Música

Virtuosi: Conexão entre público e músicos

Primeira noite da 27ª edição do festival no Teatro de Santa Isabel equilibra repertório standard, moderno e contemporâneo e compenetra a plateia ao longo de três horas

TEXTO Carlos Eduardo Amaral

17 de Abril de 2026

O violista Rafaell Altino e o pianista Vasco Dantas em dueto no Virtuosi

O violista Rafaell Altino e o pianista Vasco Dantas em dueto no Virtuosi

Foto Hannah Carvalho/Divulgação

Antigamente, era icônico ver o maestro Rafael Garcia subir ao palco do Santa Isabel e tecer suas imprevisíveis considerações iniciais: ora ele frisava as batalhas para produzir o festival e a necessidade de se valorizar os jovens talentos locais; ora proferia impropérios contra autoridades, patrocinadores ou moinhos de vento; ora exortava o público a algo que não ficava claro, por conta do seu portunhol.

Depois, durante certo tempo, quem passou a fazer as vezes de mestre de cerimônias foi o violista do Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo, Marcelo Jaffé, que comentava, com carisma singular, todo o programa a ser ouvido naquela noite. Agora, Ana Lúcia Altino usa do microfone brevemente para transmitir os agradecimentos e elogios que convêm ao momento. Ainda assim, ela só entrou em cena após a atração inicial, o duo formado pela flautista Sabrina dos Santos e pelo pianista Luis Felipe Oliveira.

Sabrina e Luis Felipe tocaram o primeiro movimento (Allegro malinconico) da célebre Sonata para flauta e piano, FP 164, do francês Francis Poulenc (1899-1963), e a Sinfonische Kanzone para flauta e piano, op. 114, do alemão Sigfrid Karg-Elert (1877-1933) — duas peças do século passado, mas de atmosfera neorromântica, interpretadas com o rigor, entrosamento e senso de estilo esperados.

Um dos mais preparados pianistas da nova geração em Pernambuco, o gravataense Luis Felipe de Oliveira atuou como solista à frente da Orquestra Sinfônica do Recife (na qual Sabrina é flautista convidada) há menos de um mês e participou de outras edições do Virtuosi, incluindo em sua cidade natal. Ele também tem-se dedicado, com igual esmero e ímpeto, à produção artística.

Flautista Sabrina dos Santos e o pianista Luis Felipe Oliveira
Foto: Hannah Carvalho/Divulgação

Luis Felipe capitaneia o projeto de circulação musical Um Piano por Pernambuco, estreado em 2024, e o festival Stravaganza Musicale, lançado em meados de março passado — sem qualquer patrocínio, mas exitoso financeiramente graças ao público que acorreu ao Santa Isabel e valorizou o ingresso cobrado a R$ 50. E não se enganem: apesar das feições adolescentes, Sabrina e Luis Felipe já são professores concursados. Ele, substituto no Departamento de Música da UFPE; ela, efetiva no Conservatório Pernambucano de Música (CPM).

VIOLÃO MULTIFACETADO
Na sequência, Gabriele Leite executou doze peças, mesclando repertório de seus dois álbuns — Territórios (2023) e Gunûncho (2025) —, de compositores que ela pretende gravar nos próximos anos e dela própria. A setlist teve início com o Prelúdio n° 2 e Ponteio e toccatina, idiomaticamente fluidas e sofisticadas, de autoria de Lina Pires de Campos (pseudônimo de Angela Del Vecchio, 1918-2003).

Continuou com a Ritmata, de Edino Krieger (1928-2022), tour de force para qualquer violonista de formação conservatorial no Brasil, pela alternância constante entre técnicas expandidas e de execução convencional; três tributos a Garoto (Aníbal Augusto Sardinha, 1915-1955), Gente humilde, Jorge do Fusa e Lamentos do morro; e as transcrições de Lua branca e Corta-jaca, de Chiquinha Gonzaga (1847-1935).

Violonista paulista Gabriele Leite estreia no Virtuosi
Foto: Hannah Carvalho/Divulgação

Na primeira troca do programa, Gabriele antecipou Dr. Sabe Tudo e Se ela perguntar, de Dilermando Reis (1916-1977), para então tocar os Nano-estudos, de seu próprio catálogo, originalmente em três movimentos — Gunûncho, Maracatu e Jongo — e cujo mais recente, Bossa, escrito em janeiro passado, ela aproveitou para estrear. Sua aplaudidíssima perfomance terminou com o Bate-coха, de Marco Pereira, uma das preferidas da instrumentista.

Gabriele — que se apresentou na Casa Estação da Luz, em março de 2024, e no CPM, em setembro de 2025 — então recebeu Rafaell Altino para interpretarem uma adaptação para viola e violão dos três primeiros movimentos de Histoire du Tango (História do tango), de Astor Piazzolla (1921-1992): Bordel 1900, Cafe 1930 e Nightclub 1960.

Por acidente de edição, Histoire du tango não constou no livreto oficial do festival. Ainda por cima, Gabriele e Rafaell só se juntaram para ensaiarem a partitura — um tanto difícil, vale ressaltar — uma única vez, no camarim, poucas horas antes do concerto. Mesmo assim, ambos protagonizaram a interpretação de maior frescor da noite.

DENSIDADE PLENA
Tal frescor foi necessário para servir de preparação às duas últimas obras que viriam, unindo Rafaell Altino e Vasco Dantas: a Sonata em sol menor, op.19, do russo Sergei Rachmaninov (1873-1943), original para violoncelo e piano, e a Sonata em lá maior, do belga naturalizado francês César Franck (1822-1890), original para violino e piano — ambas em quatro movimentos e apresentadas nessa ordem (invertida em relação ao livreto impresso).

Rafaell e Vasco retomaram a atmosfera romanticista do início do recital interpretando as composições de maior densidade formal e emocional do dia; de maior compenetração, portanto. Não é preciso gastar adjetivos aqui, bastaria dizer: irrepreensíveis. O número do duo Altino/Dantas pode pertencer a um repertório conservador, mas nada mais ilusório ante os projetos artísticos que ambos os músicos têm encampado.

Sobre os de Vasco, falaremos na terceira e última matéria desta cobertura exclusiva para a Continente (confira a primeira), porque um deles diz respeito ao concerto de logo mais (17), às 19h. Ora enfatizamos Rafaell, que acaba de lançar Karsten Fundal, Christian Winther Christensen & Søren Nils Eichberg: viola concertos, álbum no qual atua como solista à frente da Sinfônica de Odense, na Dinamarca (orquestra de cujo naipe de violas ele é membro desde 2000).

Lito, como Rafaell é chamado em família, tem sido um dos intérpretes mais requisitados da atualidade por compositores nórdicos, a exemplo dos três dinamarqueses do citado disco (o qual, por sinal, ele mandou prensar em LP, para distribuição dirigida), dos também daneses Anders Koppel, Signe Lykke e Lil Lacy, da islandesa Bára Gísladóttir e do sueco Jesper Nordin. Fiquemos na torcida para que as peças de grande consistência orquestral do ...viola concertos sejam incluídas em alguma edição futura do Virtuosi Rafael Garcia (quando houver recursos suficientes para o festival voltar a formar uma orquestra sinfônica).

DESLIGUEM OS CELULARES
Ana Lúcia fez sua preleção após o duo de flauta e piano, como já dissemos. A abertura oficial coube a um breve vídeo institucional, exibido no telão que serve de backdrop de palco. O vídeo se concluía com um aviso de praxe e essencial em ambientes de apreciação musical: “Desliguem os seus celulares”. No entanto, o que se viu (e ouviu) foi uma situação aguda de falta de educação, para não falar miserável.

Por duas vezes, algum aparelho começou a rodar vídeos com volume alto durante a performance de Gabriele Leite. Na primeira, naturalmente houve uma irritação generalizada, aflorada em olhares de reprovação; na segunda, incredulidade e estarrecimento. Acorri a Ana Lúcia Altino, nos camarins, para pedir que fosse reforçado o devido aviso de boas maneiras, assim que possível. No trajeto, comentei o caso com o diligente diretor do teatro, Romildo Moreira, igualmente perplexo.

O vídeo institucional acabou sendo rodado novamente, não sem antes o despautério acontecer pela terceira vez e revoltar uma senhora da plateia, que clamou em nome dos demais: “Desliguem esse celular, pelo amor de Deus, minha gente!”. Deixamos então a sugestão para que, nas próximas edição do Virtuosi, o vídeo seja produzido em versão remix, frisando o trecho final com áudio em loop e explosões de luz estroboscópica.

Se, contudo, isso também não der certo, o próximo passo é criar um tutorial de como desacionar a conexão do celular, no embalo de alguma futura trend no TikTok. Em todo caso, faremos a nossa parte, proferindo salmos imprecatórios em novas tribulações de civilidade, a fim de que a profunda conexão entre público e músicos, tal qual se deu ontem ao longo de três horas, se preserve intacta.

CARLOS EDUARDO AMARAL, crítico de música clássica, escritor do catálogo da Cepe Editora e compositor, está realizando a cobertura do Virtuosi com exclusividade para a Continente

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