De quem é a cultura?
Estudo "Cultura nas Capitais" é a maior pesquisa quantitativa sobre os hábitos culturais nas capitais. No Recife, os livros são mais procurados e o brega é o estilo musical mais escutado
TEXTO Laura Machado
03 de Abril de 2025
A dança é uma das atividades que Recife segue a média nacional
Foto Leopoldo Conrado Nunes
Quem consome cultura? E para estes que consomem, de que formas esse contato se dá? E quem não consome, por que não o faz? A fim de responder perguntas como estas, surgiu a pesquisa Cultura nas Capitais, realizada pela consultoria JLeiva Cultura & Esporte, com patrocínio do Itaú e do Instituto Cultural Vale, por meio da Lei Rouanet. O estudo geral foi divulgado através do site e é a maior pesquisa quantitativa sobre os hábitos culturais nas capitais brasileiras.
Um total de 19,5 mil pessoas maiores de 16 anos, moradoras do Distrito Federal e capitais, foram entrevistadas de forma presencial pelo Datafolha, de 19 de fevereiro a 22 de maio de 2024. Em São Paulo, foram ouvidas 3 mil pessoas; no Rio de Janeiro, um total de 1.500 e, no Distrito Federal e demais capitais, 600 moradores.
Com o mapeamento, observa-se que a atividade cultural de maior acesso pela população das capitais é a leitura: um total de 65% dos entrevistados tiveram acesso a livros, nos 12 meses anteriores, à leitura. Em contrapartida, 13% das pessoas nunca leram uma obra. É importante destacar que, nesta pergunta, os entrevistados tinham liberdade de interpretar o que é um livro, então, livros didáticos e religiosos (a própria Bíblia, por exemplo) podem estar incluídos no resultado.
Considerado cultura pelo estudo, os jogos eletrônicos apareceram em segundo lugar, com um total de 51% de pessoas tendo acessado. Logo em seguida, o cinema se destaca com um total de 48% da população entre as capitais e DF.
Ainda sobre as capitais estaduais, constata-se que a ida ao cinema é mais difundida entre os jovens de 16 a 24 anos do que qualquer outra faixa-etária e em todas as atividades culturais, o grupo 60+ é o menos expressivo. Também pode ser visto que o grau de escolaridade é um indicativo importante quando se fala de cultura, uma vez que quanto mais formação o indivíduo possui, mais ele frequenta ambientes e atividades culturais. Isso também se reflete com as classes sociais, onde quanto mais renda a pessoa possui, mais acessa a cultura.
Quando o assunto é cor/raça, a população amarela fica acima da média total no acesso às bibliotecas (1% acima), cinema (11% acima) e jogos eletrônicos (8% acima), enquanto se encontra abaixo em todas as outras categorias.
A parcela da população que se define como branca supera todas as médias, com exceção da dança e do circo, onde se localiza exatamente na média. Em contrapartida a essa realidade, a população parda fica na média apenas quando a atividade cultural é a dança, estando abaixo em todas as demais categorias e apresentando um número maior de pessoas que nunca tiveram contato com as atividades culturais (50% da população parda nunca foi a uma feira do livro, por exemplo). Quando definimos o grupo para pessoas pretas, a realidade de dados migra e se torna mais positiva: apenas nas categorias de cinema e museus a população preta fica abaixo da média. Ademais, a realidade do acesso à cultura da população indigena é a mais expressivamente negativa, com dados abaixo da média em todas as atividades culturais.
Outra constatação importante a ser observada é o déficit entre as regiões do Brasil. Enquanto o Sul e o Sudeste apresentam índices na média e que muitas vezes o ultrapassam, as regiões Norte, Nordeste e Centro Oeste apresentam taxas menores. Ainda mais preocupante, a relação se inverte quanto à relação de pessoas que nunca acessaram os meios de cultura: a população do Norte, Nordeste e Centro Oeste que nunca visitaram um museu é maior do que a média nacional.
RECIFE
Após a divulgação de todos os dados gerais da pesquisa, encontros estão sendo realizados em cada uma das capitais e Distrito Federal a fim de divulgar os resultados específicos de cada um das cidades participantes. No Recife, o encontro foi promovido na última quarta-feira (2), no Teatro Hermilo Borba Filho. Com a presença de produtores culturais, artistas, gestores e demais envolvidos com a cultura, João Leiva, responsável pela pesquisa, comandou a apresentação.
O primeiro momento de diálogo teve como tema “Acesso à cultura nas capitais: desigualdade e diversidade” e contou com a participação da secretária de cultura do Recife, Milu Megale, o presidente da Fundação de Cultura do Recife, Marcelo Canuto, e o diretor do Sistema Nacional de Cultura do Minc, Junior Afro. A segunda mesa foi nomeada “Hábitos culturais no Recife: música, espaços e eventos” e foi composta pela pesquisadora Lana Monteiro, a produtora musical Melina Hickson e o secretário executivo de dados e políticas públicas da Prefeitura do Recife, João Ygor Gomes.
Na capital pernambucana o acesso a jogos eletrônicos ficou 2% acima da média geral de todas as capitais do Brasil, 1% acima em shows de música, 7% em festas populares e 1% em dança. Em locais históricos, algo que a cidade costeira possui em montes, a população se mantém na média nacional de 45%.
Quando comparada com as demais capitais da região Nordeste, Recife é uma das que mais frequenta locais históricos (45%), festas populares (43%) e apresentações de dança (25%). Ao mesmo tempo, é a cidade onde menos se vai a circos (11%) e saraus (7%). A porcentagem da ida ao teatro também é uma das mais baixas da região, com apenas 17%. Interessantemente, 38% dos entrevistados falaram que a razão pela qual não frequentam peças e espetáculos teatrais é pela falta de tempo e 34% apresentam um grande interesse em frequentar teatros. Esses dados demonstram o potencial de crescimento dessa área cultural.
Quando os entrevistados foram perguntados diretamente sobre alguns pontos culturais ilustres da cidade, 46% das pessoas afirmaram não conhecer o Museu Cais do Sertão e 41% falaram que conheciam o Teatro de Santa Isabel, mas nunca tinham ido.
Para os 43% de moradores do Recife que disseram ter ido a festas populares nos últimos 12 meses, os entrevistadores questionaram sobre qual havia sido essa festa e o resultado foi significativo: 74% dos recifenses foram curtir o São João, enquanto 71% estiveram em blocos de carnaval e 51% em desfiles de carnaval. Produzida por profissionais paulistas, a pesquisa diferencia blocos e desfiles de carnaval, mas para Pernambuco essa diferenciação não é tão habitual, o que pode ter causado confusão nos entrevistados. Ainda assim, os números altos de participantes dos festejos juninos demonstram o agrado da população por festas descentralizadas, o que vem acontecendo tanto em junho, no São João, quanto em fevereiro e março, no Carnaval. Polos em bairros fora do centro da cidade permitem que mais pessoas se envolvam na folia.
Um total de 36% dos recifenses entrevistados, porém, afirmaram que o Carnaval é o evento cultural mais importante da cidade, seguido pela festa junina/arraial com 12%.
Na lista, a música recebeu 5% dos votos e sobre os diversos estilos musicais, os entrevistadores questionaram “qual é o estilo de música que você mais ouve?”. Diferindo do restante das capitais, o estilo musical mais escutado no Recife é o brega, com um total de 33%. Depois dele, o MPB aparece com 30% e a música gospel com 24%. Com esses dados pode-se afirmar que o Recife é a capital onde mais se escuta música brega e também faz parte do grupo que mais escuta MPB. O frevo, ritmo tipicamente pernambucano, aparece com apenas 3%, atrás até mesmo do jazz, blues e reggae.
Ainda falando sobre o gosto musical dos recifenses, a capital pernambucana é aquela em que menos se ouve sertanejo (15% contra a média nacional de 34%). Sobre a maneira como as pessoas escutam música, constatou-se que 86% das pessoas escutam pelo celular, mas o som portátil e a rádio também se mantém atuais, com porcentagens de 73% e 53%, respectivamente.
A maioria dos entrevistados faz uma associação entre a cultura e o bem-estar, além de defenderem o investimento público na área: um total de 87% concordou totalmente ou em parte com a frase “o governo deve dar atenção prioritária ao setor e investir em arte e cultura”.
O estudo realizado pela JLeiva apurou também a população que demonstrava interesse em participar de atividades culturais e o resultado mostra que, caso esse público se tornasse frequentador, os números de acesso seriam muito maiores, podendo até duplicar. Isso é um dado importante para produtores culturais e para o poder público, uma vez que se pode supor que com facilitações de preço, transporte e segurança, mais recifenses seriam contemplados com a cultura da cidade.
"Recife é uma cidade com vocação cultural pulsante, e os dados da pesquisa confirmam isso. Ao mesmo tempo em que o Carnaval e o São João seguem fortemente valorizados pela população, há um enorme potencial de crescimento em outras áreas, como teatro, museus e espetáculos de dança. Isso evidencia não apenas o interesse da população, mas também uma grande oportunidade para políticas públicas e investimentos privados que democratizem ainda mais o acesso à cultura na capital pernambucana", explica o diretor da JLeiva, João Leiva.
LAURA CARVALHO, repórter das revistas Continente e Pernambuco.