Música

Orquestra Capa Bode lança primeiro álbum aos 138 anos

TEXTO José Teles

15 de Julho de 2026

Foto Divulgação

A Orquestra Euterpina Juvenil Nazarena, de Nazaré da Mata, estreia em disco 138 anos depois de sua fundação, acontecida meses antes da chamada Lei Áurea. O álbum intitula-se Euterpina Juvenil Nazarena e os cantos da sua casa, e o lançamento acontece na sexta-feira (17), às 19h, na Praça Herculano Bandeira, conhecida como Praça do Frevo, no centro da cidade, situada na Mata Norte pernambucana. O evento é aberto ao público.

A orquestra é conhecida pelo nome de Capa Bode, e há pelo menos três versões para a alcunha. A primeira é de que os fundadores da banda tinham o hábito de realizarem reuniões na casa de algum deles, e no cardápio sempre havia buchada de um bode capado. A segunda é que veio de um mascote da Euterpina, um bode, que teria sido doado por um dos seus fundadores, Joaquim Coutinho Maranhão. Esse caprino desfilava com a banda, e tinha até nome Elamir (ou Almir). Ao mesmo tempo, diz-se que o animal foi doado porque a banda já era conhecida como capa-bode.

A terceira versão: seria pelo fato de a Euterpina ter o uniforme muito parecia com o de uma banda que veio a Nazaré para homenagear um abastado comerciante local, João Hermógenes, cujo apelido era Capa Bode. Seja lá qual for a versão verdadeira, o nome pegou, e a banda é orgulho da cidade, Patrimônio Vivo do estado de Pernambuco, e este disco é também um capítulo na história do frevo.

Maestros de bandas do interior que foram para a capital pernambucana, e dirigiram bandas militares e filarmônicas vitais para a formação de uma música carnavalesca surgida unicamente num estado, mais do que isso numa cidade, e em poucos bairros, São José, Santo Antonio e Boa Vista. De Nazaré da Mata era o maestro José Menezes. Um dos mais célebres dos maestros que passaram pela Capa Bode foi o Capitão Zuzinha (José Lourenço da Silva, 1889/1952) um dos formatadores do frevo como o conhecemos.

O álbum Euterpina Juvenil Nazarena e os cantos da sua casa passeia por vertentes do frevo, de rua, canção e de de bloco (porém apenas instrumentais), mais uma que somente em anos bem recentes passou a receber atenção fora da região, o frevo rural. Este é nascido na Zona da Mata, e integra e se vale do rico cabedal de manifestações da cultura popular ali encontradas.

Nos 28 minutos e 47 segundos do disco, a Capa Bode sintetiza a música da região, abrindo com Na pressão, um frevo rasgado da mata. Já na faixa seguinte, aparece o caboclo de lança do maracatu de baque solto. Frevo baião traz a junção do Carnaval com o forró, algo que remonta ao clássico, de Nelson Ferreira, Isquenta Muié, de 1954, primeira experiência do frevo com outro ritmo. A própria Capa Bode tem sua sonoridade retratada na faixa homônima.

A banda também ousa mesclar frevo com maracatu, trazendo para o ritmo elementos indígenas. Todos os temas são autorais, e inéditos em disco, e creditados a João Paulo, Guilherme Otávio, Gaspar Sax, Lula, e ao Maestro Hermes Gomes da Silva (já falecido, e referência para diversas gerações de músicos da região). Outros mestres de bandas filarmônicas da região são homenageados no disco.

Viabilizado por um edital do Funcultura, o CD foi gravado por dez músicos da banda. Guilherme Otávio e Rubens Alves (trompetes); Gabriel Guilherme (trombone); Jorge Ricardo (tuba); Carlos Eduardo (saxofone alto); Gaspar Sax (saxofones alto e soprano); Luciano Ramos (sax tenor); João Fernandes (teclados); Luciel Ramos (percussão); João Paulo (bateria). Por esta formação fica claro que o projeto é a banda de música Capa Bode adaptada como um grupo musical, mantendo a força dos metais da filarmônicas.

A Capa Bode, desde 2010, é também ponto de cultura em Nazaré da Mata, muito atuante, com escola de música responsável pela formação de, segundo informação da assessoria, de 50 mil pessoas, de ambos os sexos, e idade diferentes, boa parte delas tocando profissionalmente, ganhando a vida com música.

DOCUMENTÁRIO
Com imagens captadas ao longo das gravações, ensaios e encontros criativos, um documentário registra os caminhos percorridos até a finalização do álbum. O filme mergulha nas conexões da instituição com a Mata Norte e às suas tradições musicais. Ao longo do curta, testemunha-se o nascimento das composições, a discussões sobre os arranjos, e a fusão entre o frevo e as expressões culturais afro-indígenas da região. O brilho dos metais, a força da percussão e a influência dos maracatus rurais, das bandas filarmônicas e dos cortejos populares aparecem não apenas como referências musicais, mas como parte da identidade cultural da própria Capa Bode.

O álbum Euterpina Juvenil Nazarena e os cantos da sua casa estará disponível em formatos digitais e físico. A partir da sexta-feira (17), a música começa a circular nas plataformas de música. E a partir daí serão distribuídos gratuitamente mil CDs, incluindo 200 exemplares em braile.

 

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