Um vilarejo com belezas naturais e histórias para contar aos visitantes
O passeio pede uma parada no Museu do Una, que preserva o cotidiano de moradores, e a contemplação da vegetação de mangue em jangadas
TEXTO Cleide Alves
03 de Fevereiro de 2026
Várzea do Una é um paraíso no Litoral Sul de Pernambuco
Foto Leopoldo Conrado Nunes
Várzea do Una, um povoado de São José da Coroa Grande, no Litoral Sul de Pernambuco, é um lugar que oferece surpresas aos visitantes. Quando você pensa que está no meio do nada, eis que surgem o estuário do Rio Una (área de transição entre o rio e o mar) com seu manguezal exuberante, a Ilha da Piranga e um museu. Construído de frente para a ilhota, composta de vegetação de mangue, o Museu do Una é um fiel depositário da história da comunidade. E o melhor: o acesso é gratuito a todos os visitantes.
Lá encontram-se as primeiras ferramentas de trabalho do carpinteiro naval José Rodrigues de Barros (Mestre Zuza), panelas que Maria do Carmo dos Santos da Silva usava para cozinhar peixes e crustáceos pescados no estuário e Tuti, o tatu-peba fêmea que era o xodó de João Braz. “O museu faz parte da vida dos moradores e os moradores fazem parte da vida do museu, é um lugar seguro onde as famílias deixam seus objetos de maior apreço”, destaca o fundador e curador do espaço, Bertrando Bernardino.
A ideia de fundar o museu nasceu por volta de 1998, quando o engenheiro mecânico Bertrando Bernardino, natural de Caruaru, no Agreste pernambucano, estava na Ilha da Piranga e exclamou: “Que lugar bonito! Vou fazer um museu aqui.” Dito e feito. O Museu do Una foi inaugurado em 22 de abril de 2000 e nesse mesmo dia ele plantou um pé de mogno brasileiro e outro de pau-brasil na frente da casa, onde também se vê um pau-de-jangada, árvore usada na confecção de pequenas embarcações.
Tudo no museu está conectado. O pau-de-jangada, por exemplo, remete à pesca e à carpintaria naval, principais atividades econômicas de Várzea do Una, distante 114 quilômetros do Recife. Jalécio Barros, filho de José Rodrigues de Barros (1944-2004), é carpinteiro naval no vilarejo, onde mora e mantém um estaleiro. “Nós temos muito carinho e afeto pelas ferramentas dele. No museu, martelo, plaina manual, serrote, enxó, esquadro e compasso servirão para o conhecimento das novas gerações”, declara Jalécio Barros.
Maria do Carmo dos Santos da Silva, que todos chamam de Carminha, doou duas peças do restaurante que mantém em Abreu do Una, comunidade vizinha a Várzea do Una, há 29 anos. “Fiquei muito emocionada quando vi as panelas no museu, pela primeira vez. Nessas panelas, no fogo de lenha, eu fiz muitas refeições para os clientes: aratu, guaiamum, caranguejo, peixes, depois areava uma por uma”, diz Maria do Carmo, acrescentando que ficou feliz por compartilhar parte da sua história com o museu.
Educação
A gestora da Escola Estadual José Rodrigues de Barros, Valmira Maria Leão Raposo Marques, define o local como “um campo vivo para experiências extra-classe.” Professores das disciplinas de biologia, química, física e linguagens levam estudantes ao museu o ano todo. “É um ambiente de pesquisa vasto, pela diversidade de plantas da mata atlântica e pelo acervo que o espaço oferece, fundamental para preservar a história e despertar nos alunos a importância da conservação do território onde vivemos”, diz Valmira Marques.
A área verde citada pela gestora é o parque do museu, com três mil metros quadrados, onde Bertrando Bernardino mantém plantas brasileiras, como canela, jacarandá, craibeira, pau-formiga, jatobá, barriguda, munguba, abricó-de-macaco, angico, brunhaém, samaúma, seringueira e outras espécies. “O museu nunca recebeu patrocínio ou contribuição financeira de órgãos governamentais ou particulares, exceto a doação de um computador e alguns livros do Ministério da Cultura para a nossa biblioteca já existente”, ressalta.
“Temos painéis para expor representações de répteis e anfíbios, de botânica (folhas de pau-de-jangada, pau-brasil e aroeira-vermelha, de malacologia (conchas), de zoologia (animais fossilizados), de ambientes recifais (corais) e de mineralogia (quartzo, berilo azul)”, observa Bertrando Bernardino. O espaço, informa, funciona como um centro de estudos para as escolas da região. Ele é consultor de projetos industriais em Pernambuco e Manaus, e mantém o museu com recursos de imóveis alugados, de sua propriedade.
Um mapa afixado na parede, logo na entrada do museu, traz informações sobre o Rio Una, que nasce no município de Capoeiras, no Agreste pernambucano, e corre 265 quilômetros até chegar em Várzea do Una, para se encontrar com o oceano. O estuário do rio é habitado por garça, socó, tamatião, carapeba, aratu, caranguejo, guaiamum. No manguezal, ambiente considerado o berçário da vida marinha, há um bosque de mangue-vermelho, mangue-branco, mangue-preto, mangue-de-botão, avencão e algodoeiro-da-praia, além de bugi e canoé.
Vale a pena fazer passeios pelo estuário para conhecer o istmo e outros paraísos, como a Praia de Várzea do Una, que geograficamente fica em Barreiros. Sem qualquer tipo de construção, a praia é separada do istmo por uma área de restinga. “Aqui, fica evidente a importância da conservação desse ecossistema (restinga) para a proteção das praias, o mar respeita o rio e o rio respeita o mar, cada um tem seu espaço, sem briga”, comenta Bertrando Bernardino. O museu, para ele, é um legado. “É uma filosofia de vida, uma forma de mostrar a necessidade de se fazer o bem para a coletividade”, ressalta.
A pesca é uma das principais atividades no vilarejo de Várzea do Una, em São José da Coroa Grande. Foto: Leopoldo Conrado Nunes/Cepe
O manguezal do estuário do Rio Una é um dos atrativos de Várzea do Una. Foto: Leopoldo Conrado Nunes/Cepe
Passeio de jangada pelo estuário do Rio Una leva ao manguezal, ao istmo e a praias. Foto: Leopoldo Conrado Nunes/Cepe
O estuário do Rio Una abriga mangue-vermelho, mangue-preto e mangue-branco, mangue-de-botão, avencão e algodoeiro-da-praia. Foto: Leopoldo Conrado Nunes/Cepe
O Museu do Una expõe exemplares de animais capturados em Várzea do Una, como o guajá da foto de Leopoldo Conrado Nunes/Cepe
Ossos de baleia em exposição no Museu do Una, em São José da Coroa Grande. Foto: Leopoldo Conrado Nunes/Cepe
Serviço
Várzea do Una: vilarejo a 114 quilômetros do Recife
Museu do Una: aberto aos visitantes às sextas (12h às 16h) e sábados (10h às 16h)
Endereço: Rua José Rodrigues de Barros
Passeios de jangada: Praia do Porto, Pedra Grande, foz do Rio Una, Paraíso do Una, com agendamento pelo número (81) 9 9278-3061
Veja outras curiosidades do Museu do Una no aplicativo da revista Continente.