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Coletivo Angu: Algumas espetadas no coração feminino

Com 'Essa febre que não passa', peça baseada em contos de Luce Pereira, centrados em mulheres, companhia firma seu processo criativo de grupo

TEXTO Rodrigo Dourado

01 de Maio de 2011

O processo de montagem do espetáculo foi orientado pela horizontalidade de funções

O processo de montagem do espetáculo foi orientado pela horizontalidade de funções

Foto Tadeu Gondim/Divulgação

O teatro pernambucano enfrentou, na primeira década deste século, uma pequena revolução. Pequena, porque silenciosa, ela foi acontecendo aos poucos e seus resultados ainda estão por ser devidamente aferidos. Mudança que não se fez sentir somente na cena local, mas atingiu gradualmente todo o teatro brasileiro, tendo como marco o Movimento Arte contra a Barbárie, que reuniu, ainda nos anos 90 do século 20, coletivos teatrais de São Paulo em busca de reconhecimento e políticas públicas para um tipo de criação e pesquisa artística que não pode viver à mercê das leis de mercado. Essa pequena revolução tem como eixo e principal aglutinador o teatro de grupo.

Embora a história do teatro local não possa ser contada sem recorrer à presença de elementos tão diversos e destacados quanto, entre outros, o Teatro Popular do Nordeste, o Teatro de Amadores de Pernambuco, o Vivencial Diversiones, a Cia. Teatro de Seraphim, a noção de grupo sofre um deslocamento razoável neste novo século. Enquanto, antes, as figuras do encenador e do dramaturgo desempenhavam papéis centrais, as tarefas artísticas eram definidas a priori e o espetáculo era o objetivo, nos grupos contemporâneos, a horizontalidade do trabalho e as instabilidades de um processo criativo cada vez mais compartilhado são as principais características. Perdem força o encenador, o dramaturgo e o produtor e ganha destaque o grupo.

Nesse novo modo de produção, os artistas visam trocar conhecimentos, experimentar formas de fazer, intercambiar funções, investigar escritas não estritamente dramáticas, provocar – mais que agradar – as plateias e intervir politicamente no mundo.

Em Pernambuco, não é possível avaliar os efeitos dessa pequena revolução sem citar o Coletivo Angu de Teatro, grupo que assume boa parte dos princípios que norteiam sua existência: um processo criativo altamente coletivizado e a mistura de artistas oriundos de várias linguagens, que resultam em encenações de estética híbrida, dialogando com a performance, a videoarte e a literatura. Criado em 2003 com o espetáculo Angu de sangue e contando ainda com outras duas peças no currículo, Ópera e Rasif, o grupo estreia este mês sua nova montagem, Essa febre que não passa, construída a partir de contos de livro homônimo da jornalista Luce Pereira.

Essa febre que não passa segue a trilha do repertório do grupo, que vem utilizando contos como material dramatúrgico desde o primeiro trabalho. “O conto instiga, dá mais liberdade ao ator, estimula a criação, a troca e o debate com o elenco”, explica André Brasileiro, integrante do Coletivo, que, depois de atuar como ator e produtor nos espetáculos anteriores, encara pela primeira vez a função de encenador. São cinco os contos, todos tendo mulheres como personagens centrais.

Em Clóvis, um casal lésbico deposita na adoção de um gato a esperança de salvar o relacionamento desgastado; Talvez já fosse tarde revela a presença de Bernarda, espécie de figura maternal, velha e enferma, na vida de uma narradora que tenta aproximar-se dela e render-lhe um último gesto de carinho; Nomes conta a história hilária de Maria do Ó, aspirante a uma vida sofisticada, que odeia nomes de pobre; Um tango para Frida Khalo mostra o encontro e as memórias de duas irmãs: uma conformada com o cotidiano doméstico e provinciano, a outra insatisfeita com a pequenez de sua vida; Dora descompassada, por fim, trata do gesto extremo e desesperado de uma mulher perturbada com a separação do marido.


Para se aproximar da proposta da autora, todo o elenco é formado por atrizes.
Foto: Tadeu Gondim/Divulgação

NO FEMININO
Se, nos trabalhos anteriores, o Coletivo Angu levou para a cena narrativas de grande apelo social, desta vez, o grupo dramatiza questões da intimidade feminina, expondo conflitos de natureza mais interior. Enquanto a escrita de Marcelino Freire (autor dos contos que deram origem a Angu de sangue e Rasif) revela as feridas do mundo contemporâneo, e a obra de Newton Moreno (responsável pelos contos de Ópera) investe fortemente nas questões da homoafetividade, com Luce Pereira, o grupo se aproxima de uma narrativa menos virulenta e mais suave, sem, no entanto, perder a principal característica de sua cena, a ironia e o humor. “Se os outros textos eram ‘socos no estômago’, os de Luce são ‘espetadas no coração’”, compara Marcondes Lima, que assinou a direção dos três espetáculos anteriores e, neste, assumiu a dramaturgia e a direção de arte.

O dramaturgista ou dramaturgo está cada vez mais presente no trabalho dos grupos teatrais contemporâneos. Além de uma assessoria teórico-crítica ao encenador, em geral, cabe a ele organizar o material dramatúrgico e arrematá-lo, tendo como ponto de partida as improvisações e laboratórios de criação, nos quais os atores exercitam soluções possíveis para as cenas. Em Essa febre que não passa, esse trabalho consistiu em analisar a natureza da narração, se em primeira ou terceira pessoa; transformar algumas passagens em diálogos; depurar o toque literário de alguns textos e transpô-los para uma linguagem mais coloquial; convocar as experiências pessoais do elenco para mesclá-las à ficção; além de criar elos entre os contos/quadros, apesar de muitas vezes as temáticas exibirem aparente distância.

“Somos fiéis, mas não reféns dos contos”, explica Marcondes Lima. “Os textos de Marcelino Freire têm um formato quase de depoimento, o que ele chama de ‘vexames’, porque as personagens chegam e dão escândalo. Por isso, foram levados por nós quase que integralmente para a cena. Já os de Newton Moreno se aproximam muito do formato dialogado do texto dramático. No caso de Luce Pereira, tentamos equilibrar essas duas estruturas”, esclarece, acrescentando: “Na Febre, buscamos uma âncora para a dramaturgia/encenação, algo com que pudéssemos alinhavar esses estados de solidão, insatisfação e crise. E só encontramos isso ao acessar a memória das atrizes”.

UMA FILOSOFIA
Respeitando o desejo de falar da experiência feminina, a equipe do espetáculo é composta quase integralmente por mulheres. Em cena estão Ceronhas Pontes, Hermila Guedes, Hilda Torres, Márcia Cruz, Mayra Waquim e Nínive Caldas. Além delas, compõe o time uma musicista – que toca violoncelo ao longo de todo o espetáculo –, uma iluminadora, uma videomaker e uma preparadora de elenco, Amanda Lyra. Paulistana, Lyra foi convidada especialmente para introduzir no grupo o treinamento de viewpoints, desenvolvido pelas americanas Anne Bogart e Tina Landau, e ainda pouco conhecido no Brasil.

Os viewpoints são, para os seus praticantes, mais que um método de treinamento de atores. São uma filosofia. Eles consistem em práticas de improvisação que privilegiam as conexões do coletivo, as relações do corpo com o espaço e o tempo, além da harmonia do movimento conjunto. Dividem-se em viewpoints físicos e vocais – cada um deles com subdivisões específicas – e objetivam trabalhar a atenção dos atores para a origem de cada gesto e ação, estabelecendo uma relação mais orgânica entre eles e o universo ficcional.

“É um trabalho feito junto com atores, mas com regras e balizas, para que eles possam encontrar canais criativos além dos já costumeiros, tirando as cartas da manga e abrindo a percepção. Como foi desenvolvido por americanos, é muito pragmático e objetivo, e tem o mérito de instaurar rapidamente a vocação comunal daqueles indivíduos, levantando muitas possibilidades e organizando rapidamente o coletivo”, afirma Lyra.


Foto: Tadeu Gondim/Divulgação

Esse sentimento de coletividade guiou o trabalho de direção. “Como diretor, acabo lançando o meu olhar de ator para quem está em cena, tentando me colocar no lugar dos colegas”, pondera André Brasileiro. Ele reforça que há no grupo um enorme estímulo para o ator-criador, que colabora com todas as etapas do processo e é propositivo. “Tentamos apreender o imaginário dos contos e discutir as experiências pessoais de cada atriz a partir daquele universo, quais personagens tocavam em questões que lhes eram comuns, buscando as relações familiares: mães, avós, tias etc. Então, elas criavam as cenas, colocando-se dentro das histórias”, lembra.

FACES
Se as noções de coletividade e família nortearam a criação de Essa febre que não passa, a constituição de um elenco totalmente feminino também teve papel decisivo na construção do espetáculo. “A encenação mostra as faces de uma mesma mulher e só ela poderia lançar um olhar delicado e agudo sobre as questões do abandono, da insegurança, das perdas e do amor na experiência feminina”, garante Brasileiro.

O Coletivo Angu vem representando essa alteridade em personagens que ganham visibilidade e voz em cena, como homossexuais, miseráveis e vários “outros” da cultura normativa. E se as representações da mulher no palco não são exatamente uma novidade, não deixa de ser notável que, neste espetáculo, as imagens do feminino sejam produzidas a partir de um texto assinado por uma mulher – algo raro no teatro – e rearticuladas em cena por outras mulheres.

Para bem traduzir essa visão do mundo, a direção de arte do espetáculo trabalha ideias de carnalidade e sexo nas cores e formas da cena. Além disso, a transparência é referência para a criação de figurinos e cenários. “Também passeamos pelas obras de vários artistas plásticos citados nos contos, mulheres fundamentais como Frida Khalo e Louise Bourgeois, mas também homens como Lucien Freud, Miró e Leonilson”, adianta Marcondes Lima. Como nos espetáculos Angu de sangue Ópera, a nova montagem dialoga ainda com a videoarte, ampliando o experimento com projeções.

Depois de estrear e realizar temporada no Teatro Hermilo Borba Filho até o mês de junho, o espetáculo circulará pelas cidades de Natal, Salvador e João Pessoa. Enquanto isso, o Coletivo Angu se prepara para nova empreitada: encenar os contos de Retratos imorais, mais recente publicação de Ronaldo Correia de Brito, que tem na experiência masculina seu ancoradouro. 

RODRIGO DOURADO, jornalista, mestre e doutorando em Comunicação Social.  

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