Documentário celebra álbum histórico de Alceu Valença
"Vivo 76", de Lírio Ferreira, foi exibido na abertura do É Tudo Verdade, festival que segue até 19 de abril, em São Paulo e no Rio de Janeiro, com 75 filmes oriundos de 25 países
TEXTO Luciana Veras
13 de Abril de 2026
Alceu Valença em São Bento do Una, sua terra natal
Foto Antônio Melcop/Divulgação
Nas primeiras imagens de VIVO 76 (Brasil, 2026), as portas e janelas de um casarão antigo e colorido são abertas por alguém que, já nestes momentos iniciais, demonstra intimidade com o lugar. Deixando entrar a luz do sol e o vento catalisador de lembranças, um ex-morador daquele espaço, talvez o mais famoso de todos, não demora a compartilhar um dos seus grandes talentos: contar histórias e criar conexões entre passado, presente e futuro. É da paisagem familiar da Fazenda Riachão, em São Bento do Una, no agreste de Pernambuco, que Alceu Paiva Valença engata a primeira marcha da viagem musical, afetiva e política que constitui o filme dirigido pelo pernambucano Lírio Ferreira, destaque da abertura do festival É Tudo Verdade no Rio de Janeiro.
Entre os dias 9 e 19 deste mês de abril, a 31ª edição do maior festival de documentários da América Latina exibirá 75 filmes oriundos de 25 países, em sessões gratuitas a ocupar quatro salas em São Paulo e outras três no circuito carioca. As duas obras escolhidas para fazer as honras hors concours nas aberturas em ambas as cidades são Bowie: o ato final (David Bowie: The final act, Reino Unido, 2025), dirigido por Jonathan Stiasny, e VIVO 76, uma realização da Jurema Filmes e da Perdidas Ilusões em coprodução com o Canal Brasil e a Globo News e tendo a MV Produções - de Alceu e Yanê Montenegro, sua companheira e empresária - como produtora associada.
O longa-metragem mergulha nas memórias e histórias do cantor e compositor pernambucano. Tal resgate de uma vida inquieta e buliçosa, como bem se diz por aqui, nasce na infância no interior, passa pela vinda ao Recife e pelas viagens como estudante e advogado pelo Brasil e mundo afora, chega ao efervescente período criativo da década de 1970, mostra os primeiros álbuns e culmina no icônico show Vou danado pra Catende, apresentando em 1975 no teatro Tereza Raquel, no Rio de Janeiro, e eternizado no disco VIVO!, comercializado no ano seguinte. “O filme é sobre o show, é também sobre o disco e a vida dele, mas basicamente é sobre a construção do personagem Alceu”, diz Lírio Ferreira em entrevista à Continente.

Ele é afeito a investigar trajetórias musicais nas incursões pelo gênero documental: em parceria com Hilton Lacerda fez Cartola: Música para os olhos (2007), jogou luz sobre o legado de Humberto Teixeira em O homem que engarrafava nuvens (2009) e em 2024 radiografou as trajetórias do grupo Cachorro Grande e de Hermeto Paschoal em A última banda de rock e O menino dos olhos d´água, respectivamente. VIVO 76, contudo, trouxe a chance de retratar um artista de quem é devoto. “Alceu é muito importante para mim. Nasci em 1965, sou de uma geração anterior, pré-Manguebeat, e fui crescendo quando ele começava a tocar. Por exemplo, quando ele fez o show Vivo!, eu tinha 11 anos e estava começando a tentar entender de música. Se você cresceu no Recife, e se estava com a mente e os olhos abertos e com as antenas ligadas, como eu estava, cresceu sendo influenciado por muita coisa boa, coisas que não necessariamente eram tão normais. Alceu, Jomard Muniz de Britto e Paulo Bruscky eram artistas que me abriram muitos caminhos e que até hoje são fundamentais para mim”, observa o cineasta recifense.
Para Lírio, trata-se da arqueologia da “persona Alceu”. “Em algum momento do documentário, ele fala: ‘Sou uma pessoa muito tímida’. Eu acho que ele é mesmo, mas também é um palhaço, um louco, um gênio… É espantalho, é tímido, é menestrel e é menino pra caramba. O filme vai construindo essa persona que ele criou para achar que não é Alceu, mas que é sim e que está lá. Creio que é no Vivo! que o personagem nasce, então por isso que fomos até 1976: ali virou o personagem e não havia mais nada a acrescentar. Digo isso porque logo depois Alceu faz um dos seus discos mais bonitos, Espelho cristalino, em 1977, e não tem nenhuma música dele. É dali para trás a nossa opção radical”, destrincha.
Ou seja, não tem nada de Morena tropicana, Chego já, Estação da luz, Belle de jour, Diabo louro ou qualquer outro hit radiofônico desta usina de sucessos que é o repertório de Alceu. A narrativa, uma urdidura imagética imprimida até em Super 8 pelo diretor de fotografia Ivo Lopes Araújo (nome recorrente nos créditos do audiovisual pernambucano, como em Tatuagem e Fim de festa, de Hilton Lacerda, e Yellow Cake, de Tiago Melo), é ancorada no cruzamento das sequências rodadas na atualidade com o extenso material de arquivo. Os encontros com Alceu, seus momentos no palco, os depoimentos de Antônio Carlos Miguel, Charles Gavin, Julio Moura e Kátia Mesel, entre outros, e a participação do Circo Nawellington e da Banda Zé do Estado se imbricam no fio que os montadores Mair Tavares e Luisa Dowsley tecem com trechos de obras de Rogério Sganzerla, do pernambucano Fernando Spencer, dos acervos de Bruscky, Jomard e da própria Kátia e de agências como Reuters e O Globo.
“Como os três primeiros discos de Alceu são da Som Livre, gravadora do grupo Globo, fomos atrás de todos aqueles clipes dele. Tinha muita coisa feita para o Fantástico, por exemplo, e aí pegamos as imagens e remontamos tudo”, conta Lírio, que optou por um tom aceso, solar, policromático até. “Como este é um documentário que olha para o auge dos anos 1970, e conversando com Lírio sobre o conceito criativo, decidimos ir pelo caminho do lisérgico. O grande desafio foi interferir artisticamente em todas as fotos, dando esse toque psicodélico nos motions, que são recorrentes no filme, sem quebrar o ritmo. Os créditos vieram no mesmo embalo - tudo bem-colorido, contrastante, na efervescência característica da época”, comenta Carla Sarmento, responsável pelo design e animação dos créditos e parceira de longa data do diretor. “Trabalhamos juntos desde 1994, quando ainda na faculdade fui chamada para fazer os créditos e o cartaz do seu primeiro filme, O crime da imagem. Entrei no cinema e nunca mais saí, fazendo Árido movie, Cafi, Sangue azul, Serra das almas e Baile perfumado lá atrás, com ele e Paulo Caldas”.

No pique e no visual, VIVO 76 é ágil, denso, vertiginoso e sensorial como o próprio autor das icônicas canções gravadas com uma banda de alto quilate (com Paulo Rafael, Zé Ramalho, Israel Semente e Zé da Flauta também no time) e lançadas em vinil há exatas cinco décadas - como Casamento da rapousa com o rouxinol, Edipiana nº 1, Papagaio do futuro e Punhal de prata. “Acredito que o resultado faz jus a Alceu, ao seu estilo agitado de nos pegar pelas mãos para acompanhar seu raciocínio e também à admiração que nós todos temos por ele, sem que essa costura das imagens de arquivo com tudo que rodamos nos últimos anos ficasse parecendo mera pirotecnia. O que a gente queria era também contextualizar Alceu naquele periódo da história de Pernambuco e do Brasil - tinha censura, era ditadura militar, o próprio Geraldo Azevedo foi preso. Tudo isso está no filme, que foi sonhado e acalentado por muito tempo”, situa a produtora Camila Valença.
Corria o ano de 2013 quando Camila, Claudio Assis e Lírio Ferreira começaram suas fabulações sobre “fazer alguma coisa com Alceu”. “Quando estávamos na pós-produção, na correria para finalizar e estrear no É Tudo Verdade, até achei um e-mail antigo que escrevi para Yanê e nele já estava a ideia de trabalharmos juntas. Ela e Alceu gostavam muito desse disco ao vivo, eu, Claudio e Lírio tínhamos o desejo de fazer algo com Alceu pela nossa proximidade e admiração e aí começamos regar essa semente criativa”, acrescenta Camila, sócia de Claudio na produtora Perdidas Ilusões e de Lírio e Dedete Parente na Jurema Filmes - nos créditos finais, há um registro à idealização coletiva do projeto, enquanto o roteiro é assinado pelos dois cineastas pernambucanos e por Dillner Gomes (que coescreveu Piedade, último longa dirigido por Claudio Assis).
Há duas décadas dividindo arte e vida com Alceu Valença, a produtora Yanê Montenegro também relembra a gênese de VIVO 76. “Em 2010, fomos fazer uma reformulação do site do Alceu e com o estudo de toda a obra dele identificamos que havia uma demanda reprimida muito grande por essa obra da década de 1970, sobretudo pelo disco Vivo!. Resolvemos fazer o show desse disco e era um pouco doído pra ele, pois era a época da ditadura, Geraldo tinha sido preso, e ele não tinha vontade de subir no palco e reconstruir essa energia, mas terminou topando. Paulinho Rafael ainda estava vivo e tocou, Zé da Flauta fez alguns show e terminamos gravando o DVD Vivo e revivo! no Teatro de Santa Isabel, no Recife, que lançamos em 2015. Veio a vontade do documentário e do encontro com Camila se abriu um terreno muito fértil”, pontua.
Ela atenta para o fato de que, apesar do “movimento de psicodelia no mundo e em Pernambuco”, Alceu era o espelho das suas próprias referências - “a Banda de Pífanos de Caruaru, os cantadores e poetas do Vale do Pajeú, martelos agalopados, sextilhos, versos decassílabos”. “Tudo era muito psicodélico nessa época, mas ele terminou que não bebeu da psicodelia pernambucana, pois veio para o Rio em 1970 e voltou pouquíssimas vezes pro Recife. O primeiro disco dele, Planetário, que ele faz com o Geraldo Azevedo, já era muito doido, porque ele já pensava fora da caixa e mostrava uma sonoridade diferente de tudo, até difícil de enquadrar - era forró, era rock, era uma maluquice que metia uma guitarra num arranjo com pífanos. Acho até que ele já nasceu descolonizado, sabe? Como ele adora dizer, primeiro, ele é de São Bento do Una, depois de Pernambuco, depois do Nordeste, do Brasil, da América do Sul e do mundo. É um som universal”, condensa Yanê Montenegro.
Uma semana antes da exibição de VIVO 76 no festival, Alceu Valença conversou com a Continente sobre esse momento de “data redonda e simbolismo numerológico interessante”, nas palavras de Yanê - o documentário sai no mesmo ano em que o filho de Adelma e Décio Valença completa oito décadas de existência com a turnê 80 girassois e o álbum Vivo! faz 50 anos. “Eu vi o corte do filme e está maravilhoso. Sou fã de Lírio como cineasta e adorei estar com ele em São Bento do Una, o berço da minha arte, da minha história, e também fazendo algumas cenas em Nova Jerusalém, relembrando A noite do espantalho. São minhas raízes”, pontua Alceu, citando o longa que Sérgio Ricardo dirigiu em 1974 e no qual ele interpretou o papel-título.

Foto: Antônio Melcop/Divulgação
Ante a pergunta se ele se sente “vivo, muito vivo” como brada nos versos de Sol e chuva, a resposta é rápida: “Evidentemente que estou. Carrego tudo isso nas costas - São Bento do Una, Olinda, Recife, carrego o Rio de Janeiro e Paris onde morei. São as urbes paralelas que eu namoro, mas não moro em nenhuma delas. E estou muito vivo”. VIVO 76, pois, brota com o aval do seu personagem multifacetado, a convergência das efemérides a impulsionar seu percurso (a distribuidora é ArtHouse e a ideia é lançar no segundo semestre), o reconhecimento do É Tudo Verdade, a força de uma obra musical que até hoje afugenta rótulos fáceis e a aposta na memória na contracorrente desses tempos de uma fruição cultural cada vez mais fugaz. A vida pode até ser um desmantelo, mas lembrar é estar vivo, muito vivo.
LUCIANA VERAS, jornalista