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Artigo

“Meus filmes são meio suicidas”

Matheus Souza, que faz parte de uma nova geração de diretores brasileiros, fala da sua produção e do mercado do cinema nacional

TEXTO Márcio Padrão

01 de Fevereiro de 2013

Matheus Souza

Matheus Souza

Foto Divulgação

"O nosso amor é só nosso. É como o Número 1 sem picles”, diz o jovem Antônio para a futura ex-namorada Adriana. Esse diálogo veio de personagens criados por Matheus Souza, mas poderia ser de algum dos milhares de jovens universitários brasileiros alimentados pela McDonald’s. Até porque Souza deixou de ser mais um desses adolescentes há pouco tempo. Foi sua habilidade precoce para o cinema que o tornou, aos 24 anos, dono de um currículo com dois longas-metragens, uma série para a TV por assinatura, autor de uma nova montagem para a peça Confissões de adolescente, além de ter recebido elogios de “peixes grandes” do cinema, como Fernando Meirelles e Domingos de Oliveira.

Matheus faz um tipo de cinema ainda pouco explorado no país: jovem, pop e com reflexões sobre relacionamentos. Nascido em Brasília e morador do Rio de Janeiro desde criança, viu nos filmes, livros, quadrinhos e games favoritos mais do que uma paixão, uma formação de vida. Foi com a ajuda dos amigos de faculdade que se revelou como diretor e roteirista de cinema e teatro, com três prêmios obtidos em 2008, no Festival do Rio e na Mostra de São Paulo.

Seu segundo longa (o primeiro foi Apenas o fim), Eu não faço a menor ideia do que eu tô fazendo com a minha vida, já passou por Gramado, pelos festivais do Rio e São Paulo e deve estrear nacionalmente no primeiro trimestre deste ano. Fechará uma trilogia com a animação Não deixe a Júlia ir embora, em produção. Para a Continente, o cineasta descreve como tem sido essa experiência de trabalho.

CONTINENTE Como foram as primeiras recepções ao seu segundo filme, Eu não faço a menor ideia do que eu tô fazendo com a minha vida?
MATHEUS SOUZA Eu tinha muito medo de lançar o filme, pois o segundo é sempre para as pessoas falarem mal, quando o primeiro fez sucesso. Mas, por sorte, até que ninguém pegou muito pesado nas críticas. Um dos textos que falou mal do filme diz que eu tento ser o Woody Allen brasileiro, mas o máximo que consigo é emular os seus primeiros filmes. Isso já é bom demais para mim, pois também estou nos meus primeiros filmes. Em Gramado, Fernando Meirelles disse que já “tenho uma cara”, o que é muito bacana para um cineasta no começo. Este filme é sobre decidir seu futuro quando você tem 20 anos, mas há toda uma apatia típica da minha geração. Fomos criados nos calabouços dos nossos quartos, de onde contatamos com o mundo inteiro pelos nossos computadores, mas, ao mesmo tempo, temos cada vez menos o contato físico e interpessoal. Crescemos num mundo em que estava tudo descoberto. Qualquer dúvida, é só digitar no Google. Todas as grandes batalhas e discussões políticas já haviam caído, então há um vazio de sentimento e de pensamento. O filme é sobre a menina Clara, personagem de Clarice Falcão, diante desse vazio, tentando fazer algo a respeito.

CONTINENTE Você acha muito assustador escolher o futuro profissional nessa fase da vida?
MATHEUS SOUZA Aos 18 anos, você está no auge da sua confusão pessoal, vive o primeiro amor de verdade, tem aquele boom de informações e sentimentos e tem que decidir o que fazer pelo resto da vida. E se não decidir logo, vai chegar tarde demais ao mercado de trabalho, e a pressão do vestibular aumenta cada vez mais. A personagem começa a matar aula sem saber o porquê. Ela nem sabe se quer fazer o curso que escolheu. E, tudo bem, não saber.

CONTINENTE Você se vê como parte de uma nova geração de diretores mais pop, que aborda temas diferentes dos usados em outras fases do nosso cinema?
MATHEUS SOUZA Tem nomes interessantes um pouco mais velhos, como Esmir Filho e Ian SBF, que dialogam com esse universo pop, mas ainda é um movimento muito cambeta. Esse sistema atual do cinema brasileiro está estagnado. Ou você faz um filme que vá bem de bilheteria, ou algo “cabeça” que vai bem em festival, ou um filme a que ninguém vai assistir, porque a distribuidora não vai investir. Meus filmes são meio suicidas porque não são populares o suficiente para fazer um milhão de reais de bilheteria, nem “cabeças” o bastante para ganhar o prêmio de melhor filme de festival que não seja o de júri popular. O fato de serem sobre o universo jovem já vem cercado de muito preconceito. Há pessoas que nem se aprofundam e veem se o filme quer passar uma reflexão maior. Tentei por muito tempo me infiltrar no mundo “cabeça”, sendo pop aos poucos, mas não se mostrou muito eficiente. Talvez o caminho contrário seja melhor, de fazer uma comédia de longo alcance com alguns pontos reflexivos, buscando comédias menos rasas no cinema brasileiro. Temos nomes de comédia brilhantes e de conteúdo como Jorge Furtado, Domingos de Oliveira, Guel Arraes, então por que esse caso precisa ser tão raro? Dá para se fazer um meio termo.

CONTINENTE Você nasceu em Brasília e se mudou para o Rio aos sete anos. Como seus pais o influenciaram nesse gosto pelo cinema?
MATHEUS SOUZA Lembro a primeira vez que entrei no cinema: foi para ver A bela e a fera. Eu tinha três anos e achei aquilo a coisa mais incrível do mundo. Meus pais são separados e meu pai é muito calado. Então ele me buscava para passar o final de semana na sua casa, e a gente alugava uns 20 filmes, de Peter Pan ao Sétimo selo, sem o menor critério. Ficávamos o final de semana inteiro assistindo, sem conversar. Isso era o meu diálogo paterno. Quando já tinha uns 12 ou 13 anos, eu era muito bizarro no colégio. Era baixinho, gordinho, tinha espinha... Aí vi pela primeira vez um filme do Woody Allen, que era um cara mais velho e mais bizarro que eu, pegando a Julia Roberts (em Todos dizem eu te amo). Aí falei: é isso que eu quero fazer da vida. Quando me mudei para o Rio, todo mundo era descolado, ia à praia, mas sempre fiquei deslocado dentro desse universo. Conheci outros caras estranhos no universo das artes. Além de Woody Allen, conheci Nick Hornby, o Los Hermanos, e, a partir dessas pessoas, fui recebendo outras influências. De Woody Allen segui para Bergman, Truffaut, Fellini e conheci todo mundo.


Foto: Divulgação

CONTINENTE Além de cinema na PUC do Rio, você fez curso de teatro na companhia Tablado. Como é o seu envolvimento com as artes cênicas?
MATHEUS SOUZA Se tem um lugar que foi fundamental para minha carreira foi o Tablado. Lá, eu conheci os meus melhores amigos, aprendi uma infinidade de coisas. Eu já tinha vontade de atuar, e tive a oportunidade de ver os meus textos sendo montados, recebi os meus primeiros aplausos. O palco é o único lugar no qual não fico tímido. O cinema é o amor da minha vida, mas acho mais difícil de se produzir. No teatro, o lado técnico é menor, você depende menos da técnica. E vejo o artista de teatro estando muito mais disposto a fazer uma coisa sem ganhar muito. Fiz uma peça como ator, O apocalipse segundo Domingos de Oliveira, e uma montagem de Confissões de adolescente. Agora, estou buscando financiamento para dois textos meus.

CONTINENTE É verdade que o Apenas o fim foi financiado com uma rifa de uísque?
MATHEUS SOUZA Acho que o filme custou R$ 8 mil. Metade disso a gente conseguiu com apoio da vice-reitoria de desenvolvimento da PUC, e a outra metade foi dessa rifa de uísque. Escrevi o roteiro em um mês, durante as aulas, e aí fui chamando os meus amigos para fazer parte da equipe. A gente teve um mês de pré-produção e gravamos em 14 dias.

CONTINENTE Como conseguiu fazer um longa com tão pouco dinheiro?
MATHEUS SOUZA Porque foi tudo pensado para caber nesse orçamento. Ninguém da equipe recebeu nada, todos eram amigos e estudantes. A câmera era emprestada da faculdade e o filme foi todo escrito para se passar dentro da PUC do Rio, porque tinha uma regra na qual a câmera não podia sair da faculdade. A produtora Mariza Leão dava aula na PUC, nos ajudou a conseguir apoio na finalização e a inscrever nos festivais. Ganhou Melhor Filme pelo Júri Popular e Menção Honrosa do Júri Oficial do Festival do Rio de 2008, Melhor filme pelo Júri Popular da Mostra de São Paulo, Melhor Roteiro no Prêmio Contigo de Cinema, viajou para festivais como o de Roterdã e o de Miami. É incrível pensar que um filme que fiz sem pretensão deu tão certo. Se tivesse sido lançado seis meses depois, teria tido mais bilheteria. Pois o Marcelo Adnet tornou-se o maior nome da comédia do país, Nathália Dill virou protagonista de novela na Globo, o Twitter tinha se consolidado como ferramenta de comunicação jovem e de divulgação através dos trending topics. Teria sido uma história diferente. Faria ao menos R$ 100 mil de bilheteria – conseguiu por volta de R$ 30 mil.

CONTINENTE Você, que fez aquela série do Multishow Vendemos cadeiras, pensa em seguir uma carreira paralela na TV?
MATHEUS SOUZA Sou obcecado por seriados: Breaking bad, Mad men, Justified, Dexter. É uma coisa que tenho vontade de fazer, que tentei ali pela primeira vez – foi como uma pós-graduação para mim. No Apenas o fim, não sabia como se dirigia, aprendi como se fazia o básico, plano e o contraplano fazendo o Vendemos cadeiras. Agora, sou contratado da Rede Globo para desenvolver novos projetos de seriados.

CONTINENTE Você é um dos poucos diretores de cinema brasileiros que assumem outras mídias da cultura pop como influências. O quão fortes são essas influências para você?
MATHEUS SOUZA Gosto de todas as mídias pop. Meus amigos, minhas namoradas falam sobre essas coisas, é muito presente no nosso cotidiano. Sou muito o fruto dos filmes, jogos e livros de que gostei. Quando alguém fala mal de um filme de que gosto, levo para o lado pessoal, como se estivessem xingando minha mãe. Dia desses, briguei com a namorada de meu amigo porque ela falou mal de Brilho eterno de uma mente sem lembranças.


Foto: Divulgação

CONTINENTE Você cogita incorporar ao seu estilo outros aspectos da cultura nerd, como filmes de ação, por exemplo?
MATHEUS SOUZA Não tenho muita experiência ainda. Como sou eclético nesse ponto, por mim, faço tudo ao longo de minha carreira. No momento, não tenho competência para dirigir um filme de ação, e, sim, uma comédia ou um drama. Mas sou muito nerd, estudioso, então é uma coisa em que pretendo me aprofundar aos poucos para, quem sabe, um dia fazer.

CONTINENTE Fale sobre a influência de Domingos de Oliveira no seu trabalho.
MATHEUS SOUZA Domingos assistiu a Apenas o fim, gostou muito e nós viramos amigos. Hoje, é como se fosse da minha família, é um outro pai. Tenho um baita orgulho de ele ter essa admiração por mim. Acho que é um dos maiores dramaturgos da história do país. Ele faz esse tipo de filme suicida do qual falei, que não é popular nem “cabeça” o suficiente para ir a Cannes. Domingos é filosófico, fala sobre amor, morte, perdas... É um artista plural como poucos no cinema brasileiro.

CONTINENTE O que você vê no cinema nacional nos próximos anos? Estamos abrindo mais espaço para novos limites e mercados?
MATHEUS SOUZA Sou otimista. A produção brasileira está crescendo, temos pessoas muito talentosas, filmes muito bons sendo feitos... Tem um caminho sendo trilhado e quero fazer a minha parte nele. Nós temos talentos para isso, só precisamos, acima de tudo, dar valor para roteiro, porque é uma escola muito fraca no Brasil. O que falta é acertar nesse ponto, para que nossa produção cinematográfica chegue à excelência. 

MÁRCIO PADRÃO, jornalista.

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