As giras de Fykyá Pankararu
Novidades antiquíssimas nas alquimias da arte e da vida
TEXTO Renata Pontes
01 de Abril de 2026
Foto Bia Pankararu
O tempo é transformação entre as coisas”, recita com ciência Fykyá Pankararu. Quem teve a chance de apreciar e, sobretudo, experimentar sua arte, sente a intriga de elementos que escapam à noção do comum. Entre as coisas: esculturas, canções e corporeidades híbridas que contam histórias de indiferenciação entre paisagens, humanos e animais. Transformações do tempo: ancestralidade, princípio-matriz que interrelaciona tudo no cosmos, encarnado em existências coletivas e diferenciadas do agora e do que ainda está por vir. Sobreposições inesperadas em tempos de transformação: gira, gira o tronco e da cabeça se desprende uma novidade tão antiga, que ninguém conhece mais. São saberes e visões de mundo que pulsam e, resilientes, travam uma silenciosa batalha por reconhecimento. Nas alquimias da arte e da vida, como respondemos a cosmopercepções que nos constituem, mas que, por sucessivos processos de exclusão, já não matizam nossas sociedades?
Zelador de Praiá – uma encarnação dos encantados, entidades espirituais da cosmologia pankararu, mediadores entre o mundo humano e uma força superior, que vestem fibras de caroá e dançam em rituais da comunidade – Fykyá, hoje com 26 anos, integrou desde que se iniciou na espiritualidade, aos 14 anos, as características da entidade que cuida, O Rei Camaleão. Na língua pankararu, Fykyá quer dizer camaleão. Na linguagem de Leonardo Silva – seu nome de nascimento –, camaleão quer dizer Fykyá. Formas de muitas formas que se cruzam e terminam de fazer sentido, se juntas e misturadas, parecem orientar toda vivência e fazer artístico de Fykyá. Indígena LGBT que, em sua aparência, gestualidade e criação, escapa de qualquer imagem ou conceito-padrão, Leonardo, Fykyá, Leo (como é mais conhecido na comunidade), com sua intensa vida e prolífica arte, convida a variadas incorporações.
Para explicar a presença da tradição em todo indígena pankararu, os mais velhos da comunidade dizem: “não nego meu natural”. Essa assertiva ajuda a entender como aspectos do mundo cósmico participam da vida cotidiana, ainda que as duas realidades tendam a coexistir em esferas separadas. Artista que, sempre orientado à comunidade, busca servir, Fykyá acredita que arte indígena é tudo que podemos tocar e transformar, e seu sentido vai além do que a sociedade (brasileira) entende e dissemina. Se isoladas das complexidades do pertencimento e desligadas das inevitáveis transformações do mundo de hoje, as especificidades de uma arte indígena podem ser demarcadas por uma visão romantizada que continua reproduzindo ideias genéricas (e desinformadas) sobre a relação com a floresta e a espiritualidade.
Sobre a sugestão de que o barro deveria ser usado exclusivamente para produzir loiça (louça) ou que a sua musicalidade deveria se restringir aos instrumentos tradicionais indígenas como o pífano e o maracá, Fykyá rebate: “Limitar a arte indígena ao que encaixa é como colocar uma corrente na perna e dizer você não pode correr, você só pode andar até certo ponto”. E complementa: “o que faço hoje é mais uma transformação, criando um estilo capaz de se comunicar com pessoas de dentro e de fora da realidade pankararu”.
“A diversidade está até no que nos é igual”, diz Bia Pankararu, produtora fotográfica de muitos trabalhos de Fykyá. Ao discorrer sobre a presença do parente (como os indígenas costumam se chamar mutuamente) na vida pessoal, íntima, Bia fala sobre comunhão de ancestralidade e cultura e de novas formas de encarar o que é seu. Uma pessoa que se autoprovoca e desperta várias inquietações, inclusive, em alguém tão próximo (em idade e afeto) como ela, Fykyá “traz toda a bagagem da ancestralidade e dá um passo ousado, quase um passo de dança, que rompe os limites do entendimento”, destaca Bia.
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