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Torcedor: Paixão em três letras

Por trás de um grito de “gol!”, o ato de torcer por uma equipe de futebol esconde um comportamento de significado muito mais complexo do que apenas “acompanhar o time do coração”

TEXTO ÁLVARO FILHO
FOTOS JARBAS ARAÚJO JR.

01 de Junho de 2013

Foto Jarbas Araújo Jr.

É sempre assim, desde o longínquo 21 de dezembro do ano da graça do Senhor de 1971: precisamente às 19h9, os torcedores do time argentino do Rosário Central param o que estão fazendo e, independentemente de onde estejam – emperrados no trânsito, relaxados no cinema, num descontraído happy hour, ou pior, em pleno serão no escritório –, levantam-se e, solitários ou em grupo, gritam: “gol!”. Não há um estádio por perto, muito menos uma partida, tampouco algum jogador de futebol ou uma mísera bola. Aparentemente, é um urro descontextualizado, quase um surto psicótico, mas que, além das aparências, traduz em poucas letras e altos decibéis a força de uma paixão que dura a vida inteira e é repassada de gerações em gerações até todo sempre, amém.

A cena – que se repete, religiosamente, há mais de 40 verões e ganhou o status de o gol mais longo da história – é uma homenagem ao atacante Aldo Pedro Poy que, nos referidos dia e hora, usou a cabeça para que o Rosário, da província de Santa Fé, derrotasse o eterno rival Newell’s Old Boys e avançasse rumo à final do Campeonato Argentino, conquistando, em seguida, o primeiro título de sua história. É apenas mais um dos fatos que compõem os muitos episódios que evidenciam a paixão dos argentinos pelo futebol, como a criação da Igreja Maradoniana, dedicada ao ídolo-mor do esporte no país, Diego Armando Maradona, e que acolhe seus novos fiéis numa cerimônia de batismo que revive o gol de mão de El Pibe contra a Inglaterra, na Copa do México, em 1986, gesto que foi eternizado como la mano de Dios.


Conta-se que o futebol surgiu na China, no século 3 a.C.. Imagem: Reprodução

Mas a paixão do torcedor pelo futebol não é exclusividade de uma nação, povo, credo ou cor. É talvez o sentimento mais universal do planeta, percebido da mesma forma e intensidade por gregos, troianos e brasileiros, a partir do exato momento em que a bola começa a girar com um jogador correndo atrás dela. Tão arraigado e natural, que se leva a crer que é atávico ao homem, um registro ancestral em nosso DNA, desde os tempos em que os chineses bateram a primeira protopeladinha de que se tem notícia, dois mil anos antes de Cristo. Mas não é. O pesquisador catarinense Arlei Damo, doutor em Antropologia do Esporte pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, lembra que o ato de torcer, como nós o conhecemos, é muito, mas muito mais novo. Não tem nem 100 anos.


As regras do esporte só foram universalizadas em 1848, na Inglaterra.
Imagem: Reprodução

“O torcedor é uma invenção do século 20, um termo cunhado para definir aquele que acompanhava o futebol”, explica Arlei Damo. “Aqui, no Brasil, esse personagem só foi aparecer dos anos 1930 em diante, no Estado Novo, com Getúlio Vargas.” Não é de se estranhar, afinal, o futebol competitivo (e com ele, a possibilidade de seu time ganhar ou perder), historicamente, é também um recém-nascido. As regras só foram universalizadas em 1848, na Inglaterra, apoiadas pelos avanços tecnológicos que surgiram com a Revolução Industrial, que permitiram a demarcação do campo de jogo com precisão métrica, a contagem do tempo graças ao cronômetro e até a aferição do peso da bola, patrocinado pela descoberta da vulcanização por Charles Goodyear, em 1872. O prosaico apito só seria usado pelos árbitros oito anos depois.


Um dos ritos do torcedor é vestir-se completamente com as cores do seu time

CORRENTE HEREDITÁRIA
A nomeação do ato de torcer pode até ser nova, mas é em outros sentimentos mais antigos que ele procura abrigo. E de abrigo o arquiteto pernambucano Cristiano Borba entende. Doutorando em Desenvolvimento Urbano pela Universidade Federal de Pernambuco, ele estuda a relação dos torcedores com os equipamentos esportivos, os estádios de futebol, em bom português. Para ele, torcer é fazer parte de uma corrente hereditária, na maioria das vezes, com vínculos familiares. “Torcer por um time é manter esse laço, quase sempre estabelecido em nossa sociedade machista com o pai ou outro parente do sexo masculino”, explica, bebendo numa teoria evidenciada pelo já citado Arlei Damo, que classificou esse culto ao ancestral como uma forma de “totemismo moderno”.

Cristiano vai mais longe. Segundo ele, a identificação de um torcedor com um time se estende para o estádio. “É para lá que ele ruma em todas partidas, que se sente em casa. A torcida estabelece laços de afetividade com o lugar, sabe como se localizar nesse espaço e como se comportar durante a dinâmica do jogo, na hora da entrada do time, quando sai o gol e até para reclamar do juiz”, explica. Puxando pela memória, ele não consegue estabelecer outro tipo de relação com a mesma intensidade. “Talvez, do fiel com a paróquia, mas acho que, no caso do futebol, vai mais além, pois o torcedor não se sentiria à vontade em qualquer outra ‘igreja’”, explica.


Crianças são levadas aos estádios desde cedo, gesto que explicita o desejo dos pais de formar adeptos do seu time

O antropólogo Arlei Damo divide os torcedores, basicamente, em dois grupos, não necessariamente excludentes: os nacionalistas e os clubistas. No primeiro, estão os que torcem pela seleção do país, aproveitando-se de sentimentos preexistentes, como o conceito de pátria. “O segundo não, obedece a vínculos parentais, geralmente. E essa amálgama sentimental explica um pouco o porquê de dificilmente um torcedor trocar de time, afinal não existe um ex-pai, ex-irmão ou ex-avô”, argumenta, referindo-se ao “vira-casaca”, personagem tratado no universo futebolístico com um certo desprezo por ter deixado, como afirma o gremista Damo, o “barco da família à deriva”.


Na arquibancada, público forma um sólido bloco de vibração pelo seu time de coração

Nacionais, clubistas, fiéis ou traidores, todos os torcedores carregam em si, como elemento primordial e comum, o sentimento de estarem numa disputa. Uma sensação que entrou em campo quando o futebol abandonou o caráter meramente lúdico e passou a ser encarado como uma competição, na virada do século 19 para o 20, repetindo dentro das quatro linhas os valores caros ao capitalismo, como a necessidade de burocratização (criação das regras e de uma instituição de controle, no caso, a Fifa), divisão de tarefas (cada jogador tem uma função no time) e a valorização do funcionário mais eficiente (ou seja, o craque), entre outros.

“Há muita coisa em jogo”, adverte o antropólogo alemão Martin Curi, radicado no Brasil. Doutor pela Universidade Federal Fluminense, esse torcedor do Bayern de Munique acredita que o estádio é uma espécie de palco onde o jogo das relações entre as pessoas na sociedade continua a ser jogado. “Cada time carrega uma identidade com valores extracampo e os torcedores que se associam a ele costumam, mesmo de forma não consciente, comungar desses ideais e lutam por ele”, observa, lembrando os casos clássicos de rivalidades políticas na Espanha – como os catalães do Barcelona e os bascos do Atlético de Bilbao –, e religiosas, no embate sangrento entre os católicos do Celtic e os protestantes do Rangers, na Escócia.

VIOLÊNCIA
Para Arlei Damo, a violência é inevitável. “Uma partida de futebol parte da igualdade para a desigualdade, gerada por uma diferença de performance, e essa cisão provoca um grau de tensão”, afirma, lembrando que nem sempre os gestos de violência são físicos. No caso do futebol, eles podem ser traduzidos em insultos e gestos. Martin Curi diz que até mesmo os torcedores “pacíficos” costumam delegar aos violentos o trabalho sujo, em outras palavras, apoiando veladamente a ação de componentes mais violentos, como os hooligans ingleses ou as torcidas organizadas brasileiras.

Curi lembra, porém, que nem toda manifestação aparentemente violenta nas arquibancadas é um sinal de violência. “Há torcedores que gostam de ficar sentados nas cadeiras, confortáveis e com a sensação de segurança; e outros que preferem ficar em pé, atrás do gol, pulando e gritando, sem necessariamente brigar. E as duas formas de torcer são válidas”, explica, lembrando que o modelo de arenas adotado pelo Brasil para serem construídas, visando à Copa do Mundo de 2014, pode acabar extinguindo o segundo grupo de aficionados. “Costuma-se dizer que é um padrão europeu, mas não é verdade. Na Alemanha, há uma área, geralmente atrás das traves, para quem quer torcer em pé, no meio da bagunça”, diz.


Torcedores ingleses - os hooligans - são conhecidos pela violência nos estádios.
Foto: Reprodução

O antropólogo alemão crê que o Brasil “comprou” mesmo foi o modelo inglês que, apavorado com o hooliganismo, aboliu as classes populares dos estádios, em nome de arenas modernas, seguras e, consequentemente, proibitivas, quando o assunto é o preço do ingresso. “E quem faz o futebol brasileiro caminha também para seguir a mesma linha e excluir um tipo de torcedor que erroneamente é tido como violento, mas que, em sua maioria, é apenas feliz”, teoriza. O arquiteto Cristiano Borba assina embaixo. Para ele, as arenas, ao contrário dos estádios tradicionais, são impessoais. “Construídas para serem familiares a qualquer torcida, mas não a sua”, justifica ele, torcedor do Náutico e que, desde março deste ano, trocou o estádio dos Aflitos pela Arena da Copa, em São Lourenço da Mata, novo “lar” alvirrubro.

Neste junho, seis capitais do Brasil – Rio de Janeiro, Minas Gerais, Brasília, Salvador, Recife e Fortaleza – começam a sentir o gostinho de Copa do Mundo, com a realização da Copa das Confederações, que reúne, além da anfitriã, as melhores seleções dos cinco continentes e a atual campeã do mundo, a Espanha. Mais do que um aperitivo para o Mundial, é uma oportunidade para que os organizadores testem os sistemas de receptivo turístico, mobilidade e segurança urbana, além de toda a logística que envolve as novíssimas arenas. Uma chance também para perceber se o torcedor do terceiro milênio é realmente diferente daquele do século passado e se os gritos que se ouvirão na arquibancada terão menos paixão e decibéis que o eterno e inexplicável “gol!” berrado pelos fanáticos hinchas do Rosário Central. 

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