacionais, transmitidas pelos meios de comunicação e ganharam a importância de um território identitário, visto como capaz de guardar valores, delimitar fronteiras e segredos de um povo. Um status que tem motivado discussões sobre a necessidade de preservação da língua culta e despertado receios aos estrangeirismos.

No entanto, por maiores que sejam os esforços de preservação e estabelecimento de um padrão, os homens continuam condenados à confusão dos antepassados da planície do Sinar. Números do Ethnologue: languages of the world, que desde 1951 tem catalogado as línguas vivas do mundo, apontam para a existência de 7.105 línguas faladas hoje no mundo. O que mudou foi a maneira de encarar esses números. Se, antes, o discurso religioso da Bíblia apontava a pluralidade de línguas como um castigo para a evolução de um povo, hoje, ela é vista como sinal de riqueza cultural, criatividade e identidade. Num país com as dimensões do Brasil, onde o Ethnologue indica a existência de 215 línguas faladas, o discurso positivo da diversidade linguística também está vinculado às variantes do idioma predominante, diferenças de sotaque, expressões idiomáticas e peculiaridades do português falado em cada região.

DICIONÁRIOS
Uma mudança de postura pode ser observada na proliferação de expressões populares e de dicionários regionais nas livrarias. O mais recente exemplar da seção é o Dicionário do Nordeste, do jornalista pernambucano Fred Navarro, em sua 3ª edição, lançada no dia 13 deste mês, no Cais do Sertão Luiz Gonzaga (Bairro do Recife), pela Cepe Editora.

Fruto de um trabalho de 21 anos, que envolve a coleta de novos termos em obras literárias, folhetos de cordel, músicas e na fala do povo, o volume atualmente reúne mais de 10 mil verbetes em suas 711 páginas. São expressões populares, neologismos e termos típicos dos nove estados do Nordeste que remetem à fauna, flora, culinária, às manifestações culturais e gírias cheias de duplo sentido. Tudo devidamente checado, com classificação gramatical, localização geográfica e citações de referência para contextualizar o uso dos termos.


Mito da Torre de Babel exemplifica a confusão gerada pela pluralidade das idiomas. Imagem: Reprodução

Com uma dimensão regional e um cuidado maior na descrição dos verbetes, a reedição do trabalho de Navarro vem confirmar o interesse do público pelo vocabulário local, a exemplo do Dicionário do Ceará, de Tarcísio García, e do Minidicionário de pernambuquês, de Bertrando Bernardino. Engenheiro mecânico de profissão, Bernardino explica que começou a colecionar palavras ao se deparar com o Outro e perceber que o seu português falado era diferente. “Eu trabalhava numa empresa cuja matriz era em Blumenau, e, noutra, com matriz em São Paulo. Então, quando chegava nesses cantos, o pessoal sentia certa dificuldade em entender o que eu estava dizendo. Aí, resolvi fazer um guia para os sulistas, fiz um guia com umas 300 palavras e divulguei com o pessoal”, recorda Bernardino.

Como o guia fez sucesso entre os colegas de trabalho, o autor ficou estimulado e publicou a 1ª edição do Minidicionário de pernambuquês, pela Bagaço, em 1994. Com o tempo, a fome de Bernardino por novas palavras o levou a se aprofundar mais na pesquisa, através de leituras, viagens e conversas com o povo. “Esse livro não foi feito atrás de uma mesa. Se você somar a quantidade de pinga e de cerveja que foi utilizada pra fazer esse livro... Quando você vai conversar com um vaqueiro, não tem como fazê-lo conversar e se soltar sem um gole. Você tem que se meter numa vaquejada, tem que conversar com as pessoas mais simples, pra ver exatamente como é aquele linguajar”, explica Bernardino. Hoje, o livro está na 4ª edição, reúne quase 2 mil vocábulos e suas quatro edições já somam cerca de 20 mil cópias vendidas. “O livro é um xodó de jornalista. O aeroporto também é um lugar onde vende muito. Uma coisa importante é o tamanho do livro, porque cabe no bolso”, observa o autor.

Nesse sentido, o caso que melhor revela o filão lucrativo que se tornou o registro de termos típicos de uma região é o Dicionário de baianês, desenvolvido pelo engenheiro Nivaldo Lariú, publicado pela primeira vez em 1991. De lá para cá, o livro de Lariú já vendeu 200 mil exemplares (segundo a pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, realizada pela Fipe em 2011, a média entre exemplares produzidos e títulos publicados fica em 8.589 exemplares). Número que faz o autor alcançar o patamar de tiragens de livros best-sellers como O silêncio das montanhas, de Khaled Hosseini, 1889, de Laurentino Gomes, e Diário de um banana 7, de Jeff Kinney.

O fenômeno do surgimento de dicionários regionais, contudo, não deve ser visto apenas como uma simples oportunidade de mercado. No início do século passado, pesquisadores como Câmara Cascudo, no Rio Grande do Norte, Horácio de Almeida, na Paraíba, e Pereira da Costa, com o seu Vocabulário pernambucano (1936), já demonstravam a preocupação com o registro das peculiaridades da região.


Bertrando Bernardino lançou em 1994 o bem-sucedido Minidicionário
de pernambuquês. Foto: Divulgação

Esse esforço ganhou amplitude nacional em 1952, com a publicação de decreto para a elaboração de um atlas linguístico do Brasil. Assim, devido às dimensões do país, ficou definido que os primeiros passos nesse sentido deveriam ser os registros regionais, o que gerou os atlas com as variantes da Bahia, Minas Gerais, Sergipe, Paraíba e Paraná. A ideia foi retomada em 1996 e deu início ao Projeto Atlas Linguístico do Brasil, rendendo novos atlas, dessa vez do Pará, da região Sul, Mato Grosso do Sul e Ceará, além de um segundo volume de Sergipe.

DEMARCAÇÃO
Entre os seis objetivos do Projeto Atlas está a identificação dos dialetos do Brasil, para tornar “evidentes as diferenças regionais através de resultados cartografados em mapas linguísticos” e, assim, renovar o mapa proposto por Antenor Nascentes em 1922, que dividiu o país em sete áreas dialetais – amazônica, nordestina, baiana, mineira, fluminense, sulista e um território incaracterístico. Enquanto isso não acontece, o critério da divisão territorial oficial tem servido para delimitar a abrangência dos dicionários regionais. “O Minidicionário de pernambuquês é muito genuíno, muitas palavras que estavam na primeira edição eu descobri que não eram exclusivas de Pernambuco, então, na segunda edição, elas já saíram”, defende Bernardino, que usa dicionários tradicionais como o Houaiss e o Aurélio no processo de checagem da origem dos termos e sua ortografia.

Na prática, ao mesmo tempo em que partem de divisões estáticas e já estabelecidas, como as geográficas, os dicionários instituem fronteiras de ordem cultural, na tentativa de revelar as diferenças do país através das palavras. Segundo a professora de Linguística da UFPE, Nelly Carvalho, que também integra o conselho editorial da Cepe, essa associação é possível porque grande parte do vocabulário é de origem cultural. “A língua ajuda a decifrar uma cultura. O que é que faz parte da cultura? Cultura é religião, culinária, arte, literatura e tudo isso a gente diz com a língua. Então, no fundo, língua e cultura são uma coisa única. Quando muda a cultura, a gente muda a língua. A tese de Sapir-Whorf diz que a língua e a cultura são indissociáveis”, explica a professora. A exceção à mutabilidade é o vocabulário instrumental e o vocabulário básico (do qual fazem parte as áreas do corpo, a divisão do tempo, condições temporais, acidentes geográficos, graus de parentesco, elementos da natureza).

Dessa maneira, tomando o Dicionário do Nordeste como exemplo, encontramos marcas deixadas na língua por eventos históricos, como é o caso do verbete “cabelo a pirulito”, que remete à presença de soldados americanos das bases navais instaladas na região na década de 1950. Pelas palavras, também é possível observar os principais interesses de uma região através da incidência de termos sobre o mesmo tema. “O regionalismo faz alguns divisores de água. Gírias, à farta, sobretudo no Sudeste, são fomentadas pelas gangues, sejam de marginais das cadeias ou de grupos urbanos, punks, hippies e os linguajares com cheiro de telurismo, no Nordeste. Aqui, o meio ambiente grita alto, e os bichos tomam pé e o meio rural prevalece. No Norte, a influência mesológica, a ecologia e a grande selva amazônica, com seus mistérios, são os fatores que se sobressaem”, aponta o professor cearense João Gomes da Silveira, responsável pelo Dicionário de expressões populares da língua portuguesa, cujas páginas registram cerca de 22.500 expressões idiomáticas.

SEXO E CACHAÇA
Nesse sentido, a existência do Dicionário do frevo (organizado por Nelly Carvalho, Sophia Karlla Mota e José Ricardo Paes Barreto) e do Dicionário da aguardente, por exemplo, já expõe a importância desses elementos para a sociedade em questão. Publicado em 1974, pelo cronista pernambucano Nelson Barbalho, o Dicionário da aguardente reúne verbetes em torno da cachaça – seja referente a seus tipos, apelidos, tira-gostos e ao estado de embriaguez – ao longo de 150 páginas. “Sexo e cachaça são abundantemente explorados na fraseologia de caráter popular. A cachaça, por exemplo, traz inumeráveis registros. Vai de branquinha à abrideira. Por via de consequência, bêbado é outro bicho estigmatizado; puta, nem se fala. Há uma gama de designações para esses aí”, reconhece Silveira.


O Dicionário de baianês (1991), de Nivaldo Lariú, vendeu 200 mil
exemplares. Foto: Tiago Melo/Bahia Notícias/Divulgação

Por outro lado, embora esses dicionários contribuam para a reafirmação de uma identidade nordestina, a diversidade deles no mercado já põe em dúvida a tentativa de colocar nove estados e populações de realidades tão diferentes sob o mesmo guarda-chuva. Verbetes como “costurar pra fora”, registrado no Dicionário do Nordeste, são um indício disso. Se seu sentido geral no Nordeste é o de traição, no Piauí, ela pode ser aplicada a homens afeminados, enquanto na Paraíba ela se refere ao ato de praticar caridade.

Mais do que revelar diferenças em amplitudes cada vez mais locais, o viés de estranhamento causado por expressões regionais já é um indicativo das relações históricas de poder. “O Centro-Sul ficou como modelo de língua, porque toda a corte foi para lá. Depois, houve um congresso em 1954, do qual participaram Antonio Houaiss e Celso Cunha, e os gramáticos resolveram que o modelo de língua tinha que ser o do Rio de Janeiro”, pontua Nelly Carvalho.

A professora explica, ainda, que as mudanças numa língua acontecem por variações diatópicas (lugar), diacrônicas (tempo) e diastráticas (classe social). “Paul Teyssier, francês que veio pesquisar o Brasil, diz que notou mais semelhança no falar do Recife com o de Porto Alegre do que o falar de uma pessoa rica do Recife com o do seu vizinho pobre. O que muda muito a língua portuguesa é a diferença de classe. E isso a gente vai ver nos dicionários locais, porque não são palavras cultas que aparecem, são palavras usadas pela língua do povo. Os dicionários locais são muito diacrônicos e diastráticos”, explica a professora.

Uma reflexão que também se estende à própria concepção de Nordeste. De acordo com o historiador Durval Muniz de Albuquerque Jr., até 1910, não havia a noção de Nordeste. No livro A invenção do Nordeste e outras artes, ele explica que essa ideia foi forjada no meio simbólico e reflete mudanças ocorridas nas relações econômicas e de poder no Brasil, com o fim da escravidão, o poderio econômico de São Paulo, a decadência do ciclo da cana-de-açúcar e o êxodo de trabalhadores para o ciclo da borracha no Norte.

“Uma nova consciência do espaço surge, principalmente, entre intelectuais que se sentem cada vez mais distantes do centro de decisão, do poder, seja no campo político, seja no da cultura e da economia. Uma distância tanto geográfica quanto em termos de capacidade de intervenção. Um intelectual regionalista quase sempre é aquele que se sente longe do centro irradiador de poder e de cultura. Ele faz da denúncia dessa distância, dessa carência de poder, dessa vitimização, o motivo do seu discurso”, escreve Albuquerque Jr. 

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