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Woodcut Novel: A matriz dos quadrinhos

Criada no início do século 20, tendo como suporte a xilogravura, essa narrativa gráfica inspirou mestres da arte sequencial

TEXTO Germano Rabello

01 de Março de 2012

'Passionate Journey', obra de Frans Masereel, de 1919 , com 167 imagens, seria o primeiro romance em xilogravuras

'Passionate Journey', obra de Frans Masereel, de 1919 , com 167 imagens, seria o primeiro romance em xilogravuras

Imagem Reprodução

Há um capítulo pouco divulgado da arte do século 20, no qual as artes plásticas e as histórias em quadrinhos se encontraram. Algo desconhecido mesmo entre especialistas de ambas as áreas. São os “romances em xilogravura” ou woodcut novels, que tiveram um ciclo de vida curto, mas impactante. A xilogravura é uma das mais antigas formas de impressão, com provável origem na China. O artista talha um desenho em alto-relevo na madeira e, em seguida, aplica tinta e o reproduz em série a partir desse molde. Não é incomum que a xilogravura sirva a propósitos narrativos. Um bom exemplo são as ilustrações dos folhetos de cordel na tradição nordestina, quase sempre ilustrados com essa técnica. O que é mais raro é o seu uso em publicações quase inteiramente sem palavras, como é o caso das woodcut novels.

Esses trabalhos são desafiadores e surpreendentes para os leitores da atualidade, pois conseguem elaborar com muita precisão seu discurso, deixando os desenhos falarem por si mesmos. São muito próximos do que hoje se convenciona chamar de graphic novels, as histórias em quadrinhos com uma narrativa mais complexa, dirigidas ao público adulto.

Will Eisner inventou o termo “romance gráfico” para definir Um contrato com Deus (1979), sua obra pioneira no gênero, e sempre admitiu a influência que teve de Lynd Ward e Milt Gross. Esses artistas são referências, quando se fala de woodcut novels, seja na forma ou na temática, que tratam sobretudo dos problemas enfrentados na Grande Depressão de 1929, das questões de classe influindo nas relações pessoais e da arquitetura das grandes cidades. Os artistas da revista de quadrinhos políticos World War 3, como Peter Kuper, Eric Drooker e Seth Tobocman, estão entre os mais influenciados por essa estética, mesmo que através de novas formas (scratchboardstencilgrafitti). São, de fato, continuadores da tradição wordless (sem palavras) e da inquietação política do gênero, que sempre se detinha em temas sociais.


Nos EUA, Lynd Ward foi o grande nome do gênero, publicando livros como Wild
pilgrimage (1932). Imagem: Reprodução

Essas obras vêm de um tempo em que a maioria dos quadrinhos era publicada em jornal. Apresentar uma história gráfica completa em livro era algo inédito até então. Em 1919, quando a primeira woodcut novel foi publicada, nem mesmo havia o formato revista de quadrinhos no mercado americano. A técnica estava à frente de seu tempo, abordando temas realistas com uma densidade incomum. Para os interessados em cinema, elas são como filmes mudos em papel; para os interessados em artes visuais, são um deleite estético, pela riqueza de estilos, pelas formas e ideias gráficas. E, ao se constatar que, ainda hoje, nos quadrinhos ou no cinema, o excesso de texto por vezes sufoca a narrativa imagética ou opera de forma pleonástica e pouco imaginativa com os recursos da linguagem, fica evidente o poder expressivo dessas narrativas “mudas”.

O gravurista belga Frans Masereel é apontado como o fundador da tradição das woodcut novels. Nascido em 1889 e falecido em 1972, trabalhava magistralmente os contrastes de branco e preto, num estilo despojado. Suas imagens são manchas de nanquim que tomam formas de pessoas, prédios, carros. Mas a aparente simplicidade do seu trabalho revelava o apuro e a liberdade de um exímio gravurista. Politizado, conseguiu emprego como chargista de jornal entre 1917 e 1920; abandonou, então, as texturas elaboradas e aprendeu a usar os traços grossos que se tornaram sua marca, já que a impressão do jornal Le Feuille não possibilitava reproduções em linhas muito finas.

Suas primeiras publicações na linguagem foram os álbuns 25 pictures of a man’s passion (de 1918) e Passionate journey (de 1919). Talvez seja mais fácil interpretar o primeiro como um conto, uma narrativa curta, em 25 imagens. O segundo, com 167 imagens, seria efetivamente o primeiro romance em xilogravuras. E não poderia haver nome mais perfeito do que Jornada passional, que se refere ao tempo em que se dá a narrativa, enquanto remete ao sentido trabalhista de uma época convulsionada por greves, propagação de ideologias, conquista de direitos, lutas e paixões conflituosas. A chegada de um jovem à metrópole, o contexto social de pobreza, dificuldades, amores, são o painel da vida na grande cidade, com crítica social e política. Mas o personagem mostra um espanto quase ingênuo diante do que vê, e manifesta nas suas ações uma liberdade tal, que transcende qualquer panfletarismo, a idealização, o mundo caótico e opressor. Essa liberdade também salta aos olhos na forma narrativa e no estilo dos traços espontâneos, muito vivos.

MODERNISTA
O lançamento de um livro sem palavras, como esse de Masereel, era fruto do contexto de experimentações modernistas que, certamente, favoreceu seu sucesso editorial. Não se pode esquecer de que as linguagens imagéticas do século 20, como a pintura e a escultura, estavam passando por grandes transformações, sob os influxos dos recém-chegados cinema, fotografia e histórias em quadrinhos. Essas narrativas são contemporâneas dos poemas visuais de Apollinaire, dos experimentos dadaístas, das colagens. O escritor Thomas Mann, certa vez, foi perguntado sobre qual filme o impressionava mais, e preferiu citar Passionate journey, dizendo que as narrativas do autor eram “tão tocantes, tão ricas em ideias, que ninguém se cansava de olhar”. Mann e Herman Hesse escreveram prefácios para obras de Masereel, indício do seu prestígio entre os intelectuais da época.


O alemão Otto Nückel usou um estilo mais expressionista no seu trabalho
de 1930. Imagem: Reprodução

Frans Masereel lançaria mais algumas obras, enquanto outras vozes se uniriam a ele para compor a história das narrativas silenciosas. Na Alemanha, surgiu Otto Nückel (1888-1955), que publicou Destiny: a novel in pictures, em 1930. Em sua obra, usa a xilogravura com um estilo expressionista, duro, em que os personagens parecem desumanizados com seus rostos sem feições, e sombras profundas. Como protagonista, uma jovem com uma vida sofrida e dramática, semelhante à de filmes mudos da época. Nückel se revela brilhante nas composições, no cuidado com a ambientação e nos cenários, com tracejado de linhas finas e contrastes.

Nos Estados Unidos, Lynd Ward (1905-1985) foi o grande nome desse gênero, publicando livros como Gods’ man (1929), Wild pilgrimage (1932) e Vertigo (1937). A maior característica de Ward era seu domínio técnico facilmente identificável. Ao contrário de Masereel, suas gravuras são repletas de grafismos e texturas, linhas e pontilhados, e uma representação mais realista da figura humana, quase clássica, com pitadas de expressionismo. Curiosamente, na mesma época, o cartunista americano Milt Gross lançou He done her wrong, livro sem palavras, mas feito em nanquim e papel, num estilo dinâmico e bem-humorado, como em resposta à sisudez de Ward e outros artistas da época.

Vertigo foi o último trabalho que Ward lançou em vida, e representa um grande aperfeiçoamento do seu estilo. A história envolve três personagens durante os anos da Grande Depressão e é desmembrada em três capítulos que apresentam o ponto de vista de cada um deles: a moça, o velho gentleman, o rapaz. A estrutura é inteligente e inovadora, restando ao leitor ligar os pontos da narrativa. A moça tenta a carreira de violinista, apaixona-se pelo rapaz, o gentleman doente toma as decisões que dificultam a vida de todos, o rapaz corre de cidade em cidade procurando emprego.

A bibliografia básica dessa forma de arte costuma incluir também White collar (1939), do italiano Giacomo Patri – mais uma obra engajada, dessa vez em linogravura; Southern cross (1951), do canadense Laurence Hyde, sobre o cotidiano numa calma ilha do Pacífico e de como a vida de sua população, a flora e a fauna são afetadas pela explosão de uma bomba atômica. Vários desses livros passaram anos sem uma edição disponível, e agora parece haver um interesse renovado por eles. Não há edição nacional dos trabalhos aqui citados, mas esse material – que antes era muito restrito – pode ter um alcance mundial em sites e blogs. Entre as boas fontes de referência estão alguns textos do blog português Ler BD, de Pedro Moura. Nas livrarias, e para quem lê em inglês, há disponibilidade da obra do especialista David A. Berona, Wordless books: the original graphic novels (2008), que situa o gênero tanto do ponto de vista histórico quanto estético. Berona assina o prefácio de algumas edições de woodcut novels e ajuda no entendimento do gênero como matriz genealógica das histórias em quadrinhos. 

GERMANO RABELLO, jornalista.

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