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“A poesia está afogada no dilúvio audiovisual”

O autor “pândego”, que vive há mais de quatro décadas exclusivamente da palavra e da utopia de fazer arte sem amarras mercadológicas, critica os meandros da criação

TEXTO Bruno Albertim

01 de Outubro de 2012

Chacal

Chacal

Foto Divulgação

Embora sozinho em cena em seu último espetáculo, no Rio de Janeiro, Chacal contou com um monte de amigos no palco. Eles estavam presentes em suas memórias. Pela sua voz, desfilaram nomes que fizeram do Brasil uma pátria pop desde a virada dos anos 1970 para os 1980. Pessoas que ele, guru do seu tempo, ajudou a criar como personas artísticas. Chacal tem sido poeta de primeira hora para figuras e entidades do cenário artístico brasileiro como o Asdrúbal Trouxe o Trombone, Blitz, Barão Vermelho, Circo Voador ou Dunas do Barato, no qual desfilava, língua à solta, um de seus pares, o poeta Waly Salomão.

“Para o mundo acadêmico, sou um poeta descartável, de poucos recursos e baixo repertório. Para o mundo pop, um escritor, um intelectual, um crânio. E todos têm razão. Menos eu”, define-se esse carioca crescido numa Copacabana quase lisérgica, mas militarizada pela ditadura, entre as notas dissonantes dos Rolling Stones e Caetano Veloso.

Aos 61 anos, “pândego carnavalesco, minotauro de artimanhas”, Chacal tem tido a coragem de não envelhecer. Há mais de quatro décadas, vive exclusivamente da palavra. Acaba de lançar Uma história à margem (Editora 7 Letras), título que diz respeito à utopia que o move nestes 40 anos: a de fazer arte sem compromisso com o mercado.

Esse eterno performer é um dos homens que ajudaram a livrar a poesia de alguns de seus arraigados mofos. Ora protagonista, ora coadjuvante de grupos como Nuvem Cigana ou CEP 20.000, ele tem ajudado a tirar suas criações das molduras para abrigá-las na voz. Para a geração que ajudou a firmar, poesia deve, tanto quanto ser escrita, ser falada.

Atento à cultura contemporânea de Pernambuco, diz-se fã do cinema de Cláudio Assis. “Essa coisa pop, no sentido de popular, urbana e contemporânea, me atrai muito. Acho que o Recife dá aula disso para o Brasil inteiro. Rio e São Paulo submergiram no nada do mercado”, diz ele, que, promovido pelo tempo a uma espécie de Allen Ginsberg brasileiro, se recusa a ser totemizado. “Não espero nem desejo isso. Esse cheiro de formol me envenena.”

CONTINENTE Você sempre fala do impacto de ter visto Allen Ginsberg pela primeira vez. Como você poderia explicar a importância dele para a poesia contemporânea?
CHACAL Conheço pouco a poesia de Ginsberg. Não sei inglês. E isso foi capital para perceber Ginsberg no seu aspecto corpóreo, expressivo, sua barba, suas roupas, seus uivos, sua onda... Além das palavras, quando o vi performar em Londres, em 1973. Ginsberg representa o que Torquato Neto queria dizer com “um poeta não se faz com versos”. Atitude, acima de tudo. Aproximar o mais possível a palavra da ação.


Allen Ginsberg. Foto: Reprodução

CONTINENTE Nem exatamente acadêmico, nem apenas cultura popular, mas assumidamente marginal. Passadas algumas décadas, talvez seja possível olhar analiticamente para a sua poética. O que a poesia marginal da sua geração trouxe para a literatura brasileira?
CHACAL Leveza, humor, síntese, descontração, nonsense, como lá atrás Oswald de Andrade iniciara. Chico Alvim, Cacaso, Leminski, Charles Peixoto, Ana Cristina César, de forma mais refinada, e alguns outros deram sequência, nos anos 1970, a essa tradição.

CONTINENTE O que mais lhe incomodava na atitude poética conservadora de antes de vocês entrarem em cena?
CHACAL O solene, o formal, o blá-blá-blá, a suposição de que a poesia é um passatempo aristocrático.

CONTINENTE Ainda faz sentido falar em poesia marginal nos dias de hoje? Os blogs, redes sociais e a internet assumiram a função do antigo mimeógrafo?
CHACAL A poesia está afogada nesse dilúvio audiovisual que acometeu o mundo. A invasão digital, que facilitou a produção artística, soterrou o tesão por um novo poema, filme, música, com a avalanche de informações. A poesia precisa de tempo para mergulho e reflexão. E isso hoje é o artigo mais raro. E esse momento de hipertrofia informacional me deixa meio aturdido, sem conseguir discernir o joio do trigo. Acho que é a difícil adaptação à velocidade gerada por um novo meio de informação. Nessa crise, como se diz no Oriente, pode estar a solução. Talvez uma poesia diferente, mix de beats e bytes.

CONTINENTE Você conhece os poetas marginais do Nordeste?
CHACAL Conheci Jomard (Muniz de Brito) num encontro no Sesc do Recife. Me pareceu um cara bem-humorado e sem medo de novidades. Mas não conheço seu trabalho. Leio pouco. Conheço o poeta pelo cheiro, pelo trago. Acho o Recife um foco de cultura pop irradiante. Mas o contato in loco é muito pequeno. Conheço o impressionante Miró, alguma coisa do manguebeat, Lenine, Lula Queiroga, Bráulio Tavares, os filmes de Cláudio Assis e Lírio Ferreira, João Cabral e ponto. Aos poetas do Sudeste, tenho mais acesso. Daqui, gosto muito de Bruno Brum, de BH, Marcelo Montenegro (SP), Angélica de Freitas (RS) e dos cariocas Carlito Azevedo, Alice Sant’anna, Bruna Beber e Omar Salomão.

CONTINENTE Cláudio Assis se diz representante de um cinema “marginal” brasileiro. Seu último filme, Febre do rato, fala de um poeta da periferia recifense que usa o sexo e a poesia (de mimeógrafo) como elementos de uma militância suburbanamente libertária. Você assistiu ao filme?
CHACAL O marginal no sentido de popular, urbano e contemporâneo, me atrai muito. Acho que o Recife dá aula disso para o Brasil inteiro. Uma fala nossa, mixada, futurível. A Bahia perdeu esse embalo, parece a capital do marketing. Rio e São Paulo submergiram no nada do mercado. Tudo muito fashion Miami. E o ódio neo-fascista/evangélico nas ruas. Quanto a Febre..., o filme é puro lirismo e delicadeza explodindo de dentro do mangue. Histórias de amor. Eu choro só de pensar. O Cláudio, como grande diretor, conseguiu uma química com toda a equipe, que transborda na tela. É muito bom ver o Zizo (Irandhir Santos) falando seus poemas, namorando a Eneida (Nanda Costa), colossal. A poesia pra impactar tem que ter a empatia de mil Zizos. Saravá.

CONTINENTE Você se considera um sobrevivente?
CHACAL Mais que sobre ou sub, sou um vivente tentando me adaptar a cada demanda do dia a dia. Às vezes, parece que não vai dar, que meu sistema operacional é obsoleto. Aí vem uma alegria do fundo do breu e tudo se regenera, tudo se reconfigura e tudo certo. A vida é assim mesmo, rabo de lagartixa.

CONTINENTE Esperava, de alguma maneira, ser totemizado?
CHACAL Não espero nem desejo isso. Esse cheiro de formol me envenena. Vim a essa vida para jogar o jogo com raça e técnica. E vou seguir até o apito final. Depois, façam da minha memória o que quiserem. Antes disso, deixem eu caminhar.


Cena do filme Febre do Rato. Foto: Reprodução

CONTINENTE Quando você descobriu que a palavra seria “sua doença?”
CHACAL Difícil precisar. Talvez a primeira vez que minha mãe ou meu pai cantaram para eu dormir. Talvez no primeiro livro de Monteiro Lobato ou na primeira história de Guimarães Rosa. Fato é que contraí o vírus cedo. As redações no colégio, os diários de acampamento são mostras disso.

CONTINENTE O grande sucesso de festas literárias como a Flip, de Paraty, ou a Fliporto, de Olinda, trazem, de alguma forma, a consagração da oralidade para a escrita que a sua geração tanto exercitou. Qual a sua opinião sobre os grandes eventos que espetacularizam a literatura?
CHACAL A poesia se “reoralizou” mais na ânsia de se integrar ao espetáculo desse mundo fashion do que pela necessidade de recuperar as coisas boas de uma cultura oral: o contato direto com as pessoas, as trocas de ideias e afetos, o impulso pelo improviso e pelo fora do prumo. A cultura digital é a vitória da lógica, do mundo numérico, no qual o erro é excluído e colocado à margem, uma margem que não para de pulsar como num filme de Cláudio Assis. Essas festas literárias são artimanhas do mercado para enfiar goela abaixo livros, autores e um modus vivendis deprimentis. Apesar disso, na Flip, a gente sempre encontra pessoas que compartilham com você algumas ideias e uma garrafa.

CONTINENTE Você nos disse que o excesso de informação tem contribuído para o fim do tesão para a criação de um poema, um filme. Esse tsunami de informações prejudica também a comunicação humana no geral? Você percebe que as pessoas, hoje, têm menos disposição para a comunicação direta?
CHACAL Tem a ver coisa com coisa. Com essa enxurrada de informação, sem tempo de reflexão, as pessoas ficam aturdidas, sem ter o que falar. Mas como a comunicação humana é vital, o cara vai a uma rede social e vomita o que puder. Ali rola um papo coletivo, síntese de vários vômitos. Na conversa direta é mais difícil, algo como dois cegos se apalpando numa esquina em movimento.

CONTINENTE A geração dos 1970 chegou a pegar pesado no tema e encontrou conotações políticas e psíquicas para o uso de drogas. Hoje, na era do crack, você acha que há ainda algum sentido em falar em uso de drogas como mecanismo de expansão, seja ele qual for?
CHACAL Nos anos 1970, a droga era uma busca. Hoje ela é uma fuga. Na Pré-História, havia um caldo cultural – movimento hippie, rock and roll, as portas da percepção – que ajudava a ancorar a nave louca. Hoje, quem ficou louca foi a vaca e, fumando seu cachimbinho, caminha embrutecida para o brejo. O sonho acabou. O deus mercado venceu.

CONTINENTE Algum contemporâneo seu dos anos 1970/80 se revelou uma grande decepção do ponto de vista artístico-intelectual? Ou seja, deixou o mercado ser mais importante que a criação?
CHACAL A maioria deixou de remar contra a maré. Eles venceram na vida. Em nome da morte.

CONTINENTE Com o acesso às novas tecnologias e à internet, músicos já não precisam das grandes gravadoras para se lançar ou existir artisticamente. Como você vê o panorama na literatura: a internet, os blogs, a editoração artesanal tornaram o escritor independente das grandes editoras?
CHACAL Às vezes, pipoca um poema aqui, ali. Em livro, num blog, num Facebook qualquer. Mas, assim como a droga, não tem um caldo cultural que o sustente, neguinho só pensa em grana pra comprar um monte de nadas. E gargalhar, bater na barriga e arrotar: Eu sou foda. 

BRUNO ALBERTIM, jornalista e crítico gastronômico.

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