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Arqueologia: Patrimônio pré-histórico

Parque Nacional do Catimbau, área ambiental e turística de 62 mil hectares no sertão pernambucano, abriga dezenas de sítios com pinturas rupestres, vestígios milenares do homo sapiens no Nordeste

TEXTO DANIELLE ROMANI
FOTOS LÉO CALDAS

01 de Dezembro de 2010

Igrejinha do Vale do Catimbau é um dos diversos atrativos do parque nacional

Igrejinha do Vale do Catimbau é um dos diversos atrativos do parque nacional

Foto Léo Caldas

O Parque Nacional do Catimbau é dotado de uma beleza pétrea, imponente, agreste. Seus imensos paredões de rocha, cânions, vales e planícies, são indiscutíveis atrativos para o homem moderno, que dispõe na região de um santuário ambiental e turístico. Mas a atração humana pelo local é bem mais antiga. Há décadas, o Catimbau passou a ser visto como um importante laboratório para os estudiosos da pré-história nordestina, que vêm descobrindo, em toda sua extensão, dezenas de sítios com pinturas rupestres e vestígios milenares do homo sapiens.

“O Catimbau é um patrimônio não apenas para o Nordeste, mas para o Brasil”, afirma Marcos Albuquerque, coordenador do Laboratório de Arqueologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), e um dos pioneiros na área, desde que, no final da década de 1960, passou a percorrer os 62 mil hectares do então Vale do Catimbau – como ainda continua a ser chamado –, que se encontram distribuídos por três municípios do sertão pernambucano: Buíque, Tupanatinga e Ibimirim.

“Em 1969, começamos as pesquisas no Vale a partir dos relatos de guias e moradores. Nos anos seguintes, encontramos mais de 20 sítios pré-históricos, entre eles o batizado de PE-48-MXa, localizado dentro de uma caverna, onde obtivemos datação de 6.640 anos BP(Before Present).” Nesse sítio, foram achados esqueletos – incluindo o de uma mulher, que foi doado ao Museu de Buíque – , sepultamentos em posição fetal, material lítico lascado e fogueiras.

ALCOBAÇA
O trabalho de Marcos abriu caminho para a pesquisa de outro local, hoje considerado o mais importante núcleo de estudos pré-históricos da região: o sítio Alcobaça, que reúne um grande painel, com dezenas de pinturas e gravuras sobrepostas, realizadas em épocas diversas, por diferentes homens pré-históricos. Além de vestígios de fogueiras, enterramentos secundários – em que foram obtidas datações por carbono 14 – apontam ter havido ocupação humana entre 4.243 mil a 880 anos BP.

O estudo da área foi realizado em 1989 por Gabriela Martin, responsável pela montagem e criação do Núcleo de Arqueologia da UFPE, em 1970. Num artigo publicado na revista Clio Arqueológica, de 2005, ela o descreve como um sítio a 800 metros sobre o mar, localizado no pé de um monte, num vale fechado em forma de U, com aproximadamente 70 metros de comprimento e 14 de largura, com altura entre 8 a 10 metros, que teria servido de abrigo para vários grupos durante quatro milênios.

“As pinturas são os vestígios mais visíveis, de maior impacto, porém, o mais importante em Alcobaça são os enterramentos secundários e as datações, que nos possibilitam entender as sucessivas passagens humanas. Pelos indícios de ocupação intensa, situação e acumulação de registros rupestres – gravuras e pinturas – nas suas paredes e blocos caídos, esse abrigo merece uma atenção especial e uma escavação arqueológica demorada e completa”, explica.

As pesquisas realizadas por Gabriela Martin foram o começo de estudos mais aprofundados no Catimbau. Mas são apenas uma ínfima parte do que se tem disponível no Vale e em Pernambuco. Por causa das enormes possibilidades de estudo no Estado, um amplo mapeamento arqueológico sobre os sítios pernambucanos foi iniciado em 2009 por uma equipe de profissionais comandada pela professora francesa Anne-Marie Pessis.

Patrocinado pelo Programa Nacional de Excelência, uma das linhas disponibilizadas pela Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia (Facepe) para pesquisas do porte, o trabalho coordenado por ela promoverá, num primeiro momento, o mapeamento de todas as áreas com grafismos rupestres no Estado, incluídas todas as localidades do Catimbau, o que permitirá conhecer mais sobre vários sítios.

OUTRAS ÁREAS
O rio São Francisco foi um centro de atração e caminho natural de grupos pré-históricos. Tanto que uma das regiões mais importantes de estudos encontra-se em Petrolândia, localidade que abriga a mais antiga descoberta arqueológica em território pernambucano. Foi lá, na década de 1930, que o etnólogo Carlos Estevão realizou escavações na Gruta do Padre. Na década de 1960, o arqueólogo Valentin Calderón tornou a escavá-la. Posteriormente, entre os anos de 1982 e 1986, a professora Gabriela Martin, então coordenadora do projeto Itaparica de Salvamento Arqueológico em Pernambuco, comandou novas escavações à gruta, com resultados satisfatórios.


Sítio Alcobaça é considerado o mais importante local de estudos pré-históricos da região

“A Gruta do Padre teve duas ocupações diferentes e delimitadas. Na fase mais antiga, compreendida entre 7 mil a 4,5 mil BP, serviu como abrigo de caçadores. No segundo período, entre 4 mil e 2,5 mil BP, teve o mesmo uso. Muito depois, ela foi ocupada como necrópole durante um longo espaço de tempo, possivelmente a partir de 2 mil BP”, explica Gabriela Martin, no livro Pré-História do Nordeste do Brasil, publicado em 1996 pela Editora Universitária/ UFPE, e hoje na sua 5ª edição.

Outra importante região de achados arqueológicos é a de Brejo da Madre de Deus, no Agreste pernambucano. Lá, segundo o IPHAN, existem mais de 50 sítios com pinturas rupestres, o que permite afirmar ser uma das maiores concentrações do Estado. O mais importante é o da Furna do Estrago, onde foram encontrados vários sepultamentos, que permitiram comprovar que ali estiveram pessoas.

Outro local considerado fundamental para melhor compreender a pré-história pernambucana é a região de Bom Jardim, município do Agreste Setentrional. Nas décadas de 1960 e 1970, o arqueólogo Armand Laroche escavou vários sítios, entre eles o conhecido como Chã de Caboclo, no qual se identificou uma indústria lítica de artefatos unifaciais. Mas o principal achado de Bom Jardim foi a datação de 11 mil anos BP, a mais antiga de todo o território do Estado.

Outra importante localidade a ser estudada pelos pesquisadores é a região de Araripina, cujo destaque se deve ao achado de cerâmicas no local, indicativo de que pode ter sido ocupada por grupos sedentários. “A presença de cerâmica pode revelar que a região foi ocupada permanentemente”, diz Gabriela Martin.

PARA ENTENDER OS TERMOS TÉCNICOS
Assim como as demais ciências com linguagem específica, a Arqueologia nem sempre é compreensível aos leigos.

A sigla BP, largamente utilizada nesta reportagem, refere-se ao termo inglês Before Present, ou antes do presente, em português. Ela começou a ser mundialmente utilizada a partir de 1950, ano em que o químico Willard Frank Libby (1908- 1980) obteve a primeira datação radiocarbônica na Universidade de Chicago. Em 1960, devido à descoberta, ele receberia o prêmio Nobel de Química.

Deve-se prestar atenção para outra faceta desta sigla: todas as datas seguidas do termo BP, referem-se ao ano de 1950 como marco, quando a sigla foi criada por Libby, e não à época atual.

Já o termo enterramentos secundários refere-se a casos em que os ossos foram retirados de uma sepultura inicial, e novamente enterrados no local.

Quanto à era chamada de Pleistoceno, período em que está inserida a maioria dos achados arqueológicos, vai de 2 milhões de anos a 11 mil anos BP. O Holoceno, fase mais recente desses achados, é o nome atribuído aos últimos 11 mil anos da história da Terra.

Leia também:
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