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Fileteado: Uma graciosa marca portenha

Surgido no século 19 como elemento decorativo da urbanização e do transporte citadino, esse adorno está presente na paisagem de Buenos Aires e ganha adeptos mundo afora

TEXTO Mariana Camaroti

01 de Outubro de 2012

Banca de revista exibe decoração em estilo fileteado

Banca de revista exibe decoração em estilo fileteado

Foto Breno Laprovitera

Entre edifícios afrancesados, ruas largas, cafeterias que avançam suas mesas sobre as calçadas e praças arborizadas, existe algo na encantadora capital argentina que é típico e genuinamente seu: o fileteado. Uma expressão decorativa e urbana, nascida no final do século 19 para adornar as carroças de trabalhadores de mercados públicos e de distribuidores de alimentos. Manifestação que sobreviveu à urbanização e à modernidade dessa cidade de ares europeus, conservando em Buenos Aires um quê antigo, popular e colorido, perceptível aos olhos mais curiosos e atentos.

Hoje, essa ornamentação mais definida como artesanato do que como arte encontra-se não apenas nas placas de estabelecimentos comerciais, casas de tango, publicações e peças publicitárias, mas também é fonte de inspiração na bodypainting, para tatuagens. Relacionou-se com o tango, já que ambos surgiram aproximadamente na mesma época, cruzou as fronteiras portenhas e foi incorporado pelo resto do país e por turistas que buscam levar na mala e na memória um pedacinho do local.


Muitas casas antigas em Buenos Aires
exibem 
adornos coloridos.
Foto: Breno Laprovitera

O fileteado surgiu por acaso, quando dois meninos que trabalhavam numa oficina de pintura de carroças – atividade requisitada nos idos de 1800 para transportes de leite, verduras, frutas e pães – decidiram burlar a convenção e enfeitar o coche de um cliente que deveria ser pintado simplesmente de cinza. Vicente Brunetti e Cecilio Pascarella, de 10 e 13 anos, realizavam tarefas subalternas, como varrer o chão, preparar o chimarrão e ir à loja de ferragens. Um dia, diante da falta do pintor, o dono da oficina perguntou se eles queriam pintar a carroça e receber no dia seguinte pelo trabalho. Os dois aceitaram a oferta e ficaram até tarde no lugar. Pintaram, correram e brincaram, crianças que eram, até que encontraram uma lata de tinta de outra cor. Resolveram, então, fazer um friso de vermelho na soleira da carroceria.

No dia seguinte, ao ver a traquinagem, o patrão deu um carão e mandou cobrir a novidade de cinza. O dono da carroça chegou no momento e sua reação foi de surpresa e satisfação. A partir de então, ao rodar pela cidade, o veículo puxado por cavalos com decoração diferente fazia propaganda daquela oficina, atraindo muitos outros clientes interessados em dar “vida” e “cor” àquele trabalho monocromático. Surgiam então duas categorias de pintor: o “de liso” e o “fileteador”.


Pinturas automotivas estão nos primórdios da história do
fileteado. 
Foto: Breno Laprovitera

Começou-se a acrescentar ao nome do trabalhador a atividade à qual se dedicava (distribuição de leite, pão etc.) e o endereço do seu estabelecimento na carroceria, o que era um prato farto para a nova técnica de pintura. Funcionava como uma forma de publicidade que chamava a atenção, porém, sem ocupar muito espaço. Mas era preciso inventar uma arte de decoração sem dispor de um modelo acabado.

“Assim como o tango se nutriu da canção de campo, das murgas e outras expressões, o fileteado se nutriu das formas das grades (de ferro), das decorações da arquitetura da época, dos grafismos das notas de dinheiro”, aponta o livro El filete porteño (Edições Maizal, 2004). Porém, enquanto o gênero musical se afirmava como a música do lamento, o fileteado se aproximava da celebração do trabalho e da prosperidade.


Fachada de loja do bairro de Mataderos, afastado do centro e voltado
à cultura gaúcha. Foto: Breno Laprovitera

VOLUMES
Com seu florescimento e fortalecimento, a técnica hoje reúne basicamente três elementos: desenho de folhas de acanto (usada pelos gregos e pelo exército), volume e cores contrastantes. A esses elementos foram acrescentados desenhos de fitas, a bandeira argentina, flores, laços, animais (como pássaros e dragões), molduras, entre outros. No centro, imagens de Nossa Senhora de Luján (padroeira do país e protetora dos motoristas) e do cantor e compositor de tango Carlos Gardel, assim como frases. A impressão de volume e sombra – e que concerne identidade a essa ornamentação – é dada por um verniz especial.

Provavelmente, essa arte decorativa bebeu na fonte dos letristas de origem francesa e, segundo estudos, da pintura de carretas italianas, mais especificamente sicilianas. A verdade é que, assim como o tango, desde o início, esteve associada aos migrantes humildes que chegavam ao país e buscavam uma forma de expressar sua singular experiência. Estilos, cores e desenhos foram criados à medida que os clientes pediam que não apenas um detalhe, mas, sim, que toda a carroceria fosse ornamentada. Com a evolução dos transportes, o ornamento foi levado a veículos motorizados usados para trabalhar. Primeiro os caminhões e, depois, os ônibus, chamados de coletivos pelos argentinos. Ainda hoje, grande parte da frota de ônibus portenha é adornada com filetes por dentro (próximo ao motorista e ao retrovisor) e por fora.


Um dos modos de atualização do uso do adorno tem sido a pintura corporal, esta, feita por Alfredo Genovese. Foto: Reprodução

Bairros tradicionais como La Boca, San Telmo e Boedo concentram grande parte dos fileteados, seja na placa, seja no letreiro do estabelecimento – restaurantes, lojas de ferragens –, seja como decoração interior. Mas sempre distante do que se pode chamar de burguês, ostentoso, novidade. Segundo o antropólogo Norberto Cirio, o fileteado é uma reciclagem dos bens culturais das elites voltada para as classes economicamente mais baixas. Dessa maneira, não é difícil reconhecer os desenhos de portões ou silhuetas de influência francesa, espanhola e italiana de casas e edifícios portenhos abastados, reproduzidos nos fileteados.

É assim na fachada da Esquina Homero Manzi, um bar que abriu suas portas em 1927 e se converteu em símbolo portenho. Foi reinaugurado em 2000 como restaurante e casa de show de tango com uma decoração no fileteado. “Quisemos fazer uma decoração da época em que abriu e, é claro, escolhemos essa pintura dentro e fora”, explica o gerente desse local nostálgico e carregado de história, Gabriel Perez. O trabalho foi realizado por Luis Zors, que, junto com León Untroib, Carlos Carboni, Miguel e Salvador Venturo, é considerado um dos mais importantes fileteadores.


Muitos dos desenhos são declarações de amor à cidade. Foto: Breno Laprovitera

Com uma barraca na tradicional feira de San Telmo, há 12 anos, aos domingos, Adrian Clara encontra nessa pintura seu meio de sobrevivência e conta que a demanda não é massiva e, sim, feita por um público mais seletivo. “A maior procura é dos turistas, também por causa do perfil da feira. Muitas vezes aceito encomenda aqui e levo pronta a hotéis durante a semana.”

Aprendiz do falecido mestre León Untroib, Clara começou como letrista, escrevendo em vitrines e vidraçarias, 24 anos atrás. Depois, incorporou o adorno ao seu trabalho. Ainda hoje, mostra entusiasmo pelo que faz, ao falar da técnica. “Adoro o que faço, principalmente por essa mistura de letra e desenho.” Cada uma de suas placas pode ter um preço entre 18 e 180 reais, dependendo do tamanho e do trabalho em si.


O futebol, em obra de León Untroib, e artistas do tango, por Alfredo
Genovese, são temas recorrentes. Imagem: Reprodução


Imagem: Reprodução

Brasileiras de passagem por Buenos Aires, a estudante Teane Alves e a psicóloga Priscila Palma levaram uma peça pintada pelo fileteador. “Estávamos procurando justamente algo bem diferente do que há no Brasil e adoramos esse trabalho”, diz a estudante.

ORIGEM MARGINAL
Ainda que o tango e o fileteado tenham origem similar – imigrantes e cultura urbana, popular e marginal –, essas duas expressões se desenvolveram de formas diferentes. Com o passar do tempo, o estilo musical típico da capital portenha foi incorporado pela cultura oficial, aceito pelas classes dominantes, renovou-se com alguns compositores como Astor Piazzolla e ganhou o mundo como um dos cartões-postais do país.

Já o adorno nascido nas carroças de trabalhadores manteve-se como algo marginal, chegou a ser proibido em 1975 pela ditadura militar e teve pouca ou nenhuma renovação em temática e estilo. “Hoje, o fileteado é visto nas ruas outra vez e é procurado por jovens. Existe uma inquietude em buscar algo nosso, local. Até pouco tempo, era visto como alguma coisa de segunda categoria, de forma depreciada”, opina o fileteador Jorge Molina. “Mas ainda falta uma ruptura como a que o tango fez nos anos 1960. Há pouco questionamento das bases do fileteado e é o que tento fazer com o meu trabalho, rompendo com o clássico e apostando em novas composições, como a interação que a bodypainting permite entre a pintura e a pele”, analisa. Exemplos dessa renovação florescem na exposição de mais de 40 fotografias, intitulada Argentina en la piel. A mostra esteve no primeiro semestre em Paris e desembarca neste outubro em Buenos Aires, reunindo composições de pessoas pintadas e fragmentos do trabalho de Molina.

Se essa renovação que alguns profissionais apontam é uma tendência ou simplesmente algo passageiro, só o tempo dirá. Enquanto isso, parafraseando o filme Casablanca, “sempre teremos Buenos Aires” para apreciar essa expressão decorativa única, que, através de traços e cores, resume o orgulho do trabalho e a influência dos imigrantes na cultura do país. 

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