Foto Humberto Araújo
Entre as peças apresentadas, no domingo (5), no Festival de Teatro de Curitiba, A máquina é uma das mais ricas de significados. Não por uma particularidade do texto ou da montagem em si, mas, incluindo-se a estes outros elementos. Espaciais e temporais. Começando pelo local, a Ópera de Arame.
Se para Baudelaire o lustre num teatro pode ser, por vezes, tão importante quanto o espetáculo, a história de um local é parte do seu “desenho”. Segundo informam os organizadores do evento, a Ópera de Arame, quando “nasceu”, tinha o seu idealizador em mente o Festival de Curitiba. Pensada pelo quase epônimo de Curitiba que foi o Jaime Lerner. Pelo vigor inovador de sua gestão à frente da capital paranaense e as suas ideias arquitetônica e urbanísticas postas em cena.

A máquina chega, de novo, ao Festival, um quarto de século depois do seu primeiro grande sucesso. Que se chame “de Curitiba” um festival que é o mais generoso silo de experiências teatrais de todo o Brasil e de alguns países diz muito sobre o modo como se pode ver a identidade na diversidade, e vice-versa. Além dos reducionismos regionalistas e nacionalistas.
Isso, porém, seria pouco, para contar os 25 anos de uma peça. Como insuficiente informar que brotou no bairro do Recife e reverberou nacionalmente a partir do Festival de Curitiba. Mas isto é uma parte substantiva de sua história. Carregada de simbolismo. Se Ulisses tardou uma década para voltar à sua Ítaca “rico de experiências”, A máquina regressa, sem promessas de futuro. Montagem cara, justamente por seus engenhos e suas artes, não tem conseguido os apoios esperados.
Não é a primeira vez que uma peça tem parte de sua grandeza derivada dos seus planos simultâneos. Ou, neste caso mais novo e específico, dos seus "mecanismos". Ficou famosa a montagem de Vestido de noiva (de Nelson Rodrigues) de 1943, sob a direção de Ziembinski, e os seus planos da realidade, da alucinação e da memória.
Para falar da importância de A máquina não é preciso enchê-la de clichês "icônicos" nem repetir, ad nauseam, os nomes dos atores que lançou. Sua relevância não se encontra, quem sabe, sequer em localizar uma história numa imaginária cidade, que tanto pode se chamar – como se chama – Nordestina, ou Bacurau. O que realmente importa é a história que conta e as sensações que causa. A máquina, portanto, não é maquinal – sem perdão do trocadilho. Nem remete a lugares comuns ou anacronismos. Como seria hoje sonhar com uma máquina de “filmar sonhos”.
Uma parte do encanto atemporal de A máquina vem do que no texto há de ‘máquina do mundo’. Ou seja, do seu poder sugestivo, e até arquetípico. Seja na base original, inventada por Adriana Falcão, seja na sua adaptação ao teatro ou ao cinema. Após 25 anos em que a “virtualidade” parece haver tomar conta do mundo, um certo gosto por nichos e ninhos – como os estudados por Bachelard em livro famoso – ameaça voltar. Ou, de verdade, nunca esteve mesmo ausente. Quem quer viver em um não-lugar, como os investigados por Mar Augé? Por pior que seja a Nordestina, a história, e por mais sedutoras as formas pós-modernas de ‘paus de arara’, a casa e a imaginação são irresistíveis. Sempre haverá antônios e karinas no mundo enquanto houver poesia e quem precise dela.