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Rússia, nome masculino; Recife, palavra feminina

Em sua estreia como romancista, Marilda Vasconcelos de Oliveira transporta personagens de Dostoiévski para o Recife do século 21

TEXTO Gilson Oliveira

01 de Outubro de 2011

Marilda Vasconcelos de Oliveira

Marilda Vasconcelos de Oliveira

Foto Chico Ludermir

"Não há assunto tão velho que não possa ser dito algo de novo sobre ele." Se, em seu início, essa frase de Dostoiévski é inaplicável aos livros do próprio escritor – cujos “assuntos” retratam profundas e eternas verdades humanas –, na sua segunda parte, ela parece se referir à obra do escritor russo, eterno alvo de novas abordagens, empreendidas por autores tão diferentes como o linguista russo Mikhail Bakhtin e o psicanalista austríaco Sigmund Freud. Partiu de uma escritora recifense, Marilda Vasconcelos de Oliveira, uma original adaptação do último livro do romancista, Os irmãos Karamazov, lançado em 1880. Publicado este ano pela Editora Bagaço, O avesso do romance não apenas transporta a história no espaço e no tempo, trazendo-a para o Recife do século 21, como troca o sexo dos principais personagens.

“A minha intenção foi evidenciar o preconceito ainda existente contra a mulher, denotar o homem de 130 anos atrás, possuidor de status social superior ao da mulher de hoje. Outra determinação era a de aproximar o jovem e o leitor mediano da literatura clássica, quase que olhada por essa turma como peça de museu”, diz Marilda Vasconcelos, que faz sua primeira incursão pelo romance, depois de conquistar prêmios como poeta e ensaísta, com livros como A mão e o fuso, de 1986 (primeiro lugar no Prêmio Manuel Bandeira, da União Brasileira de Escritores), e Família pós-moderna e redefinição de valores, de 2002 (Prêmio VI Jogos Florais, da Associação Cultural de São Domingos de Rana, Cascais, Portugal).

Quinto livro lançado por Marilda, que possui três obras inéditas e está presente em várias antologias de poesia, O avesso do romance exigiu quatro anos de intenso trabalho, que incluiu pesquisas e a reinterpretação de trechos de Os irmãos Karamazov. A ideia da autora, que também é socióloga e antropóloga, era suprimir aspectos distantes da mentalidade mediana de hoje, tornando a obra acessível a qualquer leitor.

E não faltaram grandes desafios, alguns intrínsecos, como a própria adaptação de um livro considerado por Freud – que nele se inspirou para o artigo Dostoiévski e o parricídio – o maior romance de todos os tempos. Curiosamente, a maior dificuldade não foi a mudança de gênero dos personagens – “a grande diferença entre o masculino e o feminino pertence mais à cultura do que à natureza”, diz a escritora – , mas a passagem do tempo. “Estamos a 130 anos da história . A transformação é radical, sobretudo, no tocante à ciência e à tecnologia”, explica.

BERÇO LITERÁRIO
Atualmente, Marilda escreve um livro de contos sem verbos. Filha do escritor, crítico literário, jornalista e membro da Academia Pernambucana de Letras João Vasconcelos, ela conta que seu pai costumava receber em casa autores como Mauro Mota, Nilo Pereira e Câmara Cascudo. E que a biblioteca da família era abastecida de muitos livros, alguns dos quais enviados pelas próprias editoras.

Uma atmosfera de arte continua marcante no ambiente doméstico de Marilda. Ela é casada com o escritor Lauro Oliveira, que recentemente lançou Osman Lins – Vocação éticacriação estética. Entre seus projetos, está a produção de um livro com as cartas que, por muitos anos, trocou com o autor de Avalovara e outro sobre Dom Hélder Câmara, com quem também manteve convivência.

Marido e mulher costumam ser os primeiros leitores e críticos um do outro e, há muito tempo, planejam uma obra “a quatro mãos”. Embora em campos diferentes, filhos e filhas também seguiram a carreira artística. É o caso do músico e produtor Zé da Flauta e do artista plástico Gil Vicente, que ilustrou o livro A mão e o fuso, sendo autor da capa de O avesso do romance

GILSON OLIVEIRA, jornalista.

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