Literatura

Caio Lima lança "pequena cosmogonia da cidade"

Livro de estreia do poeta, músico e compositor é uma coletânea de contos que marcam o início da "perturbação estética" do artista pernambucano com o Antropoceno

07 de Abril de 2026

Foto Divulgação

Na quinta-feira (9/5), às 19h, o poeta, músico e compositor pernambucano Caio Lima lança seu primeiro livro, pequena cosmogonia da cidade (Titivillus Editora, com apoio do Funcultura), no Frontal, em Santo Amaro. A obra reúne contos escritos ao longo de sete anos, quando o autor morou e viveu intensamente no centro do Recife, caminhando como um andarilho e descobrindo paisagens, pessoas e histórias. 

Com projeto gráfico de Rodrigo Acioli, que criou uma série de monotipias inspiradas em elementos e texturas das paisagens urbanas percorridas pelo autor, a obra marca o início de uma virada na trajetória artística de Caio Lima: o encontro com o Antropoceno — o período geológico em que as atividades humanas, impulsionadas pela dinâmica do capital, passam a produzir impactos globais no clima e nos ecossistemas. "Costumo dizer que o livro é a primeira aparição, talvez, de uma perturbação do Antropoceno na minha maneira de fazer arte", afirma o autor.

Apesar de ter nascido no Recife, o autor considera que demorou a ter uma experiência concreta de imersão na paisagem urbana da cidade.  “Cresci no subúrbio, entre o Ipsep e a Imbiribeira, e ia pouco ao centro. Não compartilhava da percepção do Recife ser uma cidade bela”, recorda Caio. Essa visão começou a mudar quando ele foi morar na Rua da Aurora. A partir desse momento, começou a habitar o centro, a fazer parte dele, conhecer seus habitantes, ao clima, a fauna, a flora, como a cidade se transforma durante as temporadas e eventos.

Essa imersão prolongada — que o autor descreve como um procedimento central de seu processo criativo, baseado em repetir "como uma via para escutar" — revela um Recife que não se entrega à primeira vista. Segundo Caio, Gilberto Freyre já apontava o Recife como uma cidade difícil de penetrar, diferente, por exemplo, do Rio de Janeiro, que encanta à primeira vista. “O Recife precisa de imersão. Foi assim que eu pude me aproximar dessa beleza encantada, dessa poética”.

Os contos de pequena cosmogonia da cidade atravessam o centro do Recife — seus mendigos, seus bares, sua vida ordinária, o Cinema São Luís — em busca do que o autor chama de "pequenas cosmogonias ainda possíveis", passeiam entre o realismo fantástico e a poesia marginal. "Existia, entre mim e meus amigos artistas, essa ideia de que o artista inventa mundos com seu olho mágico, que surgem do colapso do real, das percepções de outros mundos possíveis. No momento em que eu estava trabalhando nos textos, estava envolvido com as ideias de Davi Kopenawa, com a figura do xamã, do pajé. Surgiu a figura do nômade, do andarilho, do vagabundo, do louco... Isso tudo foi colaborando com essa proposta de pequenas cosmogonias que vão sendo criadas nessa paisagem urbana", detalha. 

A escolha do termo "cosmogonia" não foi casual. Para o autor, a paisagem urbana guarda uma densidade de tempo profundo, camadas de histórias em conflito. "O livro abriga essa cidade de tempo profundo, da história do Recife, com imagens atuais, imagens soterradas. Isso tem uma conotação política importante que é a disputa por uma imagem de cidade. A especulação imobiliária faz proliferar uma ideia de um 'novo Recife', exclusivo, totalizante. Mas precisamos mergulhar e multiplicar essas imagens, o Recife não é só isso. Há sempre uma paisagem, dentro de uma paisagem", afirma.

A edição e a concepção visual do livro são assinadas por Rodrigo Acioli, editor responsável pela Titivillus Editora, que desde 2017 publica livros dedicados à literatura, à crítica de arte e à crítica social. A editora tem como marca os processos artesanais e híbridos de produção, mesclando técnicas arcaicas, como a tipografia, com tecnologias contemporâneas, como a impressão offset laser. O projeto gráfico de pequena cosmogonia da cidade incorpora essa abordagem, experimentando formas de imprimir tipográficas e monotipias que dialogam com a urbanidade das narrativas.

SERVIÇO
Lançamento de pequena cosmogonia da cidade, de Caio Lima
Onde: Frontal – Rua Mamede Simões, 144, Santo Amaro, Recife
Quando: Quinta-feira (9/5), às 19h

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