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Irandhir Santos: “É aqui onde vivo, aqui me fortaleço”

O premiado ator pernambucano, um dos nomes mais requisitados do cinema brasileiro contemporâneo, atesta a importância das raízes culturais no seu trabalho

TEXTO Dora Amorim

01 de Março de 2011

Irandhir Santos

Irandhir Santos

Foto Bernardo Dantas/Esp. Aqui-PE/D.A. Press

No dia desse encontro, Irandhir Santos estava prestes a deixar a cidade. Estava de férias, visitando a família e amigos, mas logo viajaria à Paraíba, depois ao Rio de Janeiro e, no final do mês de janeiro, estaria em Minas Gerais, onde receberia uma homenagem no Festival de Cinema de Tiradentes. O ator, nascido na cidade de Barreiros, agreste pernambucano, está habituado à rotina das viagens. Durante a infância, mudou constantemente de endereço, pois seu pai, gerente de banco, era transferido para uma nova agência a cada dois anos.

Aos 32 anos, Irandhir é saudoso ao falar do primeiro contato com o teatro, ainda criança, na cidade de Limoeiro. Foi na 7ª série que entrou em cena, atuando numa adaptação do Pai-nosso: “Lembro a sensação de ser visto em um palco. Houve o prazer de estar ali apresentando algo”. Após essa experiência, Irandhir nunca deixou de atuar. Dono da voz de José Renato, geógrafo do premiado longa-metragem Viajo porque preciso, volto porque te amo (Marcelo Gomes e Karim Airouz), e do papel do deputado Fraga, de Tropa de Elite 2 (José Padilha), obra mais vista do cinema nacional, Irandhir Santos é considerado um ator destacado em sua geração. Em 2011, vai estrelar mais quatro filmes, atualmente em fase de pós-produção: A febre do rato (Cláudio de Assis), O som ao redor (Kleber Mendonça Filho), A luneta do tempo (Alceu Valença) e A hora e a vez de Augusto Matraga (Vinícius Gentil Coimbra).

Desde 2005, quando entrou pela primeira vez num set de filmagens (de Cinema, aspirinas e urubus), Irandhir realizou 14 trabalhos no cinema e ganhou nove prêmios. Acostumado com o ritmo e a estética teatral, o seu primeiro teste foi um pouco desastroso: “Achei que ia ter tempo para aquecimento”, relembra. Por sorte, tinha à sua frente o diretor Marcelo Gomes, que lhe deu o papel e o levou a uma carreira promissora. Longe do teatro há seis anos, o ator está desenvolvendo um novo projeto para marcar sua retomada, ao lado do amigo e também ator Kleber Lourenço.

Incentivado pelos pais, Irandhir, o mais jovem de três irmãos, chegou ao Recife ainda adolescente, para estudar para o vestibular. Na cidade, fez parte do grupo teatral Somente, no colégio CPI, liderado por André Cavendish. Se a capital pernambucana era intimidadora para um jovem do interior, nesse período, ele reencontrou o teatro e, nos palcos, aprendeu a gostar da cidade, dos companheiros, da escola e da rotina no Recife. “A experiência com o André foi importante, porque ele não só trouxe o contato com a arte da interpretação, mas com tudo que envolve o teatro, a política de construir um grupo, a imersão nos textos. A partir daí, você pensa figurino, iluminação, som”, lembra o ator.

ANOTAÇÕES
Com o grupo Somente, Irandhir ficou um mês em cartaz, no Teatro Barreto Júnior, atuando no espetáculo A importância de ser prudente, de Oscar Wilde. Nessa ocasião, conheceu o ator e pesquisador teatral Leidson Ferraz, que, um ano depois, o convidou a fazer parte da peça Alheio, (2000), sob sua direção. Aos poucos, Irandhir integrou outros projetos, viajou pelo Brasil e aprimorou técnicas de interpretação. Como aluno do curso de Artes Cênicas da UFPE, ampliou seu olhar sobre o teatro contemporâneo e pôde aprimorar os próprios métodos. Nas aulas com o professor Marcondes Lima, por exemplo, ele diz que “encontrou” uma das suas principais ferramentas: o caderninho de anotações.

Irandhir carrega consigo, nos sets de filmagem, um caderno, no qual desenvolve e constrói, através de textos e desenhos, o seu personagem. “Marcondes fazia questão de a gente escrever, desenhar, levar em consideração os nossos primeiros traços, guardar aquilo. O que me levou ao que hoje chamo de ‘minha maneira de trabalhar’: os meus desenhos, anotações.”


No papel de Zizo, poeta revolucionário e anárquico do filme A febre do rato, de Cláudio Assis. Foto: Daniela Nader/Divulgação

Quando estava em Taperoá, sertão paraibano, filmando a série televisiva A Pedra do Reino (dirigida por Luiz Fernando Carvalho e baseada na obra de Ariano Suassuna), o psicanalista Carlos Bayton conversou com a equipe sobre símbolos e signos e alertou os atores a prestarem atenção aos seus sonhos, através dos quais eles também criavam. Depois desse encontro, Irandhir passou a dormir com o caderninho ao lado da cama. Uma noite, sonhou com uma imagem que desenhou e apresentou ao diretor no dia seguinte. Ela foi transformada no figurino da fase madura de Quaderna.

Estimulado pelo contato com a obra de Ariano Suassuna, Irandhir teve, através de Quaderna, um reencontro com suas origens. “Foi um trabalho de descobrimento para mim, porque o personagem tem uma postura de olhar para o mundo e para as questões da vida através da religiosidade e da natureza sertaneja. Deve ser por isso que hoje não saio do Recife, é aqui onde vivo, aqui me fortaleço. O Quaderna veio à minha vida para me ensinar isso.”

ENTREGA ABSOLUTA
Irandhir não tem planos de deixar o Recife. Como no título da obra que o consagrou como um dos melhores atores da sua geração, Viajo porque preciso, volto porque te amo, Irandhir precisa voltar para casa após cada trabalho. “É fundamental para mim estar aqui, como artista e ator que utiliza o corpo para ser outra pessoa. Tenho que ter o máximo da vivência do meu corpo sendo eu nos meus lugares.” Nesse road movie,ele precisou “abdicar” de uma grande ferramenta: o seu próprio corpo. Essencialmente narrativo, o filme de Marcelo Gomes e Karim Ainouz estimulou Irandhir a trabalhar outro instrumento igualmente importante: a voz.

E foi sem um corpo materializado em cena que o ator interpretou a passagem do personagem José Renato pelas estradas do Nordeste brasileiro. Para fazê-lo, Irandhir recorreu às suas lembranças e acabou por reconhecer aquela paisagem árida das memórias de sua infância, quando viajava com o pai. “Nada se compara à emoção que tive ao assistir ao filme. Em nenhum outro trabalho fiquei tão emocionado quanto emViajo.

Elogiado pelos diretores com quem já trabalhou e pela crítica especializada, Irandhir foi várias vezes chamado de “gênio” pelo cineasta José Padilha, quando trabalharam juntos em Tropa de elite 2. A sua absoluta entrega aos personagens e a meticulosa preparação fazem dele um artista diferenciado. A cada filme, realiza pesquisas intensas para compor o personagem e, durante o período de filmagens, não se afasta da história: “O caderno me ajuda muito, porque coloco tudo lá e, uma vez concluído o trabalho, só é fechá-lo e pronto”. Influenciado pelo teatro, especialmente pelo método de interpretação criado por Stanislavski, Irandhir conseguiu criar personas que são completamente diferentes umas das outras.

Além da versatilidade dos papéis, o ator se destaca pelo apelo cênico de suas interpretações, renuncia à voz, ao corpo e às suas próprias características para viver um personagem. Ele atribui a boa recepção às suas atuações ao trabalho intenso que realiza durante os ensaios e à experiência nos palcos. Enquanto em Viajo porque preciso, volto porque te amo, ele constrói José Renato através da sua voz, em A Pedra do Reino, Quaderna dependia essencialmente do corpo para se expressar.


Irandhir teve, através do personagem Quaderna, um reencontro com
suas origens. Foto: Divulgação

POETA E DEPUTADO
Fã do diretor Cláudio de Assis, Irandhir fica entusiasmado ao falar do cineasta. Juntos fizeram Baixio das bestas (2007), uma obra sobre os desencantos da Zona da Mata de Pernambuco, e A febre do rato(em pós-produção). Em seu novo filme, Assis reflete sobre os padrões e preconceitos da sociedade contemporânea, pelos olhos de um poeta que criou um universo particular no Recife.

No papel de Zizo, poeta revolucionário e anárquico, Irandhir lidera um grupo não aceito pela sociedade. “Walter Carvalho, o fotógrafo do filme, falou que queria captar, com a câmara, a reação das pessoas ao poeta e aos seus amigos, quando estivessem na cidade”, disse o ator. E foi exatamente isso que aconteceu no dia 7 de setembro de 2010. Após gravarem uma cena na qual os personagens de Irandhir Santos e de Nanda Costa tiravam as suas roupas, a Polícia Militar chegou ao set de filmagens, atendendo a uma denúncia de atentado ao pudor.

Durante a preparação, e ainda nos sets de filmagem, Irandhir teve contato com vários artistas pernambucanos, especialmente com o poeta-declamador Miró: “Ele tem uma escrita que funciona muito bem no papel, mas ganha corpo quando falada, principalmente, por ele mesmo. O meu Zizo, escritor do jornal A febre do rato, também declamava o que escrevia, então procurei fazer com que o seu declamar fosse tão forte quanto o de Miró”.

Antes de participar de A febre do rato, o artista estava envolvido em outro projeto do também cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho: “Hoje, Recife é diferente para mim, em função dessas duas experiências. Elas me fizeram olhar o meu lugar de outra forma”. Em O som ao redor, Kleber continua sua investigação sobre as questões urbanas e as mudanças da estruturação física e social das cidades, como fez no curta-metragem Eletrodoméstica. Nessa produção, o personagem de Irandhir é Clodoaldo, chefe de segurança.

Para construí-lo, o ator mudou-se para Setúbal, bairro da zona sul do Recife, e passou 40 dias acompanhando um grupo de segurança privada. “O Clodoaldo é interessante porque a relação dele com a cidade dá-se através da noite.” Irandhir observou como esses homens acompanhavam as mudanças urbanas e quais as suas funções dentro da nova ordem social. “São pequenas coisas que você observa no comportamento deles, como a relação com a tecnologia, com os muros que cada vez mais sobem e isolam. Ao mesmo tempo, você acha que está só, mas as janelas o observam o tempo todo; foi uma forma diferente de perceber a cidade, importante para eu entender o filme.”

Ao aceitar o papel de Diogo Fraga, em Tropa de Elite 2, Irandhir Santos pressentia o grande sucesso da produção. Mas não poderia prever os mais de 11 milhões de espectadores que fizeram do filme o mais visto na história do cinema nacional, ultrapassando o êxito de Dona Flor e seus dois maridos, de Bruno Barreto. Inspirado no deputado carioca Marcelo Freixo, do PSOL, o seu personagem foi construído com a ajuda da preparadora de elenco Fátima Toledo.

Confrontando o herói nacional Capitão Nascimento (Wagner Moura), o deputado Fraga representa a luta de várias organizações e entidades em favor dos diretos humanos. O “professorzinho de esquerda”, descrito por Nascimento, logo no início do longa, é um elemento fundamental dentro do universo social reproduzido no filme. Com Tropa de Elite 2, o ator tornou seu rosto conhecido em todo o país e deu um grande passo em sua promissora carreira. 

DORA AMORIM, estudante de Jornalismo e estagiária da Continente.

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