Cidade do Porto celebra o primeiro Dia da MPB
Festival foi criado pelo historiador pernambucano Ivan Lima e ocorre nos dias 17 e 18 de outubro, com debates, apresentações e exibição de filmes
TEXTO Álvaro Filho
14 de Outubro de 2026
Ivan Lima, organizador do evento
Foto Ben do Rosário/Divulgação
Ele não canta nem toca um instrumento, mas se tornou uma das maiores referências da Música Popular Brasileira em Portugal. Aos 38 anos, o historiador pernambucano Ivan Lima construiu uma carreira como especialista na MPB - e não só - desde que deixou o Recife, em 2018, para cursar o doutorado em História da Música na Universidade do Porto.
Um percurso que ganha um capítulo novo nos dias 17 e 18 de outubro, quando a Cidade Invicta recebe a primeira edição do Dia da MPB, um encontro organizado e produzido por Ivan, convidando músicos e pesquisadores brasileiros, e alguns convidados da “casa”, para celebrar e debater o gênero musical que influenciou e até hoje influencia a música portuguesa.
“Em Portugal, a música brasileira costuma estar no centro das atenções nos eventos dedicados ao Brasil e quase sempre focado no pagode, no samba ou no forró. Que eu adoro, mas sentia falta de um evento que se concentrasse num dos nossos maiores gêneros, a MPB”, justifica o historiador musical.
O evento no Porto lembra o Dia da MPB, instaurado em 2012, que escolheu o 17 de outubro por ser a data de nascimento da abolicionista Chiquinha Gonzaga, maestrina, primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil, autora da célebre marchinha Ó, abre alas! e que, entre 1904 e 1908, viveu em Portugal, apresentando-se e lotando os teatros de Lisboa e do Porto.

Desde o início do século passado, portanto, a Música Popular Brasileira tem estabelecido uma nova conexão cultural entre os dois lados do oceano. Embora Portugal não tenha um termo guarda-chuva como MPB para abrigar a diversidade de ritmos, a música produzida pelos portugueses - incluindo o sacrossanto fado - sempre recebeu forte influência brasileira.
Uma influência que virou tema do doutorado de Ivan Lima no Porto. “Tenho estudado a música de protesto produzida nos dois países, entre 1964 e 1974, quando tanto Portugal como o Brasil viviam sob ditadura”, conta. “E é claro que a MPB influenciou diretamente as canções de protestos portuguesas”, explica.
Um dos exemplos desta simbiose é um compacto encomendado ao amigo jornalista português, José Nunes Martins por Chico Buarque. “O Chico costumava se comunicar através de fitas cassetes. Numa delas, pedia ao José Nunes Martins para tentar lançar em Portugal um compacto com uma música que certamente seria censurada no Brasil.”
A música era a Tanto mar, uma ode à Revolução dos Cravos, até hoje presença obrigatória nos shows de Chico em Portugal. “Na fita cassete, Chico sugeria que uma música do ícone da canção de protesto portuguesa, Zeca Afonso, estampasse o lado B do compacto, mas que acabou saindo com Gota d’água e Bem querer”, todas do Chico”, complementa o historiador.
Esse mergulho na história da música e do passado recente português começou a situar Ivan Lima como referência no Brasil. Jornalistas, como o colunista de O Globo Lauro Martins, costumam procurar o pernambucano para consultar sobre o período. O teor da sua pesquisa também abriu contato direto a nomes como Gil, Caetano e o próprio Chico.
O conhecimento no tema também chamou a atenção dos portugueses. Entre eles, o diretor da Casa da Música do Porto, Fernando Sousa, e o produtor cultural Tito Couto, organizador de vários festivais em Portugal, que apostou em Ivan Lima para moderar os debates. Começava aí o percurso que levou o historiador musical a ser o rosto do FNAC Talks.
Desde 2023, Ivan dividiu o palco para conversas como o público na FNAC, seja em Lisboa ou no Porto, com nomes como os pernambucanos Almério, Martins, Juliano Holanda e Natascha Falcão - PC Silva será o próximo - além de pesos-pesados como Chico César, Ivan Lins, Fernanda Abreu, Daniela Mercury, Arnaldo Antunes, e os roqueiros do Ira!, entre outros.
Parte do conhecimento de Ivan Lima também é partilhado no perfil do Instagram O que cresci ouvindo, uma referência à vivência do antigo menino criado “perto do cano da Compesa” na Iputinga, sem referências musicais em casa, que um dia recebeu de presente do avô um microfone e um “tecladinho”. Foram os primeiros acordes de uma grande paixão.
“Até arranho uma coisinha ou outra no violão, mas desde o início queria, mesmo, ser um estudioso da música”, revela Ivan Lima. Xará de um antigo e famoso radialista esportivo, apesar da relação com a música, o rádio passou longe da vida profissional. “Fui sempre professor de história, daqueles colégios de gente rica”, brinca.
Licenciado em história pela Universidade de Pernambuco (UPE) e bacharel em geografia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a música sempre foi objeto de estudo. O samba, na graduação pela UPE, e o brega, através do repertório de Odair José, no posterior mestrado em geografia na Universidade Federal da Paraíba (UFPB).
O conteúdo da pesquisa sobre Odair José, inclusive, serviu de base para o roteiro do documentário produzido em 2025, Vou Tirar você deste lugar, dirigido pela cineasta baiana Dandara Ferreira. A produção será um dos títulos exibidos durante o Dia da MPB no Porto. A curiosidade de Ivan, além de filme, também já rendeu um livro.
“Isso foi em 2009, quando ainda era estudante de história. Moraes Moreira estava no Recife e sempre fui fanzaço dele. Ele estava hospedado no antigo Recife Palace e fui lá na cara dura falar com ele. Da conversa, resultou o convite para fazer uma pesquisa para um livro que ele estava escrevendo”, relembra.
O livro foi Sonhos elétricos, sobre as origens do Carnaval na Bahia, fortemente influenciado, senão herdeiro direto, do frevo do Vassourinhas. “Moraes Moreira era apaixonado por Pernambuco. Ele tem mais de 40 músicas que citam o estado ou o Recife. Talvez só Capiba tenha mais”, completa.
Sobre o festival Dia da MPB, Ivan conseguiu sensibilizar a Câmara Municipal do Porto para apoiar o evento, assim como a Fonoteca Municipal, responsável pelos estandes de discos e produtos relacionados à música. O palco será o Instituto Pernambuco-Porto.
O primeiro dia de programação traz o debate “Do modernismo à canção: o Brasil que se inventa”, com a escritora Mariana Salomão Carrara, e a exibição do documentário Fernanda Abreu: Da lata 30 anos, de Paulo Severo, finalizando no concerto do pernambucano Almério.
No segundo dia, a mesa “O Brasil que ouvimos: Memórias portuguesas da MPB”, contará com a cantora cabo-verdiana Mayra Andrade e os músicos portugueses Samuel Úria e Sérgio Godinho, o já citado documentário sobre a vida de Odair José, culminando na conversa entre Ivan Lima e o músico brasileiro Geraldo Azevedo.