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“Espero ter muito tempo para escrever mais”

Premiado autor pernambucano, que prepara dois novos livros, fala sobre o processo de criação literária, o papel da crítica, dos prêmios e do jornalismo atual e a importância, em sua vida, da fé

TEXTO Débora Nascimento

16 de Junho de 2026

Raimundo Carrero em seu apartamento

Raimundo Carrero em seu apartamento

Foto Débora Nascimento

Entrevista publicada em julho de 2012 *

“No princípio nem pensava em religião, nem nada, agora as pessoas falam, todas as pessoas falam e falavam em Deus. Umas para ressaltar os prazeres do Paraíso, outras para negar a existência divina. E outras, bem outras, que tinham orgulho de não acreditar em Deus”. O trecho é de A minha alma é irmã de Deus, romance agraciado, em agosto de 2010, com o Prêmio São Paulo de Literatura. O título do livro de Raimundo Carrero não é apenas lírico e sublime, mas guarda uma característica marcante: a ligação do autor com o divino.

O escritor pernambucano é uma pessoa religiosa, e agora, mais do nunca, apega-se à fé no enfrentamento dos problemas decorrentes do acidente vascular cerebral que sofreu dois meses depois de ter recebido a citada premiação. O derrame provocou uma paralisia nos movimentos do lado esquerdo do seu corpo, o que fez com que, ainda hoje, o romancista escreva teclando apenas com o dedo indicador da mão direita. Mas isso não o impede de criar. “Eu adoeci, mas não morri. Continuo trabalhando do mesmo jeito, graças a Deus”, conta, ressaltando que escreve todo santo dia e ainda voltou a dar aula nas suas oficinas literárias e a fazer palestras pelo país.

Seguindo esse ritmo profícuo, Carrero lançou, no ano passado, Seria uma sombria noite secreta (Record) e agora prepara mais dois livros, a novela Tangolomango, ritual das paixões desse mundo, e Às vésperas do Sol, um livro autobiográfico, em que abordará a difícil experiência da doença e o processo de recuperação, que vem lhe exigindo uma carga máxima de determinação, paciência e esperança. “Nesse livro que vai entrar agora, entra o passado dentro do presente com algumas coisas, com alguns momentos de reflexão, de análise da minha vida, de como foi minha vida, meu comportamento”, conta o escritor.

Em seu apartamento, no bairro do Rosarinho, Carrero concedeu esta entrevista, numa tarde de sexta-feira, antevéspera do São João de 2012, na qual duas de suas simpáticas irmãs o visitavam. Sentado numa poltrona, de frente à TV desligada, o autor, vestido com a camisa do evento literário Free Porto, tinha a seu lado direito uma mesinha repleta de objetos, entre eles dois terços. “Rezo o terço todo dia...". Na conversa, lembrou com emoção do início da carreira, quando recebeu ensinamentos de Ariano Suassuna; falou do seu processo de criação literária, da importância dos prêmios, do papel da crítica e do jornalismo atual, e também de sua maior ambição como escritor: escrever a biografia de Jesus Cristo e de Nossa Senhora.

Como está o processo de escrever após o AVC?
Teoricamente não mudou nada. Porque costumo escrever meus livros da seguinte forma: primeiro, escrevo um texto inteiro - digamos que seja um rascunho, mas é um texto inteiro. O computador favorece muito isso. Depois, vou entrando, mexendo, mudando, alterando; mudo sequências. É o que eu estou fazendo agora. Agora estou escrevendo um romance. Então, terminei e tenho duas versões. Vou agora fazer a última versão definitiva. Agora, o que está me dando trabalho é que estou escrevendo com um dedo só. Minha mão esquerda não trabalha.

Você não tem ninguém que lhe ajude na digitação?
Não tenho e nem quero. Porque literatura é uma coisa muito particular, muito privada. Você tem que fazer sozinho. E até o ato de digitar é um ato de criação. O digitar é muito bom. Ou o datilografar, como era antigamente. E isso é fundamental, e é importante. Não é bom mudar, não. Então, eu mesmo faço. As pessoas até pedem, “Deixe que eu faço”. Não, pra quê? Eu faço com muito trabalho, mas faço. Agora o que pode acontecer é que o computador pode mudar o tamanho da letra, pode mudar pra itálico, pra negrito, e eu não gosto. Então atrapalha um pouco, mas eu faço. Estou conseguindo trabalhar. O meu processo criativo continua o mesmo. Anoto muito pouquinho da história, crio o nome dos personagens, depois começo a trabalhar. Até que faço com rapidez, não diminuiu a minha força criativa. Continuo trabalhando normalmente. Estou escrevendo dois livros: Às vésperas do Sol, que é um livro autobiográfico sobre a minha doença, e uma novela, chama-se Tangolomango, ritual das paixões desse mundo. E vou começar um novo livro, que vai se chamar As testemunhas da solidão, que é um livro para os leitores, porque eles são testemunhas da solidão do autor. Já escrevi dois para escritores. Agora vou escrever um livro para leitores, sobre como ler romance, como ler prosa. Já tenho alguma coisa anotada. Logo, logo, eu começo e termino esse aí. Eu adoeci, mas não morri. Continuo trabalhando do mesmo jeito, graças a Deus.

Você escreve diariamente?
Diariamente. Pode ser que eu não escreva muito, mas escrevo. Até porque isso é uma técnica considerada do romance. Quem escreve romance não pode parar. Conto não, porque você escreve um conto hoje, um conto amanhã, outro depois de amanhã e pode escrever normalmente. Enquanto no romance não, você tem que ter sequência, movimento, tem que manter o ritmo. E esse ritmo só é mantido, se você escrever todos dos dias, nunca parar, nem que seja pra mudar uma letra, uma palavra, uma vírgula, um ponto, mas tem que mexer, tem que ler tudo o que fez, e depois escrever.

Você está escrevendo esses livros simultaneamente?
Às vésperas do Sol e o romance estou fazendo quase ao mesmo tempo. E esse terceiro estou fazendo à base das minhas aulas, que, aliás, voltei a dar aula.

Como vai ser esse livro autobiográfico? Será a partir da doença ou desde os primórdios do menino Carrero?
Não, o menino vai ser mais tarde. Vou escrever um dia, se interessar a alguém, a minha autobiografia. Mas isso será depois, muito depois, muito depois. Quando eu ficar velho, eu escrevo. Eu tenho muita coisa anotada. Nesse livro que vai entrar agora, entra o passado dentro do presente com algumas coisas, com alguns momentos de reflexão, de análise da minha vida, de como foi minha vida, meu comportamento, quais as minhas conquistas, os meus fracassos, as minhas vidas em cada situação do mundo. Acho que farei isso com algum cuidado. Mas logo, não vai demorar muito.

Vai sair por qual editora?
No momento, eu tenho meu compromisso de mandar meus originais para a Record. Mas nem a editora Record tem compromisso comigo de publicar o que eu mandar, nem tenho o compromisso de publicar sempre pela Record. Quero publicar sempre pela Record, espero publicar por ela, mas a Record não é obrigada a publicar. Apenas nós temos um contrato fictício de que tudo que escrevo, mando pra eles. Eles aprovam ou não. Não têm compromisso comigo de publicar.

Você pretende terminar quando?
Espero terminar até setembro, no máximo. Ele já está escrito, basta que eu me concentre e tenha determinação de escrevê-lo. Já está escrito em grande parte. Agora é dar a última redação.

Depois que um livro seu está publicado, você o relê?
Releio à medida que vão saindo as críticas. Quando alguém bota defeito, vou ver o meu romance, e ver se realmente cometi aquele defeito ou se o crítico é bobo. Agora não leio sistematicamente ele todo, da primeira à última página. Leio rápido algumas partes somente. Agora não gosto muito. Reler me põe muito nervoso e muito inquieto. É melhor escrever.

Qual o impacto que a crítica tem na sua carreira?
Em geral, a crítica é muito simpática comigo. É natural que apareça um crítico ou outro que bota defeito. Agora defeito onde não pode botar, porque se tem alguém nesse país que entende de romance, desculpe a minha vaidade, sou eu. Agora se um crítico disser um defeito, eu vou ver. Quase sempre ele tá errado, mas respeito. Agora a crítica tem um impacto sobre a minha vida literária no sentido de que gosto de apreciar até que ponto minha obra realmente está valendo à pena. É como os prêmios. Prêmio para mim é um momento de avaliação. Quando ganho um, imagino que a crítica avaliou meu romance. Então volto a ele para ver se realizei aquilo que a premiação diz eloquentemente. Mas a crítica é importante no seguinte sentido, os críticos, às vezes, cometem deslizes, apontam erros que não existem. Não quero falar agora não. Estou muito magoado com uma crítica que recebi de Seria uma sombria noite secreta. Mas não estou querendo falar agora não, para não ficar com raiva. Quero falar com frieza e distanciamento. Uma hora, eu falo, mas sem paixão. Como um escritor amadurecido e não como uma criança zangada. Mais ou menos por aí. E creio que a tarefa do crítico é iluminar a obra do escritor, quando escurece não vale à pena. Não porque fale mal, falar mal pode, né? Não pode é errar, porque se eu procurei acertar, ele também tem que acertar. E, depois, é um proposta minha pra sempre. Crítico não tem proposta de romance, quem tem é o escritor. O escritor é quem sabe o que fez. O crítico vai avaliar se o que ele fez é bom. Somente isso, não ficar inventando coisas. Eu percebo que a crítica gosta de inventar coisas. Mas sei me distanciar disso. Fico muito distante e muito tranquilo. 

Às vezes, um crítico pode seguir um caminho diferente dos outros críticos.
E termina falando bobagem. Às vezes, eu leio as críticas surpreso, bobo com a quantidade de bobagem que eles dizem. Mas não é sempre. Na maioria das vezes, os críticos são muito corretos comigo. Alguns eu percebo que têm um ranço, algum tipo de raiva, e terminam dizendo bobagem. Isso não leva ninguém a nada.

O que é melhor, ganhar prêmio ou vender muitos livros?
O ideal é que venda bem, porque ganhar um prêmio é ser lido por um número reduzido de críticos. Mas vender bem significa que é quase certo de estar sendo lido por um grande número de leitores e ser lido é muito bom, porque estamos conseguindo maiores espaços na vida literária do país. É melhor vender mais. Ganhar prêmio é bom e eu gosto muito e é importante, porque significa uma avaliação da crítica, uma parte da avaliação; significa que você acertou. Mas vender significa que você está alcançando um público maior. É isso que eu quero dizer. Isso é importante: ter um bom público e um bom número de leitores. Não só para segurar a continuidade da obra publicada, mas sobretudo para ter leitores. Ter leitores é fundamental e decisivo.

Os seus livros estão sendo traduzidos?
Até o momento, os meus livros não estão sendo muito traduzidos. Sombra secreta tem uma tradução na romênia, que eu não posso avaliar se é boa, não conheço romeno. E tem uma tradução para o Uruguai, com distribuição para a Argentina e o Chile. Essa eu posso avaliar, que eu conheço o espanhol razoavelmente. Li e gostei muito da tradução feita por Rosário Lázaro de A minha alma é irmã de Deus. É uma tradução muito curiosa, muito boa e eu gostei muito, inclusive a editora teve o cuidado de me mandar a tradução e perguntar se eu a aprovava, e eu aprovei através de documento.

Mas você está acompanhado as críticas no exterior?
Acompanho, na medida do possível. Acompanho quando está em português, porque eu não sei de romeno. Mas procuro avaliar com meu agente externo, que trabalha muito, e com as pessoas que têm relação com a literatura internacional, que podem avaliar por mim.

O mercado editorial brasileiro está bem?
Está bem. Nós temos grandes editoras. Boas e grandes. 

Está melhor que há trinta anos atrás?
Muito melhor. Porque há trinta anos nós tivemos o processo de decadência na José Olympio, que era a grande editora da época. A José Olympio tentou se reerguer e só agora voltou a ser forte juntando-se ao selo da Record. Agora temos editoras fortes, maravilhosas, como é o caso da Record, que me publica; a Companhia das Letras, a Global, além de muitas editoras amadoras e semi-profissionais. O mercado está muito bom, muito aquecido. A Iluminuras, que é uma grande editora, que me publicou no início da minha carreira, foi fundamental pra mim. Tenho um carinho muito grande pela Iluminuras, pelo fato de ter acreditado em mim. Publicou sete ou oito romances meus, significa que tínhamos uma relação muito estreita, muito boa.

Os escritores brasileiros estão conseguindo viver de literatura ou ainda é preciso recorrer a trabalhos extras?
Bom, viver de literatura é uma coisa, viver de direitos autorais é outra. De direitos autorais eu acredito que muito pouca gente vive, porque a vendagem é muito pequena mesmo. A não ser aqueles autores infanto-juvenis que vendem muito. 

A vendagem de livro depois da internet diminuiu?
Não. Melhorou muito. Pedro Herz, que é o dono da Livraria Cultura, diz que a vendagem de livro melhorou. Então acredito. Eu mesmo passei a vender mais. Não muito mais ou extraordinariamente mais, mas apenas mais. Melhorou o nível de vendagem. Acho que o leitor brasileiro responde bem ao escritor, comprando o livro dele, criticando, porque hoje a gente pode falar com o leitor diretamente por causa da internet. Alguns mandam e-mails, alguns mandam até cartas ou telegramas pedindo exemplar autografado. É muito bom isso. Porque estreita a relação do autor com o leitor.

O que há de melhor e de pior na vida de um escritor?
Pior é ser desconhecido, tanto pela crítica quanto pelo leitor. Não pode ter coisa pior. Melhor é alcançar uma posição de destaque tanto para a crítica quanto para o leitor. Pior é o silêncio. Pior do que uma crítica maldosa. Tem crítica maldosa. Com a minha experiência de 30 anos de literatura, sei quando o crítico está com má vontade ou quando está procurando ser honesto. São coisas bem diferentes. Consigo perceber claramente onde tem a má vontade, onde tem o mau humor. Percebo claramente, bastam as primeiras linhas.

A partir de qual momento você se sentiu autenticamente um escritor?
Logo no começo da década de 1990, quando publiquei Sinfonia para vagabundos, que foi uma resposta muito boa minha. Costumo dizer nas minhas aulas que o escritor só consegue produzir uma boa obra quando começa a perder o medo dele. Quando começa a escrever o que quer escrever, quando a alma dele manda, o que o sangue pede e desenvolve isso com grande qualidade literária, artística, ele começa a fazer uma boa obra. Enquanto ele tiver medo dele, não faz nada, porque ele começa a fazer a experiência dos outros, o sentimento dos outros, a vontade dos outros, e não a dele. Depois que ele perde o medo, escreve bem e escreve muito, com certeza. Isso é mais do que certo.

Essa vontade de escrever ficção começou quando?
Eu era criança ainda. Eu achava que ia ser dramaturgo porque os primeiros livros que li, o grande número, eram peças de teatro. Porque eu tinha um irmão mais velho chamado Francisco, que era ator de circo e por ser ator comprava muita peça de teatro. Eu cheguei a ler Íbsen através do que ele deixou lá em casa. Como todo retirante, ele viajou e deixou embaixo do balcão da casa de meu pai muitos livros e eu comecei a ler por aí. Quando eu comecei a ler, já comecei a querer escrever e eu tinha aí entre nove e onze anos. A partir daí comecei a escrever pequenas peças, pequenas esquetes, besteirinhas, depois escrevi contos. Mas eu me realizo plenamente com o romance. Não gosto do romance muito longo, mas do romance curto, de 150 páginas por aí. Mas senti o germe da literatura ainda muito cedo, porque a minha primeira manifestação como artista, aconteceu ainda menino, foi com a música. Eu, com oito, nove anos de idade, tocava em bandas de música, e em alguns casos, tocava até em baile, já menino. Depois que eu fiquei adolescente fui tocar música quase profissional numa banda chamada Os Tártaros, onde fiquei dois ou três anos, onde gravei. Aí achei que as minhas possibilidades como escritor eram maiores. Aí comecei a escrever seriamente e não somente como uma criança ou um diletante. A partir daí, a ‘doença’ me pegou e eu não parei mais, graças a Deus.

Quem foi a primeira pessoa que incentivou você a escrever?
Bom, foi um padre e um professor. No colégio Salesiano tinha um professor que era clérigo, um seminarista responsável por uma turma, chamado Aurélio Loyola, que ainda escreve, era responsável pelos médios. O colégio era dividido em três categorias, pequenos, médios e maiores. Eu era muito novo, mas era muito alto. Com dez anos tinha quase a altura que tenho hoje. Vim pro colégio Salesiano em 1960 e fiquei entre os médios. Havia um jornalzinho mimeografado e eu comecei a escrever. Na verdade, eu comecei a escrever assim: esse jornalzinho chamado Baby Júnior, o nome era danado. Esse jornal fez um concurso de poemas internos. Aí eu fiz um poema. Lembro bem, o papel branco e a caneta vermelha, escrevi e o poema foi rejeitado sob a alegação de que não tinha rima, não tinha métrica, essas coisas. Mas aí o padre disse, se você quiser escrever, você tem todo o jeito, pode se arriscar. Aí eu comecei a escrever crônicas e artigos para o jornal e tentei escrever um ensaiozinho, que eu lia muito um autor, que não é nem mais lido no Brasil, chamava-se Paulo Setúbal. Então comecei a ler muita coisa dele e depois disso eu escrevi um livrozinho, um fascículo chamado O Brasil de Paulo Setúbal. Parei porque não prestava mesmo. Mudei de colégio, fui para o Diocesano. Daí escrevi a minha primeira peça séria, chamada A revolta de Paulinho, que também não era grande coisa, terminei perdendo, e tentei tocar o barco pra frente. Depois, fui para Salgueiro e escrevi várias coisas pequenas para representar com minha turma. Lá eu tinha uma banda chamada Os cometas, que depois passou a se chamar Lovings Black Tie. E aí eu escrevia pequenas pecinhas, e lutava para escrever uma novela e não conseguia. É tanto que eu escrevi uma novela com um título horrível, chamada Retalhos e Momices, que era brincadeira de menino. Isso era brincadeira de dez, doze anos. Quando saí do conjunto na adolescência, aí eu escrevi a primeira novela séria, chamada Grande mundo em quatro paredes, que eu levei para Ariano Suassuna ler e ele me deu uma resposta que ainda hoje acho fantástica, “Eu vou ler o seu livro. Se eu não gostar, não significa que ele não presta; significa que eu não gostei. Se eu disser que não gostei, não desanime. Toque pra frente”. Quando voltei lá, numa terça-feira, ele disse: “A novela não é boa mesmo, não. Mas você tem uma coisa muito forte que é seu estilo, você tem um estilo forte, uma linguagem muito forte. Prossiga com isso. Não pare.” Aí me emprestou Lazarillo de Tormes e Os demônios, de Dostoiévski. Voltei para casa, fui ler, e a partir daí me tornei discípulo de Ariano. Escrevi depois uma novela, Furna do cão, e um livro de contos chamado O domador de espelhos. Terminou nada servindo, não publiquei nada, ficou tudo guardado. Depois escrevi A história de Bernarda Soledade, que foi meu primeiro livro. Ariano leu, gostou muito, achou que ela tinha a linhagem armorial, escreveu um belíssimo prefácio de 20 páginas, e publicamos pela Arte Nova, que era um editora muito forte da época.

Ariano disse que você era um autor armorial. Você concordou na época?
Concordei porque, primeiro, eu queria ser armorial, era algo que eu desejava e pretendia, estudava para ser. Depois, a justificativa dele foi corretíssima: o título corresponde a título de literatura de cordel, a estrutura da novela trabalha com símbolos, heráldica, com as metáforas, as imagens do cordel e da cultura sertaneja. Então concordo com ele. Trabalhei ainda mais dois romances, achando que eram armoriais e não eram. Na realidade, eu tinha me desviado do caminho sem querer.

Você não era um autor armorial; você escreveu um livro armorial.
Mas até hoje me considero armorial. Pra mim é uma grande honra e uma grande alegria. E devo, se Deus quiser ainda, escrever um romance armorial, que possivelmente terá o título de uma novela que eu tentei escrever mais cedo e não consegui, chama-se O Misterioso encontro do destino com a sorte. Se Deus quiser, vou fazer ainda.

Ariano foi uma espécie de mentor.
Espécie não, foi um mentor; me ensinou tudo. Tinha a paciência de me receber na casa dele, um dia inteiro, um domingo inteiro. Chegava de nove da manhã e saía de nove da noite. Hoje morro de pedir desculpas a ele e à família dele, porque eu devia atrapalhar todo mundo, né?

Isso era todo domingo?
Não. Uma vez por mês. Mas, mesmo assim, era o trapalhão, né? Eu trabalhava com ele na universidade. Telefonava pra ele: “Ariano, posso ir aí no domingo?” Ele dizia “Pode vir”. Só uma vez ele disse que não podia. Mas me recebia todas as vezes com muita atenção, muita delicadeza. Ia na estante, apanhava livros, me mostrava, lia trechos inteiros, páginas inteiras, capítulos inteiros. A gente conversava muito. Muita gente perguntava: “Você não discutia, não?” Eu não tava ali pra discutir, não. Estava ali para aprender. E aprendi muito com Ariano. Quase 90%, 100% do que aprendi foi com ele. Se é que eu aprendi, né? Também não posso dizer isso, pra não ter a indelicadeza de ofendê-lo, talvez. 

Que é isso, Carrero?
Ariano é um preceptor, uma espécie de pai para mim. Eu tenho Ariano na qualidade de pai. Meu pai morreu tarde. Tarde não; morreu velho, com 89, quase 90. E aí, eu fui pra Ariano e disse: “Meu pai agora é você”. E tratei de tratar Ariano como meu pai espiritual, meu pai literário, a orientar minha vida, ter um símbolo para orientar minha vida. Fiz muita besteira, nem obedeci. Mas, Meu Deus, como eu quis obedecer a Ariano. Deus sabe disso.

Essa experiência com Ariano lhe influenciou a querer ser um mentor também, não é?
Também. Porque ele teve a humildade de me ensinar tudo, de ler livros inteiros, de me emprestar livros, de me indicar, “Carrero, por que você não faz assim?”. De ler meus originais com uma paciência enorme, porque não é qualquer pessoa que lê um original de um escritor novo, anotando palavra por palavra. E ele fez isso. Então, eu só tenho a agradecer muito. E eu também me tornei um professor de texto justamente porque aprendi muito e queria retribuir ensinando aos outros e, graças a Deus, já tenho ótimos alunos.

É bom você destacar a importância dos mentores, pois geralmente os escritores ficam muito isolados.
Que eu acho uma enorme ingratidão. Não só não repassar, como não reconhecer. O não reconhecimento é uma ingratidão incrível. Falta de humanismo até. 

Você fala que o jornal foi uma grande escola para você.
O jornal me disciplinou a montar o texto, a ser claro, objetivo, direto. Isso o jornal me ensinou demais, e a disciplina de escrever.

O jornal hoje ainda pode ser considerado uma escola?
Eu não sei, porque é uma coisa tão maluca hoje em dia. Eu, às vezes, quando abro o jornal fico desnorteado. Um título vai prum lado, a matéria vai pro outro. O cara bota no título uma ironia que quer fazer, mas que não tem nada a ver com o texto. Mas não casa texto com título. Então fica uma bobagem. As pessoas parecem que têm prazer de esconder alguma coisa. A gente lê a notícia, percebe que tem alguma coisa para aflorar e não aflorou. É por isso que eu gosto do Pernambuco (suplemento cultural), porque publica quase que ensaios. Os jornalistas têm espaço para escrever, eles têm três, quatro páginas para escrever, o que significa quase um ensaio sobre o assunto. O Pernambuco mantém uma linhagem de alto nível estético e alto nível cultural. Recebeu sempre o melhor apoio da direção da Cepe (Companhia Editora de Pernambuco). Espero sempre que o Pernambuco tenha vida longa. Até porque é um dos únicos jornais brasileiros dedicados só à literatura, não é à cultura, é à literatura. Acho que só tem dois jornais no Brasil que fazem isso, o Rascunho e o Pernambuco

Você se considera um autor realizado?
Ave Maria! Tão longe... Eu me considero um autor trabalhado. Gosto muito de trabalhar e espero ter muito tempo para escrever mais sobre coisas importantes. Espero, inclusive, escrever uma biografia de Jesus Cristo e Nossa Senhora.

Era o que eu ia perguntar: qual é a sua maior ambição como escritor?
Minha maior ambição como escritor é escrever uma biografia de Jesus Cristo e de Nossa Senhora. Essa é uma ambição que carrego há muito e peço a Deus tempo para fazer, que eu não quero fazer uma besteira qualquer, um perfil. O pessoal tem a mania de escrever um perfil e chamar de biografia. Biografia é diferente de perfil, que é só uma apreciação do escritor ou da personalidade. Mas quero trabalhar uma coisa séria que circule entre a história e o teológico. Não quero que seja ficcional, quero que saia muito bom. 

Você tem muita fé, não é? Como foi que começou essa ligação com a religião?
Na infância, com minha mãe. Minha mãe era extremamente religiosa. Meu pai também, só que meu pai era menos, porque ele trabalhava muito. E naquele tempo mãe era quem cuidava da casa, da criação dos filhos. Não que meu pai fosse ausente. De forma nenhuma. Meu pai era muito presente. Era um interiorano, sertanejo, sério, seguro, muito cuidadoso com a educação dos filhos. Então me ajudou muito, me educou muito. Muita coisa do meu caráter, da minha personalidade vem de papai; outra, de mamãe. Lá em casa nunca teve essa coisa de filho rebelde.

Você nunca teve uma “fase ateu”?
Não, nunca tive, nem quando eu tocava em banda, em orquestras, hoje se chama conjunto. Mesmo com isso, eu era uma pessoa muito ligada religiosamente, e também até porque meus colegas de banda tinham uma religião muito forte. E aí a gente se dava muito bem. A gente sabia rezar e dedicar nossas vitórias ao Divino Espírito Santo - Não sei se você sabe, o Divino Espiritio Santo é o padroeiro dos criadores -, a Jesus Cristo e Minha Mãe Virgem Santíssima. E é isso que eu procuro dizer no meu trabalho sobre Jesus Cristo; é o trabalho mais ambicioso da minha carreira. Espero realizar com grande qualidade para ser justo com o personagem.

É um trabalho pesado, Carrero.
Espero fazer. É ambicioso, reconheço. Mas quero fazer da melhor forma possível.

E essa ligação com a fé? Você reza, lê a Bíblia?
Rezo o terço todo dia, leio a Bíblia. Algumas histórias minhas são adaptadas de episódios bíblicos. A Bíblia tem duas vantagens para o homem, é a leitura da missão terrestre. É o recado de Deus para os homens, é onde a gente aprende a viver, a orar, a rezar, como queira. É também uma grande lição de humanismo, de humanidade, de convivência, de realização social, de tudo, a Bíblia é tudo na vida de qualquer pessoa. Algumas pessoas podem divergir, e eu respeito a divergência, mas não a compreendo.

A fé foi muito importante nesse momento da cura da doença?
Nesse momento estou sendo curado por Jesus, tenho certeza que ele, Minha Mãe Nossa Senhora e Divino Espírito Santo me ajudam demais nessa cura. Eu estou quase curado, e às vezes me entristeço, me entristeco porque não ouço Cristo. Jesus diz numa passagem do Evangelho, “Não tenha medo, sou eu”. Quando tiver medo pense em Jesus Cristo, é ele quem está perto de você, está tomando conta, lhe amparando, lhe protegendo, pode estar certo disso, que isso é verdade. 

Esse foi o momento mais dificil da sua vida (Raimundo Carrero já teve dois enfartes, um do pulmão; outro, do coração)?
Com certeza, colocou em risco duas coisas, minha saúde e a minha literatura, fiquei com medo de não pensar, não conseguir escrever mais, estou feliz porque consigo escrever uma parte significativa de meu romance, embora ele vá passar por uma reescritura ainda. Eu só vou bem num romance, quando eu estiver gostando do personagem, do que que ele é, do que ele faz, das ações, acho que o meu romance vai muito bem, minha capacidade de criar, inventar, melhora muito. Perco o medo de mim e trabalho bem.

Qual é o seu livro que voce mais gosta?
Ainda A história de Bernarda Soledade. Acho que é um livro importante na minha carreira. Gosto muito de O amor não tem bons sentimentos, acho que é um romance onde eu escrevi bastante bem. Como um pai correto, não gosto de destacar nenhum dos filhos. Acho que todos os livros são importantes na minha carreira e todos me ajudaram a construir uma obra. Questionável ou não, é outra coisa.

Tem algum livro que você se arrepende de ter publicado?
Não me arrependi não, mas devia ter melhorado, Viagem ao reino da baleia. Acho que eu deveria ter tido mais tempo para cuidar dele, para trabalhar, para escrever. Ele precisa de maturidade, somente isso. Mas gosto dele.

Qual é o livro que todo mundo deveria ler?
No Brasil, A Pedra do Reino, o grande romance de Ariano. E, no mundo, Cervantes. Acho que Dom Quixote deve ser lido por qualquer pessoa, em qualquer idade, em qualquer tempo, não pode perder a oportunidade de ler. Na hora de morrer, tem que se lembrar, “Ôpa, não li Cervantes”. Suspende a morte, para tudo, vai ler Cervantes, depois morre.

Qual é o momento mais difícil no processo de escrever um livro?
Geralmente, o fim. Botar o ponto final é muito complicado. No começo, a gente é alimentado por todos os sonhos, todas as alegrias, no meio também. Pra terminar é terrivel. Já terminei dois romances meus com eles na editora. Para as máquinas, encontrei o final ali. Foram O amor não tem bons sentimentos, e Seria uma sombria noite secreta. Isso não é supreendente de acontecer com um autor. Conheço muita gente que diz não conseguir terminar um romance. Na verdade, ninguém consegue. Só consegue quando publica. Muitos casos nem publicado. O livro tá publicado e tem uma coisa que falta. Hemingway reescreveu o final de Adeus às armas, pelo menos, 79 vezes, para poder dar o livro como pronto. Foi um trabalho imenso.

Você se sente com a idade que tem?
De jeito nenhum.

Qual a idade que você tem na sua cabeça?
Eu faço, em dezembro, 65 anos, mas, na minha cabeça, eu devo ter, no máximo, 40. Amadurecido, correto, justo, mas convencido de que tenho muito que aprender, e tenho muito que amadurecer. 

Paul McCartney disse que nunca vai acreditar que tem 70 anos…
Ninguém acredita, porque quando chega nessa idade, é uma idade interessante, boa, alegre, festiva. Não me considero velho por causa disso, porque tenho toda a alegria da vida, toda a vontade de viver, toda a vontade de me integrar ao mundo. Deve ser o caso dele. A gente aprendeu culturalmente que 70 anos é muito. Que a gente quando chega é muito velhinho. A gente está com tudo no lugar, pronto pra começar tudo de novo. É assim a vida.

Das restrições que você tem hoje, qual é a pior?
Não poder beber. Uma das coisas que mais fiz com mais alegria foi beber. Beber é uma coisa, é embriagante.

Você começou a beber cedo?
Com oito, nove anos. Eu tocava na banda de música, aí tinha uma cerveja por perto e eu sempre bebia. Ou de noite ou de manhã. Eu gosto muito de beber de manhãzinha, acho um hábito saudável; cinco, seis da manhã, acho muito bom, o dia comeca a todo vapor. Comecei bebendo cerveja, depois passei pra vinho e uísque. 

A bebida tem alguma relação com o fato de escrever?
Tem, embora eu não goste de beber escrevendo. Ou eu bebo ou escrevo. Quando bebo, passa por mim uma alegria ou euforia que não condiz com o livro.

Mas você é uma pessoa alegre naturalmente.
Mas o livro pede outro tipo de comportamento. Sou alegre, mas na hora de escrever assumo o livro. Trabalho com o livro, não trabalho fora do livro. Embora eu goste de brincar com o personagem. De vez em quando, pergunto para o persoangem, que é isso? Que maluquice é essa? Estava escrevendo A minha alma é irmã de Deus, que tem a personagem Camila. E descobri que todo dia passava de manhã um homem vendendo mungunzá. Eu brincava com Camila, “Camila, me diga, ainda há uma cidade no mundo onde uma pessoa venda mungunzá no meio da rua?” Ficava brincando com a personagem o tempo todo. Gosto muito de brincar com o personagem. No meu livro tem frases inteiras do narrador brincando com um personagem. Às vezes, um crítico não gosta, “Carrero fez um discurso direto errado”. Errado não. Fiz o que quis. Achei que era hora de brincar e brinquei. Isso eu faço e farei sempre. Sem medo de errar. 

Você tem um pleno domínio de texto. Quando percebeu isso?
Quando comecei a trabalhar em jornal. Quando cheguei a assumir postos de editor, de chefe de redação, como eu fui. Eu sabia que tinha que escrever bem, com domínio, pra poder convencer as pessoas do que estava dizendo, para as pessoas perceberem que eu sabia fazer; que, primeiro, sabia fazer, depois ensinar. Embora eu não me ache tão assim, não. Você está dizendo uma coisa muito boa pra mim, que eu estou gostando muito de ouvir. Eu não quero ter a vaidade de achar que eu domine o texto, não. 

Quando você vai escrever, tem alguma coisa que lhe emperre, a história, o estilo que você quer fazer, alguma coisa diferente?
Nada me emperra. Quando estou com problema, eu mudo. Geralmente quando você está errando, você está com um problema com um personagem, então mude de personagem. É quase certo isso. Se a história não vai indo bem, você muda de personagem e começa a melhorar.

Onde você encontra seus personagens?
Geralmente na rua, na minha infância, adolescência. São personagens que, por algum motivo, permaneceram em mim. Escrevi um personagem chamado Alvarenga, que é um anormalzinho. Na minha cabeça, é uma anão. Depois fui perceber, me lembrei depois, um filho de uma empregada que teve em casa, na década de 1950, quando eu era menino, sem dúvida esse personagem me atormentou, ficou na minha alma, depois eu trabalhei isso. Ou pode acontecer um romance de alguma coisa que eu vi e de repente aflora e eu começo a trabalhar com aquilo. Nada excepcional. Na verdade, a minha infância e juventude me fornecem grande material para eu trabalhar.

Tem personagens engavetados?
É, de repente aparecem numa necessidade de escrever, eles estavam ali já prontos, é só chamar e eles chegam. Mais ou menos isso.

Qual a sua maior qualidade e o maior defeito?
Minha qualidade é amar o mundo profundamente. Meu defeito é justamente esse humanismo, ter medo dessa paixão pelo mundo. O que eu seria capaz de fazer pelo mundo. O que eu procuro fazer é escrever.  

O mundo está melhor?
Acho que apesar de todos os problemas, melhorou muito. Já vi o mundo muito pior, guerra perto da gente, tortura, dor, angústia, sofrimento, fome, e as coisas mudaram para melhor. Com tudo disso que a gente sente, com os problemas terríveis, dolorosos, são mais leves do que foram antes. A não ser que eu tenha amadurecido demais e tenha uma capacidade de compreender. Com a maturidade eu tenha mais capacidade de entender, antes talvez não tivesse essa capacidade. As relações humanas melhoraram, a maneira de conviver melhorou, tudo isso. Até a internet aproximou mais as pessoas. Você é capaz de conversar com pessoas que nunca viu, que, de repente, escrevem para você pela internet, declarando sua admiração e isso provoca felicidade. Eu tenho o hábito de responder todos os e-mails que recebo, com o mesmo tom que me mandaram. Se a minha parte é essa, eu vou cumpri-la.

Qual foi o melhor conselho que recebeu?
Difícil saber assim. O conselho foi o aprendizado que tive com Ariano na obra literária. Se isso pode ser resumido a um conselho, eu diria isso. Tudo o que eu aprendi, os livros que ele me indicou, os textos que pude escrever. O que pude fazer, isso foi uma ajuda pra minha vida, substancial, me deu força e coragem para viver. Isso foi muito importante.

Quais são os novos autores que lhe surpreenderam?
A literatura brasileira recente está com muitos grandes autores, que ainda estão construindo uma obra. Digo isso com muita alegria. Tem um menino que apareceu agora, Paulo Scott, escreveu um livro muito bom, muito curioso. Gosto muito também de Joca Terron, de Ronaldo Bressane, Marcelino Freire, Marçal Aquino e muitos outros que não posso me lembrar agora, mas que estão construindo uma obra de alta qualidade. Não se questiona mais a literatura brasileira. Ela está tão bem-servida, que não se questiona. Seria ingenuidade ou então maldade questionar. Só uma grande maldade ou extraordinária ingenuidade pode levar um crítico a questionar a qualidade da literatura brasileira. 

Você tem ideia de quantos livros já vendeu?
Eles nunca dizem. Aqui e acolá uma editora diz. A Record diz. Mas tem muita editora que não diz nada. Não por maldade, até pra não levar ao conhecimento do concorrente as suas próprias vitórias, mas não creio que seja maldade não.

* Entrevista originalmente publicada em julho de 2012 na Revista da UBE

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