“O Brasil é minha maior fonte de inspiração"
Uma das principais vozes do rap português, a rapper e socióloga Capicua, que apresenta-se no Mimo, na sexta (25), na Praça do Carmo (Olinda), fala sobre sua relação com a música brasileira e a língua portuguesa
TEXTO Bruno Albertim
22 de Setembro de 2026
Foto André Tentugal/Divulgação
Especial para a Continente
RIO DE JANEIRO - "Não é o desespero que nos mobiliza, mas sim a ideia de que é possível imaginar um futuro.” A frase de Capicua poderia funcionar como uma espécie de manifesto para Um gelado antes do fim do mundo, seu álbum mais recente, mas também ilumina uma trajetória artística construída na tensão entre a denúncia e a esperança. Uma das principais vozes do rap português, a rapper e socióloga do Porto transforma há décadas questões sociais, políticas e feministas em matéria para a música sem abrir mão da poesia, do humor e da liberdade com que manipula a língua.
No Brasil, onde volta a se apresentar pelo Mimo Festival, na sexta-feira (25), das 22h às 23h, na Praça do Carmo (Olinda), Capicua retoma uma relação antiga com uma cultura que atravessa sua formação musical. Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Elis Regina, Gabriel o Pensador, Marcelo D2, Racionais MC's, Emicida, Karol Conka, Baco Exu do Blues e Flora Matos estão entre os nomes que ajudaram a formar seu repertório.
Nesta entrevista, Capicua fala sobre a língua portuguesa como matéria-prima, a influência brasileira sobre sua escrita, a parceria com Emicida, o feminismo no hip-hop e um mundo que, segundo ela, parece viver uma sensação de “apocalipse iminente”. Fala também de Olinda, cidade que visitou em 2018 e de onde levou para Portugal uma enorme máscara de jacaré, lembrança que ainda ocupa uma parede de sua casa.
E explica a imagem que dá título ao disco: um gelado no meio do caos, uma pausa para limpar as lentes com que vemos a realidade antes de retomar a luta.
CONTINENTE Você já esteve em Pernambuco ou em Olinda? O que conhece da cultura pernambucana?
CAPICUA Já visitei Olinda em 2018 e fiquei apaixonada, não só por toda a beleza da cidade e por aquele mar de azul impossível no horizonte, mas pela arte popular pernambucana. É incrível a diversidade de artistas e artesãos pernambucanos, com trabalhos superinteressantes. Fiquei apaixonada por todo aquele patrimônio cultural e até comprei uma enorme máscara de jacaré a um artesão, que tive de carregar com esforço em todo o resto da viagem! (risos). Está numa parede em minha casa e nunca me arrependi da decisão impulsiva de trazer o jacaré comigo para Portugal, mesmo que fosse enorme! (risos).
CONTINENTE O Brasil tem uma relação muito forte com Portugal através da língua, mas também há diferenças enormes na maneira como ela é usada. Como você percebe essa distância e essa proximidade?
CAPICUA Eu sou fascinada pela língua portuguesa e ela é a matéria-prima para o meu trabalho. Por isso, neste mundo dominado pela produção cultural anglo-saxónica, prefiro sempre consumir cultura em português. Ora, o Brasil é o maior país de língua portuguesa e o maior produtor de cinema, música, literatura, teatro, podcasts etc. no nosso idioma e, portanto, a minha maior fonte de inspiração. Sou muito ligada a tudo o que se faz no Brasil e permanentemente inspirada pela sua riqueza cultural. Acho que é mesmo muito mais o que nos une do que o que nos separa e, no geral, os portugueses estão tão expostos quotidianamente ao português do Brasil que entendem totalmente as diferenças de sotaque e expressões.
CONTINENTE O que a música brasileira representa para sua formação como artista?
CAPICUA Representa uma enorme fonte de inspiração. Desde muito cedo tive contacto com a música de Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, essa geração de letristas maiores. Mais tarde descobri Elis Regina, de quem sou muito fã. Houve também um grande boom de música baiana em Portugal durante a minha adolescência, com Daniela Mercury e Ivete Sangalo fazendo muito sucesso. Depois conheci o rap, primeiro com Gabriel o Pensador, Marcelo D2 e Racionais MC's e, mais tarde, com a descoberta dos rappers da minha geração: Emicida, Karol Conka, Baco Exu do Blues, Flora Matos etc. Mas sempre acompanhando outros estilos de música também, porque o Brasil é um manancial de música boa! Com todos eles, aprendi muito sobre inventividade no uso da língua. Acho que os músicos brasileiros usam a língua portuguesa com muita liberdade e de formas sempre inesperadas, na rima, na métrica, no uso de gírias e expressões populares e tudo isso me interessa muito.
CONTINENTE Existe algum rapper ou músico brasileiro que tenha influenciado seu trabalho?
CAPICUA Como disse, muitos! Mas, se tivesse de destacar alguém, diria que Caetano, Chico e Gil são os melhores letristas em língua portuguesa e uma referência incontornável para quem escreve no nosso idioma. Acho que só um país com a riqueza cultural brasileira poderia parir, na mesma geração, três talentos dessa dimensão! É um milagre e uma sorte sermos seus contemporâneos!
CONTINENTE Você já colaborou com artistas brasileiros e agora se apresenta com a participação de Emicida. Como nasceu essa aproximação?
CAPICUA A colaboração com Emicida e Rael nasceu de um convite da Lab Fantasma e da Sony para integrar o projeto Língua Franca, um disco de rap luso-brasileiro editado em 2017. Foi uma aventura incrível fazer aquele disco coletivo e ficámos muito amigos. Temos colaborado mais vezes desde então e partilhado o palco algumas vezes, dos dois lados do Atlântico. Além disso, tive também o prazer de ter Karol Conka, Mallu Magalhães e Rincon Sapiência no meu disco Madrepérola (2020), em que também entraram Emicida e Rael, porque esse era um álbum muito inspirado no “jeito alegre de ser triste” que a música brasileira tem e fez todo o sentido ter muitas participações vindas do Brasil.
CONTINENTE O que o encontro com Emicida representa para você artisticamente?
CAPICUA Além de ser um amigo, o Emicida é um artista maior. É mesmo uma referência pela forma como alia a sua música a um pensamento crítico e superancorado na realidade, sem perder a doçura e o romantismo de quem luta por um mundo melhor. Consegue falar das feridas sem esquecer de celebrar as vitórias, não teme a vulnerabilidade e é um homem muito sensível, defensor de muitas causas das quais comungo. Tenho muito orgulho de ser sua amiga e de partilhar com ele o palco, porque me sinto muito menos só por saber que ele existe dessa forma no rap, um meio que é tantas vezes misógino e materialista.
CONTINENTE Seu trabalho frequentemente aborda questões sociais, políticas e feministas. O que mudou e o que ainda precisa mudar na condição das mulheres dentro do hip-hop?
CAPICUA Infelizmente, desde que comecei a fazer música, as coisas pelas quais lutava continuam a precisar de denúncia e muitas delas agravaram-se. O crescimento da extrema direita e as alterações climáticas são um bom exemplo disso. Há mesmo muita luta pela frente. Sobre a condição da mulher, no hip-hop ou na vida em geral, temos muito que estar atentas e combativas, não só para continuar a lutar por mais igualdade de direitos e oportunidades, como para defender o que conquistámos nas últimas décadas. Isto porque há um reacionarismo crescente que promove a misoginia e a violência contra as mulheres e sabemos que, para os movimentos internacionais de extrema direita, os nossos direitos são um dos alvos preferenciais. Se fazia sentido falar de feminismo quando eu comecei, hoje faz mais ainda!
CONTINENTE Você acredita que o rap português encontrou uma identidade própria ou ainda dialoga muito com as referências do hip-hop brasileiro e americano?
CAPICUA Acho que sim. Estamos numa fase de grande diversidade de subgêneros e públicos. Houve um processo de grande profissionalização e hoje há muita qualidade no rap produzido em Portugal. Sobre a questão da identidade, havendo alguns rappers mais influenciados pelo que se faz nos EUA e que mimetizam mais os temas e o estilo, há muitos rappers e produtores que trabalham linguagens próprias, que usam samples e ritmos da música portuguesa mais tradicional, que misturam essas referências com a música dos países africanos de língua portuguesa, criando novas estéticas. Acho que a música portuguesa, no geral, está a passar por uma fase muito interessante.
CONTINENTE Seu álbum Um gelado antes do fim do mundo parte de uma imagem bastante provocadora. Que mundo é esse que parece estar chegando ao fim?
CAPICUA Este é um álbum que fala do nosso tempo, das suas grandes questões e desta sensação de apocalipse iminente. E, ao mesmo tempo em que fala de um mundo em colapso e de uma civilização suicida que é incapaz de inventar novas utopias, é um disco que quer resgatar o olhar poético sobre o mundo, um disco que fala de esperança. Isto porque não é o desespero que nos mobiliza, mas sim a ideia de que é possível imaginar um futuro que não seja uma distopia orwelliana ou uma catástrofe natural. Por isso a ideia do gelado (sorvete) no meio do caos, como uma pausa para olhar em redor e limpar as lentes com que vemos a realidade, antes de retomar a luta!
CONTINENTE O que você gostaria que um brasileiro descobrisse sobre Portugal através da sua música?
CAPICUA Que Portugal é um país onde se faz boa música, um país muito atento ao Brasil e muito inspirado pela sua cultura, um país que tem uma grande ligação à poesia e que faz da palavra uma ferramenta para resolver as suas grandes questões.
CONTINENTE E o que você acha que a música brasileira ainda pode ensinar à música portuguesa?
CAPICUA Muita coisa! Desde logo a autoestima, porque o Brasil consome muito a sua música e valoriza a sua diversidade cultural. Mas acho que, em muitos aspetos, por ser um mercado muito maior, tem muitas coisas a ensinar em bons exemplos de gestão de carreiras, de criação de editoras independentes, de estabelecimento de cenas musicais locais e alternativas, de criação de festivais interessantes etc.
CONTINENTE O que representa participar de um festival como o MIMO, com artistas de diferentes países e programação gratuita?
CAPICUA Eu adoro o MIMO, já fui muitas vezes ao festival na sua edição portuguesa, porque o cartaz é sempre imperdível e tenho ótimas memórias de quando toquei no MIMO Rio com Língua Franca. Por isso é mesmo um grande prazer poder estar na edição deste ano, pela primeira vez em nome próprio, com a minha banda, para apresentar o meu novo disco. É uma alegria poder estar no meio de artistas de tantas origens diferentes e com linguagens musicais tão diversas, num evento tão democrático, em que posso mostrar o meu trabalho ao público brasileiro e, com sorte, angariar alguns ouvintes. Estou ansiosa!
CONTINENTE Você pretende viajar pelo Brasil depois do MIMO? Há algum lugar que gostaria especialmente de conhecer?
CAPICUA Gostaria muito, mas desta vez não vou poder ficar. Tenho um bebê muito pequeno e tenho de voltar a casa. Mas tenho sempre vontade de viajar pelo Brasil, de voltar a Paraty, que é um dos lugares mais mágicos em que já estive, de conhecer mais da Bahia, porque só fui a Salvador, de ir aos Lençóis Maranhenses e mil outros destinos maravilhosos. Oxalá consiga em breve!
CONTINENTE Qual prato ou bebida brasileira você gostaria de experimentar durante essa passagem pelo país?
CAPICUA Quero experimentar tudo o que ainda não conheço e voltar a comer uma bela feijoada, um bom açaí, os sucos de fruta maravilhosos e carne seca com abóbora.
BRUNO ALBERTIM, jornalista, antropólogo e autor de livros como Tereza Costa Rêgo, uma mulher em três tempos (Cepe)