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Discursos antigos

TEXTO José Cláudio

01 de Setembro de 2012

Série 'Desconstrução', de Carlos Pragana, 90 x 180cm

Série 'Desconstrução', de Carlos Pragana, 90 x 180cm

Imagem Reprodução

Não sou nenhum oráculo, bem sei, mas noto alguma expectativa sobre o que penso dos pintores de casa, das exposições que ocorrem no Recife, tendo até obrigação, até certo ponto, de tocar nesse assunto, já que ocupo essas páginas de generalidades e sabendo-se que pintar quadros tem sido minha atividade principal “há muitos e muitos anos”: a idade permite o uso da expressão mesmo que, para nós, idosos continuem sendo os outros. Até de menos idade às vezes.

Mas há essa ilusão de a idade nos dar certa credibilidade. Muito discutível, admito.

Vejamos três ou quatro exposições de pintores abstratos, digamos, para simplificar. De peso: Gil Vicente, Raul Córdula, Roberto Lúcio e Carlos Pragana. Estes sim, artistas de grande credibilidade, com um currículo que se impõe, e é uma honra para o Recife poder contar com três exposições desse nível simultâneas, de individualidades distintas, de impecável seriedade e de artistas que aqui militam e residem, fazendo parte de nossas vidas, enriquecendo-nos numa grandeza incomensurável, um patrimônio nosso que deveria ser preservado a todo custo, defendido com unhas e dentes, pedindo eu perdão por esses arroubos, a que não pretendia chegar e nem são do meu feitio, mas sem um pingo de exagero.


Cartazes 40, 41 e 43, de Roberto Lúcio. Fotografia sobre tela, 180 x 300cm, 2012.
Imagem: Reprodução

Quanto à discutível credibilidade do idoso, do velho, seja lá o termo que queiram empregar, o fato de ter presenciado o nosso movimento artístico desde l952, aos 20 anos, que foi quando larguei tudo para me dedicar à pintura, justamente essa antiguidade me torna suspeito para falar do assunto, sem a necessária pureza de quem não carrega o peso dos anos. Independentemente da luta ideológica que se travava entre pintura figurativa e pintura abstrata, e ainda por cima entre uma pintura responsável ou comprometida ou engajada e outra alienada, como se dizia na época, de um lado o sentimento nativista e do outro o cosmopolitismo desfibrado e entreguista, questões que o tempo se encarregou de superar, acontece que já àquela altura, década de 1950, a pintura abstrata, em todas as suas vertentes, seja a geométrica ou o seu oposto, o tachismo, a pintura ótica e a polimatérica, para dividi-la em alguns grandes grupos pelo menos quanto ao seu aspecto exterior da apresentação ou aparência visual, sem falarmos do aspecto conceitual, já tinha em linhas gerais cumprido o seu curso, já estava sendo dicionarizada. O livro Art Abstrait, ses orgines, ses premiers maîtres (Arte abstrata, suas origens, seus primeiros mestres) de Michel Seuphor foi publicado em Paris em 1949. Nessa mesma década de 1940, Cícero Dias, para citar um brasileiro, praticava a pintura abstrata. As primeiras pinturas murais abstratas da América Latina foram pintadas aqui em 1948 por esse nosso conterrâneo nascido em Escada (1907-Paris, 2003).


Composição, de Raul Córdula.Tinta acrílica sobre tela, 80 x 100cm, 2007.
Imagem: Reprodução

Hoje estamos livres dos ranços do passado, discursos antigos, contabilidade de datas como corrida para ver quem chegou primeiro, como se a história da arte se resumisse a um livro de recordes, uma forma de cada um proclamar a sua superioridade, um tipo, em última análise, de intolerância ou racismo, o velho vale-tudo (ou MMA) da competividade, a histeria do novo que chegou ao ponto de alguns artistas se proporem o suicídio físico pelo fogo ou pelas mutilações como supremo valor estético. Sei e deploro. Mas, por outro lado, por defeito de nascença ou de geração, fruto das guerras, da bomba atômica, de Abelardo da Hora, apesar de toda a capacidade de aceitação que nos trazem os anos, não escapo desses meus aleijos, não consigo deixar de ver a nossa pintura abstrata atual como uma espécie do que em moda se chama revival (“riváivol”, n’é, Joca?), rejuvenescimento, não enxergando uma renascença em caminho, uma pintura que o mundo nunca tenha visto, o que artistas da importância, da seriedade de Pragana, Córdula, Gil, Lúcio estão aí a bradar às minhas oiças meio entupidas pelo cerume: em arte, nada morre. “Tomara que essa arte tenha defeitos, assim como as pessoas, então a personalidade da obra ficará mais interessante. Estou escrevendo isso em agosto de 2010 e não sei como será em junho de 2012” (Pragana). Eu estou escrevendo em julho de 2012 e não sei como será em agosto de 2013. 

JOSÉ CLÁUDIO, artista plástico.

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