Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Arquivo

Peleja: Godofredo de Oliveira Neto x Andrea Marques

TEXTO Revista Continente

01 de Junho de 2011

Imagem Karina Freitas

Recentemente, a viúva de José Saramago, Pilar del Río, comentou que o livro póstumo do Nobel de literatura, O último caderno, era um “presente inesperado”. Ela tem administrado o espólio do português com tranquilidade, mas são recorrentes os desentendimentos entre herdeiros e editoras. O professor Godofredo de Oliveira defende que o texto literário é sempre descaracterizável. Já para a revisora e redatora Andrea Marques, a publicação após a morte resulta em incompletude.

GODOFREDO DE OLIVEIRA NETO
Professor e doutor em Letras pela UFRJ



Cabe, em primeiro lugar, deixar claro
que há uma diferença apenas de grau entre um inédito que venha a ser publicado após a morte do autor e um texto já lançado, mas que seja alterado depois do desaparecimento do escritor. A natureza do problema é a mesma. A ordem sintática e a pontuação, sujeitas a mudanças, são elementos da própria semântica narrativa. Pode-se então chegar a um outro resultado, não conhecido pelo autor, quase como se fosse um inédito, tal a descaracterização. Ou seja, os parentes autorizaram a publicação de um novo livro.

Graciliano teve muitos romances publicados postumamente. Mas, mesmo em vida, o alagoano verificou erros em várias edições da sua obra. Após a sua morte, o fato se acentuou. O crítico Wilson Martins publicou um texto no qual prova que o monumental Memórias do cárcere, publicado após o falecimento de Graciliano, teve partes da narrativa alteradas pelo partido a que o escritor fora filiado. A vontade do autor, no caso, não foi respeitada em toda a extensão da obra. Ainda assim, foi melhor para a literatura, já que cabe ao leitor e à crítica o restabelecimento da escrita, até porque o texto literário é sempre incompleto e exige a cooperação de quem lê. Pode-se notar, a partir dessa constatação, a importância das chamadas edições críticas.

Sei de uma obra da literatura brasileira contemporânea que, ao ser traduzida para o inglês, teve mais de 100 páginas suprimidas. É o mesmo livro? Faço essa observação porque várias obras, principalmente clássicas, mas não só, tiveram edições “resumidas”, o que em alguns casos representou a eliminação de 60% do texto! A autorização da família então se refere a que livro? A doutrina acadêmica ensina que a versão a ser considerada para estudos é a última revista pelo autor.

O livro Magma, coletânea de poemas escritos por Guimarães Rosa, só foi publicado em 1997. Muitos estudiosos torceram o nariz. Se Rosa não quis publicá-lo, por que a família o edita décadas depois da morte do escritor? Ora: o autor submeteu esses mesmos versos a um concurso de inéditos da ABL. Revisou o livro, tornou-o conhecido e foi premiado! Por alguma razão não quis publicá-lo depois. A família agiu corretamente ao autorizar a publicação depois da sua morte. Não poderíamos estar diante de uma obra-prima, tal como acontece com boa parte da produção de Pessoa?

ANDREA MARQUES
Revisora, redatora graduada em Letras pela USP



Já imaginaram um médico que tenha
cursado apenas o primeiro semestre? Um advogado sem registro na OAB? Pois bem, essa é a sensação que sentiríamos ao ler uma obra inacabada. É difícil imaginar como uma obra de Fernando Pessoa seria apresentada ao nosso “intelecto”, caso fosse publicada sem o seu toque final. Como ficaria Alberto Caeiro? E seus outros heterônimos, existiriam?

É certo que nossa imaginação tem toda a capacidade para criar vários finais, mas é improvável que tivesse o final arquitetado pelo artista e a dúvida pairaria eterna e cruel: qual seria o final ideal? Ou: seria isso mesmo que ele (o artista) imaginava para a história?

O próprio leitor se tornaria inacabado. Faltaria coesão às suas ideias. E o ponto final do último parágrafo, quem teria a coragem de colocar, ou, no caso de uma obra inacabada, de não colocá-lo? Indiscutivelmente, só o verdadeiro artista é capaz de fazê-lo.

Vocês, leitores, ousariam, em Machado de Assis, por exemplo, definir um final para Capitu, diferente do que ele propôs? Ela seria definitivamente uma adúltera ou uma Capitu vítima da mente doentia de Bentinho? Nesse caso, até optamos, opinamos, não por vontade própria, mas induzidos pela própria genialidade machadiana de deixar em aberto, nas entrelinhas, vários finais, porém estamos falando de uma dúvida proposital, característica do autor.

O que dizer de Os sertões? Teríamos os fatos históricos narrados como aconteceram? E Vidas secas? Fabiano teria tido a coragem de fugir para sua felicidade, deixando sua seca espiritual e social para trás? E em Ensaio sobre a cegueira? Sem o final de Saramago, teríamos argumentos para os contextos atuais ou continuaríamos apenas cegos políticos e sociais? Não, a autonomia do autor é única; seu poder de criação é soberano, ímpar, e deve estar presente do começo ao fim da sua obra.

Feito o parâmetro com esses argumentos “hipoteticamente” levantados, ainda que pareçam exagerados e sem propósito, torna-se mais sem propósito, ainda, o fato de a família de um artista morto ter o direito de publicar uma de suas obras inacabadas. Como fica toda a trajetória construída por esse artista? Seu direito de mexer na obra, de dar o seu último retoque e que por algum motivo não teve tempo? 

Publicidade

veja também

Apipucos: Era uma casa, virou museu

TV: O Nordeste como protagonista

André Rosemberg

comentários