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Biografia: Luiz Gonzaga, segundo Sinval

Há muito fora de catálogo e agora relançada, a obra 'O sanfoneiro do Riacho da Brígida' é trabalho de um confesso admirador do Rei do Baião, que pretende mimetizar sua fala e eternizar o mito

TEXTO Danielle Romani

01 de Dezembro de 2012

Imagens Reprodução

O sanfoneiro do Riacho da Brígida, de Sinval Sá, foi a primeira biografia escrita sobre Luiz Gonzaga. Lançada em 1966, é um clássico, não apenas por ser o registro da vida do artista que virou ícone da música popular brasileira, mas por ser conduzido como se fosse uma entrevista, com o “vozeirão” de Gonzaga permeando a narrativa. No mês em que se comemora o centenário do músico sertanejo, o título volta às livrarias, desta vez, com o selo da Companhia Editora de Pernambuco (Cepe), que aproveita o aniversário de nascimento do Velho Lua, no dia 13, para republicar o trabalho assinado pelo paraibano Sinval.

Sem pretensões de ser uma obra para especialistas – o leitor perceberá que o trabalho não faz análise crítica, por exemplo – o livro é uma grande conversa com Luiz Gonzaga, na qual o artista expôs suas emoções, paixões, sentimentos, dúvidas e expectativas. É um diálogo franco, aberto, passional. O próprio Sinval admite que atuou menos como escritor e mais como uma espécie de ghost writer do artista.

O trabalho é descritivo e obedece a uma ordem cronológica. Na abertura, Infância, estão registrados a chegada da família de Gonzaga a Exu, o nascimento do menino no Riacho da Brígida; a vocação musical, que despertou logo cedo; os primeiros trabalhos; o ambiente sertanejo; as primeiras paixões; e a surra que Luiz levou da mãe, Santana, que o deixou profundamente humilhado e o levou a fugir para Fortaleza.

Na segunda parte do livro, O 122 bico de aço, número de recruta de Gonzagão, são contadas suas aventuras como militar, o orgulho que o matuto sentia em vestir a farda e desfilar na rua – diante de mocinhas deslumbradas –, a viagem para o Sudeste com o exército, as desavenças com oficiais e superiores e sua saída da instituição.

A escalada, terceira parte do volume, registra o início da sua carreira. Primeiro, tocando em festas e bares, depois, participando de programas nas rádios cariocas. Um fato, em especial, chama a atenção: sua luta para se firmar como cantor e não apenas como instrumentista. Quem admira a voz de Luiz não imagina que ele ouviu um diretor de rádio afirmar que ela era “horrível”. Ainda bem que o comentário não o fez desistir. Em 1945, gravou sua primeira mazurca, Dança Mariquinha (Luiz Gonzaga/Miguel Lima). Logo em seguida se daria o encontro com Humberto Teixeira, do qual resultou a gravação de Asa branca, que o levaria a ser reconhecido nacionalmente.

O último capítulo do livro, Estórias e fatos, está mais centrado em episódios pitorescos. No apêndice, um cancioneiro de Luiz Gonzaga, com seus mais emblemáticos sucessos.

SOBRE SINVAL
O sucesso de O sanfoneiro do Riacho da Brígida, que tem como marcas a espontaneidade e a coloquialidade, deveu-se à persistência do paraibano José Sinval de Sá, cuja admiração por Gonzaga ajudou a registrar momentos importantes da vida do artista.

Numa visita que fizemos a Sinval Sá, há alguns meses, em sua casa, em Brasília, encontramos um nonagenário saudável e com disposição invejável. O ex-funcionário público, que desde a década de 1950 atua também como escritor (tem sete títulos publicados, entre romances, biografia e histórias para crianças), contou como concebeu o livro, numa época em que eram incomuns as biografias de artistas populares; lembrou como foram os encontros com Gonzaga e falou sobre a feitura do trabalho.

Era o ano de 1955, época em que, ainda oficial da Aeronáutica, Sinval se encontrava em Taubaté, São Paulo. Numa terça-feira de Carnaval, sozinho, longe da família e da mulher Rizete, ele diz que se emocionou profundamente quando, sentado num banco de praça, escutou pelo alto-falante a estrofe inicial de Asa branca.

Cinco anos depois, instalado em Fortaleza e já livre da farda, soube que Gonzaga estava hospedado num hotel da capital. Telefonou e marcou um encontro com ele. Fez-lhe a proposta da biografia, que foi aceita e elogiada. “Na ocasião, Gonzaga me disse: ‘Gostei de você. Parece sério, direito. Foi o primeiro a me falar em escrever sobre minha vida sem cobrar nada’”. A produção do livro, porém, só se deu um ano depois, quando, em visita ao Rio, Sinval ligou para Gonzaga, que morava na Ilha do Governador.

Durante os dois anos seguintes, escritor e artista se encontravam na Praia do Dendê ou da Cocotá (ambos na Ilha). “Conversamos sobre tudo: infância, exército, amores, músicas, sucesso, mágoas. Era um período em que ele tocava nos teatrinhos do interior, nas rádios, uma fase de baixa popularidade, bem diferente da badalação que tivera nas décadas anteriores.”

Passado esse período, Sinval voltou para Fortaleza, romanceou a história, deixando-a cheia de floreios, e a enviou para Gonzaga. Recebeu uma resposta desaforada: “Não gostei, está uma porcaria, não foi isso que contei ao senhor!”. Diante do “carão”, resolveu manter-se mais fiel ao linguajar de Gonzagão. Lançada em 1966, na Praça do Ferreira, em Fortaleza, a edição esgotou-se rapidamente.

Se, durante os anos de encontro com Sinval, Gonzaga vivia alguma melancolia e certo ostracismo, em breve, recuperaria parte da fama e do sucesso, graças à interferência de Carlos Imperial e dos artistas protagonistas da Tropicália Gilberto Gil e Caetano Veloso. Nas décadas de 1970 e 1980, recebeu várias homenagens, fez centenas de shows, gravou discos. E morreu consagrado como artista único e brilhante que se revelou.

UM PEDAÇO DE SERTÃO NO CAIS


Imagem: Divulgação

Cem anos após a última reforma, o Porto do Recife vem se transformando num centro de turismo, cultura e lazer, a partir da recuperação de 1,5 km da área de extensão do ancoradouro, onde ficavam nove antigos armazéns de carga. Restaurados, eles ressurgem na forma de equipamentos urbanos com múltiplas funções, a exemplo do Centro de Artesanato de Pernambuco, inaugurado em setembro, que já modificou e alegrou a paisagem do bairro em que nasceu a cidade.

Neste mês, o projeto dá um importante passo. No dia 13, será inaugurada a primeira etapa do Cais do Sertão Luiz Gonzaga, que terá – quando completo – 7,5 mil m² de área construída (reunidas no armazém 10 e nos pátios 9 e 10) e investimentos de R$ 47 milhões, provenientes de parceria entre os governos federal e estadual. Uma estrutura de grande porte, que terá espaço para exposições com tecnologia e interatividade semelhantes às dos grandes museus do mundo.“O Cais do Sertão será uma obra mais ousada que o Museu da Língua Portuguesa. Quando o então Ministro da Cultura Juca Ferreira me convidou para produzi-lo, o presidente Lula me disse: ‘Quero algo maior e melhor que o Museu da Língua’”, afirma Isa Grinspum Ferraz, responsável pela produção de conteúdo do equipamento recifense. Ela havia participado da montagem do museu paulistano.

Segundo Isa, o novo centro supera seus congêneres por vários motivos. Um deles, ressalta, se deve à combinação entre a concepção dos conteúdos e das soluções museográficas com a concepção arquitetônica.

“Não se trata de um exibicionismo tecnológico gratuito. Queremos trazer para a beira do mar a alma sertaneja”, explica Isa, que conta com uma equipe de 18 pessoas, de vários estados e de diversas especialidades, inclusive um biólogo, responsável pela condução e transplante de um juazeiro.

“Os conteúdos serão distribuídos em torno de 10 unidades. Elas contêm instalações, objetos, projeções em audiovisuais de diferentes formatos, estações multimídias, jogos interativos, maquetes, esculturas, textos, obras de arte. Além de surpresas, como jardins sertanejos e um ‘rio’ São Francisco com suas águas e pedras”, enumera.

A segunda etapa do Cais do Sertão está prevista para ser entregue em agosto de 2013. Até lá, as instalações serão montadas progressivamente. O centro terá salas de exposições temporárias, salas multiuso para cursos e oficinas, uma biblioteca, uma midioteca, a reserva técnica, um grande auditório, um restaurante, laboratórios de conservação e restauro e, do lado de fora, a Praça do Juazeiro, recepcionando os visitantes. 

DANIELLE ROMANI, repórter especial da revista Continente.

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