Entrevista

Uma travessia tortuosa e exitosa de "Grande Sertão: veredas"

Ator Gilson de Barros cria um Riobaldo confessional e bem-autoral na trilogia teatral dirigida por Amir Haddad, em cartaz em São Paulo

TEXTO Sidney Rocha

19 de Maio de 2026

O ator Gilson de Barros em cena da trilogia

O ator Gilson de Barros em cena da trilogia "Grande Sertão: veredas"

Fotos Renato Mangolin/Divulgação

A trilogia Grande Sertão: veredas, com direção de Amir Haddad e interpretação de Gilson de Barros, circula desde 2020. No percurso, o recorte “Riobaldo” foi indicado ao Prêmio Shell (Melhor Ator, Melhor Dramaturgia), em 2003. A encenação passou por 68 cidades do país e foi vista por mais de 14 mil pessoas. No circuito internacional, (Portugal, Cuba e Colômbia) somou mais de 3 mil espectadores. Agora está, outra vez, em cartaz, em São Paulo, em temporada até o dia 31 de maio. A reportagem da Continente viu a casa cheia nesse último fim de semana, em sala com capacidade para 144 lugares, no teatro Sérgio Cardoso.

A trilogia é adaptação teatral de trechos da obra de Guimarães Rosa, Grande Sertão: veredas, que comemora 70 anos da sua publicação neste 2026. A efeméride será pauta importante no meio literário neste ano. Merecidamente.

São três peças inspiradas no cânone do escritor mineiro. Com duração média de uma hora e quinze minutos, cada. Elas acompanham diferentes momentos da trajetória de perosnagem-narrador. Em “Riobaldo”, o primeiro recorte, o personagem relembra seus amores por Diadorim, Otacília e Nhorinhá. Na encenação se destaca a narrativa sobre desejo, culpa e a ideia de destino. Em “No meio do redemunho”, Riobaldo, já velho fazendeiro, revisita sua vida de jagunço e questiona as fronteiras entre bem e mal, onde as figuras de Deus e o diabo se misturam ou se complementam. Já no último espetáculo da trilogia,“O julgamento de Zé Bebelo” leva ao palco um dos episódios centrais do romance: o julgamento do líder jagunço que tenta impor a ideia de justiça em meio à lógica brutal ou civilidade na violência no sertão.

Do teatro conservador ao favela movie

Muitos dão ou deram como maior dificuldade para suas adaptações o texto: um texto difícil para a maioria das pessoas.  Não é o caso dessa adaptação, como diz Gilson de Barros, em entrevista à Continente: “Não concordo. Guimarães Rosa não é um autor de difícil leitura.”

O fato é que nenhuma adaptação ou obra inspirada em Grande Sertão: veredas, seja no teatro, televisão ou cinema, conseguiu “traduzir” o romance de João Guimarães Rosa realmente. O cinema tentou isso pela primeira vez em 1965, com Grande Sertão, um filme de Geraldo e Renato Santos Pereira. O longa tentou uma narrativa cinematográfica convencional, dentro da estética do “Ciclo do Cangaço”. Você pode ver o filme no YouTube, neste link. Há qualidades ali. Mas o filme simplifica demais aquilo que faz o romance ser o que é. O livro não é apenas uma narrativa sobre jagunços, amor, guerra ou sertão. O romance acontece dentro da linguagem. A verdadeira travessia de Riobaldo é verbal, mental, metafísica, mística. Essa adaptação levou para longe o conceito que Antonio Candido, o crítico literário, usou para definir GSV: o primeiro grande romance metafísico da literatura brasileira”.

Adaptar isso sempre significou perder alguma coisa no caminho, claro. Mas no caso do filme de 1965, ele se distanciou em muito da vertigem do livro.

Desde a publicação do livro, em 1956, houve relativamente poucas tentativas de adaptação, se encararmos de verdade a importância da obra. Isso por si só já revela um certo temor artístico diante de Rosa. O romance parece resistir naturalmente às formas tradicionais do espetáculo. Mas também às experimentais.

Talvez a adaptação mais equilibrada tenha sido a minissérie Grande Sertão: veredas, exibida pela Globo 20 anos depois do filme dos irmãos Santos Pereira, e dirigida por Walter Avancini. A televisão foi mais generosa com Rosa porque lhe ofereceu mais tempo. A narrativa pode respirar. Ao longo de vários capítulos, dava para se notar mais a “oralidade”. O universo jagunço era mais denso. Aquelas longas reflexões do atormentado ex-jagunço Riobaldo (Tony Ramos) conseguiram sobreviver na teledramaturgia. José Dumont foi um dos melhores Zé Bebelos já vistos. O produto foi muito respeitado, mas nunca chegou a ser um fenômeno popular mais amplo.

Hoje, talvez pareça solene demais. A televisão mudou muito de lá para cá. Algumas cenas podem soar mais ilustrativas, cuja intenção de contar ou recriar o universo rosiano dramaticamente se dilui um tanto, visto com olhos de hoje.

Assim, com o tempo, talvez o teatro tenha se tornado o espaço mais fértil para Guimarães Rosa. Faz sentido. Grande Sertão: veredas é um romance oral, pode-se dizer. Para quem não sabe ou não leu, é alguém falando o tempo todo. Alguém tentando compreender a própria vida enquanto isso. A palavra dita ali tem uma força essencial.

Entre as montagens mais importantes está a adaptação de Bia Lessa, apresentada em 2017. Bia aceitou o fato de não poder reproduzir o romance e optou por uma experiência visual, fragmentada, quase como um ritual. O texto se transformou em imagens poderosas em cena. Uma travessia mental pelo do sertão de Rosa mais que narrativa. Admitir que aquele texto não suporta o simples naturalismo foi uma boa decisão.

Mas também se correu um risco constante nas adaptações contemporâneas de GSV: muitos preferem transformar o autor num monumento estético, admirado à distância. Era uma peça, mas a emoção produzida não era muito diferente daquela produzida no público fascinado por instalações artísticas e não alcançava o sentido pelo drama humano ao qual se dedicou Guimarães Rosa por cerca de quatro anos de escrita do romance.

Depois disso, Bia Lessa produziu uma adaptação “calcada” ou decalcada de GSV para o cinema, em 2023. Chamou-se O Diabo na rua, no meio do redemunho. Não me lembro de ter visto. Então é como não ter visto. Portanto, não comentarei.

Mais recentemente, o diretor pernambucano Guel Arraes levou Grande Sertão ao cinema. Foi um favela movie. Uma narrativa distópica. A tentativa de uma simplificação geográfica. Quando se aproxima do teatro, o filme de Arraes até que ganha alguma dimensão poética. Nonada mais nem demais. A paixão pelo mundo pop ou da caricatura do épico não deixou a narrativa avançar. Cinema-cabeçudo. Experimental-não-transcendental.

Porque o Sertão, em Rosa, não é somente o inferno da pobreza ou violência. É o inferno espiritual de verdade.

No fim das contas, boa quantidade das adaptações de Grande Sertão: veredas enfrentaram o mesmo obstáculo: o romance é menos uma história do que uma consciência viva, em movimento. Não há nada muito extraordinário nos acontecimentos. (Aliás, a vida dos jagunços é banal, o Sertão é banal, a vida e a morte são uma coisa só: banal). O que torna o livro impressionante é a maneira como Riobaldo pensa, hesita, inventa, desconfia do mundo e de si mesmo enquanto fala. O verdadeiro Grande Sertão não está propriamente no Sertão, nem na vida-jagunça, mas dentro da voz de Riobaldo. E certas vozes, quando nascem na literatura, permanecem impossíveis de transportar inteiramente para qualquer palco ou tela.

De modo que, na tentativa de “entregar” algo ao público, essas empreitadas têm se concentrado em falar mais para iniciados do que para espectadores comuns, fazendo surgir um Riobaldo plano, cheio de aforismas, terminam promovendo certo hermetismo, esse, sim, de difícil leitura.

Gilson de Barros, não. Ele mantém o discurso tortuoso de Riobaldo. Talvez outros roteiros e textos tentem certas simplificações, para “ajudar” o público na poltrona, um erro que a trilogia não comete, porque toda assentada no texto.

O Riobaldo de Gilson de Barros é confessional e bem-autoral. Se o romance pode ser considerado um grande monólogo ou um monólogo-romance, e não propriamente um diálogo, Gilson busca em muitos instantes apartes implícitos com o público. E nisso reside um prejuízo, a meu ver. Se temos cursos para atores e atrizes, em breve teremos de promover cursos para plateias. Se no romance Riobaldo fala a um interlocutor silencioso, o que se viu, sobretudo no espetáculo de sábado (16) “No meio do redemunho”, foi um público que gargalhava para cada sentença trágica. Aliás, gargalhava de tudo. Era quase impossível ouvir a sequência do texto, pelo ator, até reinar outra vez o silêncio.

Outra característica da plateia: a grande maioria era composta, nos três dias, de pessoas com mais de 60 anos de idade. Muitos estavam nas três apresentações.

Grande Sertão é um “monólogo de consciência”, guiado pela “voz” de Riobaldo em busca de entender o próprio destino. Não dá para gargalhar disso tudo se não se levarmos o manual de psicanálise ou psiquiatria para a sessão. Se formos generosos podemos dizer que o riso surge como tentativa de dominar a angústia. “Isso é terrível, mas não vai me destruir”, talvez possamos justificar. Em vez disso, eu voto por cursos intensivos e urgentes para formar plateias e por menos psicanálise ou antropologia.

Os três recortes da trilogia de Amir Haddad e Gilson de Barros não correm riscos desnecessários. É a experiência de palco que mais se aproxima da leitura, onde se destaca a memória do ator, que em “O julgamento de Zé Bebelo” (domingo, 17) encontra sua melhor performance. Em algum momento, Zé Bebelo faz algumas exigências diante de Ramiro: uma delas, e não me lembro se isso está no romance, pede para que lhe desamarrem as mãos. Isso deu um presente a Gilson: aliar a seu Zé Bebelo uma bela retórica, certa grandiloquência e excelente malícia.

“Meu trabalho é incentivar a leitura de Rosa”

Gilson é um grande leitor de Rosa. Não somente de GSV, mas de contos e outros trabalhos do escritor mineiro. “Só leio Rosa, praticamente, nesses últimos dez anos”, disse na primeira parte da entrevista, no foyer do teatro. Ele mantém clubes de leitura pelo país. E ali mesmo explicou um dos seus projetos mais “didáticos”, o Grande Sertão Vereda para Todos, a ser realizado até 2028:

“A ideia é a seguinte,”, explicou, “em vez de uma peça de teatro, vou em alguns lugares e falo, faço um resumo do livro e apresento algumas cenas das minhas peças. É uma maneira mais didática, mais simples de apresentar Guimarães Rosa a algumas situações, e, algumas comunidades, que às vezes não dá tempo de ter uma peça, aí você faz ali um resumo daquilo e manda brasa. Entendeu?” E completou o ator: “Esse é um produto que foi se criando com a prática e realmente estimula a formação de novos leitores. estimula a formação da minha plateia, e essa questão vai adiante.”

Outro dado sobre as plateias ou leitores: entrevistei pelo menos dez pessoas antes e após cada sessão. A pergunta era uma só:

“Você já leu Grande Sertão: veredas?”

A resposta foi uma só:

“Não”.

Resta uma esperança em travessias como essas do Gilson de Barros.

SERVIÇO
Grande Sertão: veredas - 70 anos de travessia
Onde:
Teatro Sérgio Cardoso – Sala Pascoal Carlos Magno -  Av. Rui Barbosa, 153 – Bela Vista – São Paulo – SP
Quando: De 15 a 31 de maio de 2026. Sexta a domingo. Sextas, às 19h – “Riobaldo”; sábados, às 19h – “No meio do redemunho”; e domingos, às 19h – “O julgamento de Zé Bebelo”
Quanto: Ingressos: R$ 100, (inteira); R$ 50, (meia) (Via Sympla ou na bilheteria, pelo meia hora antes do início)
A realização é da Barros Produções Artísticas, com apoio da Associação Paulista dos Amigos da Arte, responsável pela gestão de chamadas públicas do Teatro Sérgio Cardoso e de outros teatros.

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