Música

Eliana Pittman canta tributo a Jorge Aragão no Teatro do Parque

Aos 80 anos, artista carioca interpreta, em apresentação no dia 16 de outubro, o repertório do álbum “Nem Lágrima Nem Dor” em homenagem ao compositor

TEXTO José Teles

18 de Setembro de 2026

Foto Divulgação

A carioca Eliana Pittman completa, em 2026, 65 anos de carreira contando do álbum de estreia, dividido com o padrasto, o jazzman americano Booker Pittman. O LP tem selo da Rozenblit, e foi gravado nos estúdios da gravadora na Estrada dos Remédios. Ela estava então com 16 anos. Aos 81 anos, volta ao Recife para se apresentar, em 16 de outubro, no Teatro do Parque, como show do disco Nem Lágrima Nem Dor, tributo ao sambista Jorge Aragão.

Em entrevista por telefone, Eliana Pittman confessa que nos anos 1960 e 1970 jamais imaginou que continuaria nos estúdios e palcos com a idade em que está: "Nunca pensei que a carreira duraria tanto. Nem passou pela minha cabeça. Achei que pararia aos 50 anos”. Pois não apenas continua no showbizz, como engata mais projetos. Escreve sua biografia (“Vou contar tudo, mas tudo mesmo, não deixo nada de fora”, garante), e ensaia para apresentações com o paraense Pinduca, em dezembro no festival Psica.

A primeira vez que ela e Pinduca cantam juntos, embora Eliana Pittman tenha alcançado o maior sucesso popular da carreira em meados nos anos 1970 com carimbos em sirimbós, ritmos marginalizados no Pará: "Ainda ontem eu estava pensando em como conseguia fazer tanta coisa, onde encontrava tempo. Fazia programa de TV com meu pai, tinha programa na TV Jornal do Commercio. Viajava muito para o exterior: “Minha primeira viagem internacional foi com Booker Pittman, para a Argentina. Fizemos vários teatros. O empresário queria que a gente ficasse morando lá. Minha mãe não quis de forma alguma", recorda a cantora, que se apresentou em 35 países, e recebeu convite para se estabelecer nos Estados Unidos, quando foi realizar uma série de apresentações no país: “Em 1964, quando fiz apresentações por lá, um cara da William Morris me fez uma oferta pra ser uma cantora brasileira vivendo na América, mas eu não quis”, resume Eliana Pittman, que recusou, simplesmente, trabalhar com a maior agência do showbizz do mundo, ainda em atividade. Nessa época, a William Morris representava, entre outros, The Rolling Stones, Sony & Cher, The Beach Boys e The Byrds.

Ela tocou a carreira de maneira singular. Nunca pertenceu a nenhuma ala, cantou autores da bossa nova, se apresentou no Beco das Garrafas, mas nunca se aproximou dos bossa-novistas: “A bossa era um nicho e, e Booker era jazz. Eu ia na linha dele. Além disso, no tempo em que este pessoal estava despontando, eu já era artista conhecida”, comenta Eliana que, no LP com Booker Pittman, canta uma versão jazz de "Pela Luz dos Olhos Teus", de Vinicius de Moraes (foi a primeira mulher a gravá-la).

Quando Booker adoeceu, de câncer linfático, Eliana conta que teve que se desdobrar para pagar as contas da família. Interrompeu o bem-sucedido programa que apresentava na TV Globo com o pai, e foi contratada para fazer um programa semanal na TV Jornal do Commercio, no Recife: “Fui encaixada na programa da Jornal do Commercio pelo meu empresário, Marcos Lazaro (o mais importante do país na época). Toda semana estava no Recife, nunca perdi um voo. O programa era feito ao vivo, com orquestra. A gente procurava saber qual o artista famoso que estava fazendo shows na região, e convidava. Uma vez foi Wanderléa, foram vários, tenho fotos”.

VIOLONISTA
Em 1967, Eliana Pittman fazia o programa na emissora recifense, e apresentava um musical no Teatro Poeira, em Ipanema, o É Preciso Cantar: “Eu estava precisando de alguém para preencher os espaços quando eu saia do palco pra trocar de roupa. Então depois de terminar o programa na TV, fui com a minha mãe passear na noite, por uma rua cheia de barzinhos. Cada qual com seu próprio artista. Nós escutamos um som. Gostei, minha mãe também, ela adorava música. No Rio de janeiro, ela me lembrou daquela pessoa que escutamos no bar no Recife, disse que devíamos convidar ele pra vir pra cá. Aí eu falei: ‘E como eu vou saber quem é?’ Ela disse pra eu me virar, e reforçou que ele era muito bom pra participar do meu show no Teatro de Bolso. Então liguei pra todos os barzinhos no Recife procurando um cantor que tocava um violão muito bom. Não tinha ideia de como ele era, só sabia da música que fazia, e o canto dele que nos atraiu”.

Depois de muita ligação, finalmente Eliana Pittman conseguiu o contato do provável violonista que procurava: “Telefonei pra ele e o convidei pra que viesse pro Rio de Janeiro trabalhar com a gente. Ele disse que não podia, porque queria ser arquiteto. Aí todos os amigos dele pediram pra que ele viesse pro Rio. Só faltaram embrulhar em papel de presente e mandar pra cá. Finalmente ele concordou. Mandamos a passagem”, continua Eliana.

Mas ainda pairava uma dúvida. No dia em que o pernambucano chegaria ao Rio, a cantora e a mãe se entreolharam e se perguntaram como iriam reconhece-lo? "Eu disse: ‘Sei lá. O primeiro que aparecer com um violão debaixo do braço é ele”. Dito e feito. "O primeiro rapaz que apareceu no desembarque com o violão debaixo do braço era ele, Geraldo Azevedo, que passou a trabalhar comigo. Daí eu precisei viajar e ele tocou a carreira solo dele, inclusive conheceu Booker Pittman pessoalmente”.

Geraldo Azevedo vinha de uma vitória na II Feira Nordestina de Música Popular Brasileira, com "Aquela Rosa", em parceria com Carlos Fernando. Vitória dividida com "Chegança de Fim de Tarde", de Marcus Vinicius. Eliana Pittman gravou as duas em seu LP de 1968, Ao Vivo, que marcou sua volta à Rozenblit: “Gravei por gosto muito da música do Recife, tudo aí é bom. Aprecio boa música, coisa mal feita, mal tocada aí não. Mas tenho sorte, porque só pessoas de talento é que se chegam pra perto de mim. Mas hoje tem muita música ruim, e põe ruim nisso. Não sei como é que conseguem cantar com a voz tão gritada. Colocam a voz de um jeito que não me transmite tranquilidade. Como é que pode uma coisa dessas? Uma das coisas que mais admiro é esta escola de música de Pernambuco, que tem pistom, trombone (solfeja "Vassourinhas" emulando o som do trompete). 'Vassourinhas', isto é música boa. Não quero atacar ninguém, mas isto vai passar, tem que passar."

POLÍTICA E CARIMBÓ
Na era dos festivais, as canções que se destacavam chegavam ao disco antes de se saber se seriam ou não vencedoras. A gravadora ao qual o intérprete era vinculado lançava um compacto com a música que defendia, e logo quase todas concorrentes regravavam a música. Em 1968, no III Festival Internacional da Canção, promovido pela Rede Globo, não se tinha dúvidas de que "Caminhando (Para não dizer que não falei das flores)", de Geraldo Vandré seria um sucesso. A Phillips lançou em compacto. Eliana Pittman foi a escolhida para gravar a guarânia de Vandré (gravou também "Sabiá", de Tom Jobim e Chico Buarque, e Capoeira, de José Orlando e Benil Santos). Caminhando venceu a fase nacional do festival, foi para às paradas de sucesso, porém, não demorou a ser proibida, os discos recolhidos em todo o território nacional, e Geraldo Vandré passou a se esconder em casas de amigos.

Já o disco de Eliana Pittman, com a música banida, continuou nas lojas: “Eu precisava cuidar do meu pai, não tinha tempo pra política. O meu disco não foi proibido, eu até cantei a música em shows”. Três anos mais tarde, um samba de João Nogueira, "Das 200 Pra Lá", fez dela alvo da patrulha ideológica. A música atirava confetes nas 200 milhas estabelecidas pelo regime como limite das águas territoriais brasileiras. Numa época em que um ala da esquerda era extremamente xiita, houve ensaios de críticas e fustigadas a Eliana na imprensa alternativa mas que não foram muito longe: “Teve patrulhamento, mas deixaram a porteira aberta, e eu precisava trabalhar. Naquele tempo tinha a Olimpíada do Exército, eles pegavam um monte de artistas, colocavam num avião e levavam pelo Brasil, eu fui num desses voos, e foi quando descobri o carimbó. Estava numa praia em São Luís, no Maranhão, quando escutei um batuque, foi aí que descobri o carimbó”.

No seu próximo LP, Estou Chegando, Já Cheguei (1974, RCA-Victor), um disco basicamente de samba, ela gravou um pot-pourri, que destoa do repertório, causou estranheza à crítica, mas caiu no gosto do povo. Indagada se na época os paraenses não a acharam uma intrusa ao faturar com a música da terra, sendo carioca, Eliana Pittman garante que não: “Naquele tempo, Pinduca não era aceito pela sociedade paraense, chegou a ser vaiado, porque carimbó era música do povão, não entrava em clubes. Eu levei o carimbó para o Brasil e para o mundo, tenho vídeos cantando em outros países. O imenso sucesso da cantora com a música paraense, levou o Jornal do Brasil, dos mais importante do país, abrir uma capa do Caderno B, em 1975, para o carimbó, que virou a dança da moda, como a lambada anos mais tarde. Talvez volte a ser. Em dezembro, Eliana Pittman faz dupla com Pinduca, no festival Psica em Belém. Pode sair disco desse encontro? “Claro que vai sair, dá pra até três. Repertório para isso Pinduca tem, ele é um artista completo”, elogia.

Eliana na oitava década de vida continua fora da caixa. Na primeira viagem à Argentina, um empresário a ensinou palavras em hebraico para cantar em bar mitzvah. Algo que nunca esqueceu, depois aprendeu mais um pouco, e chegou a gravar música no idioma. Numa época em que ancestralidade é termo do momento, a religião de origem africana citada por todos, ela trafega na contramão: “Hoje em dia eu frequento a sinagoga em Copacabana. Mas não sou convertida. Me encantei pela religião, me considero uma pessoa totalmente israelita”.

BOOKER
Eliana Pittman diz que considera Booker Pittman seu pai. O músico chegou ao Brasil em 1937, depois de morar na França e na Argentina. O músico americano, que tocou com alguns dos grandes jazzistas dos EUA nos anos 1930, era neto de Booker T Washington, um ex-escravo que fez curso superior, e criou, no Alabama, a primeira faculdade para negros do Estados Unidos, combateu a desigualdade racial, e escreveu livros, entre estes um clássico, sua autobiografia, publicada no Brasil, como Memórias de Um Negro, traduzida por Graciliano Ramos, em 1940. Eliana Pittman cresceu escutando o pai contar história do avô, portanto, na prática, bisavô da cantora.

JOSÉ TELES, crítico musical e autor de livros como Soparia: de boteco a palco de todos os sons (Cepe)

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