A história por trás de um livro abandonado na rua
O álbum de fotos, encontrado numa calçada no Centro do Recife, traz registros da antiga Usina Central Barreiros
TEXTO Cleide Alves
08 de Setembro de 2026
O álbum de fotos produzido por Janina de Mattos Sequeira reúne 97 imagens em preto e branco da antiga Usina Central Barreiros
Foto Janina de Mattos Sequeira/Divulgação
Há muitas maneiras de se contar uma história. Essa, começa a partir de um achado fortuito que acabou dando vida a nomes absolutamente desconhecidos e revelando o olhar estrangeiro sobre o trabalho e o trabalhador pernambucano da década de 1940. A narrativa será conduzida por um álbum de fotografias largado ao acaso e encontrado por um arqueólogo numa rua do Centro do Recife, em outubro de 2025. O protagonista da história é um livro de 30x32 cm, com capa de couro verde ornamentada em folhas de ouro, papel de fibra de linho, 100 páginas e 97 imagens organizadas em 13 capítulos.
As fotos documentam a antiga Usina Central Barreiros S/A (Mata Sul). São registros de canaviais, casarão e capela de engenho, criação de gado, animais reprodutores, corte de cana, transporte de cana em carro de tração animal, locomotivas, fábrica, laboratório para controle de qualidade, destilaria, residências de funcionários, casas de trabalhadores, transporte do açúcar e desembarque do produto no Porto do Recife. O açúcar da usina era insumo para o extrato de tomate e os doces da Fábrica Peixe, que funcionava em Pesqueira, município do Agreste, e era do mesmo dono da indústria. A logomarca da fábrica, a figura de um peixe, decora a capa do livro.

Janina Maryla Bloch de Mattos Sequeira, polonesa de Varsóvia, nascida numa família abastada, em 1920, é a autora do trabalho. Filha de um diplomata, a fotógrafa estudou em Paris e desembarcou no Brasil em 1941, no Rio de Janeiro. Ela viveu no Recife, onde chegou em 1942, e, em 1946, produziu o álbum de fotos para a usina. De volta ao Rio, ela se casa em 1948, viaja com o marido para Londres e fixa residência em Portugal, onde morre idosa e sem filhos, relata a historiadora Vanessa Sial, que pesquisa o assunto com o historiador Artur Garcéa e o arqueólogo Alberto Lopes da Silva Júnior. “O casal, por ser estrangeiro e artista, tem ficha no Dops (Departamento de Ordem Política e Social) e lá descobrimos informações sobre Janina”, declara Vanessa.
O álbum completa 80 anos em 2026 e permite várias leituras, destacam os pesquisadores. “Pela qualidade das fotos, composição, enquadramento, noção de profundidade, luz e sombra, percebemos que Janina tinha domínio da técnica”, diz a historiadora. “Ela usou lente de 50 mm, a que mais se aproxima do olhar humano.” A narrativa das imagens, diz Vanessa Sial, conduz a uma mulher com consciência de que estava construindo um livro. “É evidente, pela análise do livro, a capacidade antropológica da fotojornalista de observar os trabalhadores da usina”, acrescenta Artur Garcéa.

“Nos anos 1940, estavam sendo instaladas ferrovias nas usinas para transporte de cana e, ao mesmo tempo, ela registra os trabalhadores cortando cana, fazendo seus feixes e colocando no carro de boi, comprovando o tipo de relação de trabalho que permanecia, apesar da tecnologia já existente, esse antagonismo é captado por Janina”, ressalta Vanessa. Nada escapou ao olhar da fotojornalista: paisagens, arquitetura dos engenhos, os modelos das residências de funcionários (gerentes, capatazes) e das moradias dos trabalhadores.
“Os funcionários ocupavam vivendas e os operários, casas mais simples, com estrutura de taipa, porta e janela, como no século XIX”, observa Artur Garcéa. “Ela mostra a relação de pertencimento, de classes, pela fotografia”, observa o historiador. Homens e mulheres do campesinato são fotografados exercendo seus ofícios, de chapéu e roupas de algodão cru. “São memórias preservadas num livro feito para durar e para ser visto, o resgate do álbum traz a possibilidade de tirar do anonimato os retratados e a retratista, Janina é uma artista que merece ser redescoberta”, comenta Vanessa Sial.

As pesquisas realizadas pelo trio levam à trajetória percorrida pela fotógrafa, uma poliglota de origem judaica, fluente em polonês, francês, inglês, alemão e português, além de saber um pouco de espanhol. A ficha no Dops revela que Janina fugiu da Europa por causa da perseguição nazista aos judeus, diz a historiadora. No Recife, estava integrada à vida social e cultural da cidade. “Ela participou das comemorações do centenário de nascimento de Eça de Queiroz (1945), promovidas pelo Gabinete Português de Leitura, e tem três ilustrações feitas por ela no livro em homenagem ao escritor, publicado pela Diretoria de Documentação e Cultura da Prefeitura do Recife.”
Com o marido, Joaquim Germano de Mattos Sequeira, comerciante no Recife, frequentou um grupo de intelectuais que costumava se reunir para discussões. E não era só fotógrafa, ela desenhava e pintava. “Foi pioneira em estamparia de tecido para moda praia no Recife”, diz Vanessa, que resgatou fotos de Janina e Joaquim ao lado do pintor Lula Cardoso Ayres (1910-1987). A pesquisadora também encontrou imagens de Janina com a historiadora, pintora, decoradora e ativista dos direitos dos estudantes e das mulheres, Tilde Canti (1906-1984), em uma exposição feminina realizada no Palácio da Justiça de Pernambuco.

Em agosto de 1946, um ano após o fim da Segunda Guerra Mundial, a Fábrica Peixe é condecorada pelo governo britânico pelo fornecimento do extrato de tomate aos soldados da Inglaterra. “Fazia sentido a fotojornalista conhecer essa empresa do Agreste e registrar a produção, a lavoura, o cultivo do tomate, a fábrica, as máquinas e os trabalhadores”, afirma Vanessa Sial. “O álbum deve ter sido um projeto sob encomenda, um provável convite do presidente da usina, Carlos de Britto, para ela conhecer a produção do açúcar que seguia para as unidades fabris de doce e extrato de tomate, acreditamos que ela também deve ter feito um livro semelhante para a fábrica”, pondera.
Bilhetes de passagem confirmam a chegada de Janina ao Rio de Janeiro, de navio, em 1941. É lá que ela conhece o português de Lisboa Joaquim de Mattos Sequeira, nascido em 1909 e domiciliado no Brasil desde 1936. “Joaquim era fascinado pelo barroco brasileiro e tinha um projeto para montar, em Portugal, uma exposição fotográfica da nossa arquitetura barroca”, diz Vanessa. “Só conseguimos resgatar a história de Janina (foto abaixo/divulgação) a partir da coleção Terras Portuguesas, patrocinada pela Shell de Portugal. A obra teve direção de Gustavo Eduardo de Mattos Sequeira e, pela primeira vez, aparece na nossa pesquisa o nome Joaquim de Mattos Sequeira e Janina de Mattos Sequeira.”

Filho de Gustavo Sequeira, Joaquim está presente do 1º ao 9º fascículo. Quando ele morre, em 1952, Janina assume a tarefa com o sogro e faz mais quatro ou cinco. Os últimos fascículos descrevem regiões insulares, como a Ilha da Madeira, e foram executados por outros fotógrafos, relata a historiadora. “Gustavo era um intelectual, escritor, arqueólogo, uma personalidade que a gente poderia comparar a Gilberto Freyre e Câmara Cascudo”, declara Vanessa. “Pesquisei mais sobre o diretor da coleção e acabei localizando um bisneto dele, sobrinho-neto de Joaquim, que desenvolve pesquisas na área de química em uma universidade de Portugal e nos deu mais informações sobre o casal.” A intenção dos pesquisadores é tornar público o álbum de fotos da Usina Central Barreiros e a história da fotojornalista.
No mês de outubro de 2025, o livro estava numa pilha de material de descarte na Avenida Dantas Barreto, no bairro de Santo Antônio. “Havia alguns almanaques, muito prejudicados pela umidade e corrompidos pela ação de traças, e tinha esse livro gigantesco, que me chamou logo a atenção pela encadernação e pela forma com a qual se apresentava, peguei e vi que tinha o perfil de um álbum visual”, detalha o arqueólogo Alberto Lopes da Silva Júnior, o autor da descoberta. “Esse álbum retrata um interstício muito peculiar e caro para história recente de Pernambuco, que é a transição de um trabalho mecânico para um trabalho semiautomatizado, ali por trás do processo de ascensão das fábricas e dos maquinários”, observa o arqueólogo.

Alberto Lopes colocou o livro em uma sacola, levou para casa, e fez contato com Vanessa Sial, que fez contato com Artur Garcéa (técnico do Setor de Mapoteca, Iconografia e Fotografia do Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano). Desde então, o trio se dedica a pesquisar o assunto. “Procuramos no Arquivo as pessoas que entendem de suporte em papel e passamos a cuidar do livro”, informa Vanessa. “A leitura das fotos mostra uma lente muito específica sobre um lugar e as pessoas desse lugar, o trabalho de Janina, de certa forma, não traz um olhar frio e institucional sobre a usina, ela tem um olhar humano, ela evidencia os sujeitos.” Depois de averiguar a autenticidade da obra e diante da ausência de reclamantes, o álbum está registrado como “achado.”
Os pesquisadores que investigam as histórias por trás das fotos pretendem publicar o álbum em livro.
O álbum foi produzido num período de transição do trabalho mecânico para um trabalho semiautomatizado.