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O rifle e a lança

TEXTO Ronaldo Correia de Brito

01 de Outubro de 2013

Imagem Hallina Beltrão

Acho que se chamava Otacílio Valdevino, também poderia ser Vicente Moreno, o nome já não possui significado. As fitas cassete em que registrei sua voz foram esquecidas em gavetas ou tornaram-se impossíveis de reproduzir. Transcritas, suas histórias ganharam edição em livro, mas os gestos do narrador, as modulações da fala, as longas pausas com que deixava a plateia suspensa se perderam. Talvez. Muitos que o escutavam repetem movimentos de mãos, meneios de cabeça, tons de voz, sem reconhecer a genética dessa herança. Esqueceram Otacílio ou Vicente – o nome não importa –, mas o personagem continua neles, como os restos orgânicos de um mundo primitivo.

Apressado e sem sutileza, eu queria registrar o máximo de narrativas, pouco ligando para as exigências do narrador.

– Assim eu não consigo. De dia? Quem já se viu contar história de dia? E falando pra essa máquina? Tenho de relembrar coisas antigas, a memória cobriu-se de poeira.

Eu insistia e ele emperrava.

– Arranje um bando de meninos, traga aqui em casa de noite, aí eu faço uns arremedos.

De noite, havia apenas a luz de um candeeiro e tições acesos no fogão de lenha. O velho sentava na rede como se montasse um cavalo, os pés tocando o chão de leve, num impulso de balançar. Meninos e vizinhos chegavam atraídos pelo gravador – máquina precária, parando a intervalos para mudar a posição da fita ou substituí-la.

– E quem falou que eu sei contar história?

Era a fórmula do começo. A plateia se manifestava em vozes desencontradas, enfatizando as qualidades do narrador. A esposa, sem paciência com os adiamentos, implorava do seu lugar.

– Vai homem, deixa de conversa fiada e conta logo!

Ainda faltava enrolar o fumo em palha de milho, acendê-lo na chama do candeeiro, tragar fundo.

– Vocês querem ouvir o quê?

Nesse segundo prólogo, ouviam-se as sugestões.

Arbitrário, o narrador não realizava desejos. Puxava o fio de uma história que havia preparado, acrescentava detalhes e emendava pedaços de outras narrativas. Tinha sensibilidade artística, o narrar era também reflexão, não se confundia com o indefinível.

Todas as dores tornam-se suportáveis, se você as puser numa história ou contar uma história sobre elas. Nunca falou isso, mesmo que pensasse dessa maneira. Uma mulher que usava um nome falso de homem – Isak Dinesen – já escrevera a frase antes. Ela possuía uma fazenda no Quênia, onde plantava café. Quando seu amante a visitava, pedia que contasse histórias. Finch-Hatton, o amante, se afastava por longas temporadas, conduzindo caçadores em safáris. Nessas longas ausências, Karen Blixen – o nome verdadeiro da escritora – criava o que narraria no retorno dele.

Desde a primeira metade do século passado, observou-se que as pessoas ditas civilizadas já não tinham paciência nem perdiam tempo narrando e escutando histórias. Preferiam a companhia solitária de um livro, assimilar o que fora registrado em caracteres escritos, supostamente fixos e imutáveis. Uma atitude bem estranha ao mundo africano, no qual os registros se faziam através da memória das pessoas, sendo passíveis de acréscimos e decréscimos. Karen Blixen, como os somalis, quicuios e massais do Quênia, Otacílio ou o Vicente do nordeste brasileiro, ou uma ancestral mais antiga, a Sherazade das Mil e uma noites, que barganhava a própria sobrevivência emendando fios de histórias, gostava de ouvir e narrar.

Embora tivesse publicado um livro de contos aos 20 anos e fosse encorajada a continuar escrevendo, Karen “nunca quis ser uma escritora”, “tinha um medo intuitivo de ficar presa”, pois “qualquer profissão, por designar invariavelmente um papel definido na vida, seria uma armadilha, escudando-a contra as infinitas possibilidades da própria vida”. Quando publicou o segundo livro, estava perto dos 50 anos. Enquanto viveu na África, entre os nativos para quem o corpo e a fala representavam os mais perfeitos instrumentos de narração, ela acumulou a sabedoria, que transformou em linguagem.

Karen Blixen mudou-se para a África num tempo de expansão colonialista, quando a Europa parecia esvaziada do sentido de sua existência, uma desordem que resultou nas duas grandes guerras. Primeiro ela busca viver intensamente sua aventura, para só depois narrá-la. O que sempre me pareceu contraditório na vida dessa escritora é que, apesar de sua sensibilidade, do requinte com que analisa as filigranas da alma e do comportamento humano, nunca discute sua ação colonizadora, o fato de apropriar-se de territórios e bens de povos milenarmente assentados e vivendo numa África transformada em território de caça.

No capítulo Asas de seu livro mais famoso, A fazenda africana, ela confessa o sonho juvenil de abater um espécime de cada tipo de caça existente. E quando narra um voo de aeroplano com o amante Finch-Hatton, sobrevoando uma manada de búfalos da montanha, não deixa de fazer um comentário predatório – “se quiséssemos, poderíamos abatê-los a tiros”.

Os bens de cultura são comuns a todos os homens como os livros de uma biblioteca, que lemos ao nosso gosto. Mas apropriar-se de territórios alheios, no papel de colonizador, é sempre uma ação nefasta. Algumas sociedades primitivas evitam, outras buscam o contato com o mundo exterior, pelo qual se transformam ou extinguem

Otacílio é um representante da sociedade onde nasceu e viveu. O jovem de gravador em punho já não pertence a essa sociedade, mas busca registrá-la e representá-la. Karen Blixen foi sensível à África, aonde chegou com seu projeto de colonizadora. As sociedades tribais levaram-na a repensar o papel do narrador, mas ela nunca chegou a ser uma voz da África, igual ao escritor nigeriano Chinua Achebe. Da mesma maneira que o sentido pelo qual matava leões, armada de rifle possante, não era o mesmo de um guerreiro massai, munido apenas de lança e escudo. 

RONALDO CORREIA DE BRITO, escritor.

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