Entrevista

“Nunca fiz parte de nenhum movimento”

Alceu Valença, que celebra 80 anos nesta quarta-feira (1º/7), revela, em entrevista, alguns episódios curiosos de sua trajetória artística

TEXTO José Teles

30 de Junho de 2026

Foto Leo Aversa/Divulgação

Defeito que não se pode atribuir a Alceu Valença é o de ser lacônico. Fala pelos cotovelos. Quem o entrevista gravando a conversa, certamente terá material que transcenderá ao tema que seria o objetivo do papo. Numa entrevista recente que me concedeu, o filho mais dileto de São Bento do Una, em seu casarão de Olinda, foi muito além do que lhe foi perguntado, felizmente. Pois fez confissões, revelações curiosas, detalhes de sua biografia que, dificilmente, e um entrevistador, a não ser um biógrafo, procuraria saber como, por exemplo, um encontro pouco convencional com o poeta Carlos Drummond de Andrade.  

MOVIMENTO DO EU SOZINHO

“Eu nunca pertenci a nenhum grupo. Não sou contra, mas gosto de ser independente. Nunca fiz parte de nenhum movimento. Sou parte do meu movimento, do jeito como faço. Tive parceria com Geraldo Azevedo de maneira absolutamente natural. Cheguei no Rio, e fui na casa de Wilson Lira, um rapaz de Caruaru, amigo nosso. E Geraldo estava lá tocando. Fiquei até encabulado de pegar o violão, porque ele tocava muito. Quando deu uma saidinha, peguei o violão. Geraldinho voltou e disse, ‘Bicho, gostei da sua música’. Fui na casa dele no outro dia, e aí compomos ‘Talismã’. Primeira música que a gente fez. Teve outro parceiro, Herbert Azul, que por acaso, tocava comigo, e a gente fazia músicas. Depois de um tempo, nunca mais fiz uma música com Geraldo Azevedo porque não me encontro com ele. Também não encontro Herbert. Ah, sim, tem Vicente Barreto, outro maravilhoso. Eu ia pra São Paulo muito, e encontrava com Vicente. ‘Tropicana’, sabe o que aconteceu? Eu ia saindo pro teatro, com o pessoal, ele me ligou e disse que tinha acabado de compor uma música. Fui mudar de roupa. Bateram na porta, era ele. Me mostrou a música, escrevi na hora. Ele disse, bicho me dá essa letra. Eu disse não, que tá parecendo uma salada de frutas. Não vou te entregar. Quando voltar vou ver se gosto. Voltei e gostei. Com Vicente teve ‘Pelas ruas que andei’, ‘Cabelo no pente’, ‘Vou pra Campinas’ (cantarola: “Eu vi o sol/e a estrela matutina/vou pra Campinas/nessa estrada pelo ar...”).Fiz esta e outras com ele, mas depois que deixei de encontrá-lo, nunca mais fizemos nada”.

FORRÓ E FREVO

“‘Marcha junina’ é um xote com menos síncope na melodia. (Canta ‘Olha pro céu meu amor’, imitando a voz de Luiz Gonzaga). Se você botar isso em frevo, dá certo. A marcha junina é portuguesa, mas não tem as mesmas síncopes do frevo. Tem um amigo meu que me diz pra cantar Raul Seixas, ‘Metamorfose ambulante’. Mas não dá, porque o ritmo é diferente, é anglófono, o nosso ritmo, o xote, é ibérico. E é português, sobretudo.

No primeiro disco que gravei tinha ‘Planetário’, meu arranjo. Uma coisa ibérica, mourisca, é uma marcha. Depois, no segundo disco, peguei o meu lado lusitano, não tinha nem uma pessoa daqui. Era uma banda. Peguei dois músicos dos Lobos, uma banda do Rio. Fiz depois do filme com Sergio Ricardo (A Noite do Espantalho). Durante as filmagens, quando não eram nossas gravações, eu ficava tocando com Geraldo Azevedo e ele (Sérgio). Aí eu conheci Lula Côrtes, que fez a cenografia do filme. Tinha um instrumentozinho chamado tricórdio, árabe; que ele esteve lá no Marrocos. Eu botei no disco. Os mouros invadiram a Península Ibérica, e passaram muitos séculos lá. A própria música portuguesa tem isso do árabe. O fado é meio árabe, um pouco diferente. Coloquei Lula no disco inteiro (refere-se a Molhado de Suor, de 1975).”

SURREALISMO NA SÉ

“Eu tinha uma namoradinha que arranjei quando voltei (da França?), e ela gostava de pintar. Eu olhava ela pintando, umas bolas coloridas. Tinha nada de psicodelia, porra nenhuma, em (declama): “Eu gosto/é de olhar teus olhos/se espalhando na tarde/em busca de miragens/de bolas coloridas/que desciam do céu”(versos de Molhado de Suor). Dentro dessa história, acontece uma coisa, meio surreal, meu poema. Foi no dia em que conheci Paulinho. Eu estava ali no Alto da Sé. De repente aparece uma menina vestida de bailarina, toda pintada, os cabelos vermelhos, com umas purpurinas. Ela olhou assim... Porra, que gata do cacete... Aí ela correu. Depois conheci.”

UM DSD

“Dentro dela (a poesia?) tem esta linguagem em que eu sempre viajo. Mas não com ácido lisérgico, maconha , porra nenhuma. Nunca tomei droga nenhuma. Quem quiser tomar que tome. Aí vem um negócio de psicodelia. Mas eu não sou da psicodelia, isto é de pessoas que tomam ácido lisérgico, mas eu nunca tomei. Eu sou doido DSD, doido sem drogas.. Beber, bebi meu chopezinho. Mas eu bebia dois chopes

Eu tive um trauma. Na minha rua, um vizinho teve um surto. As pessoas pensavam que tinha fumado maconha e ficou doido, mas não foi. Nada a ver. Como eu tinha uns 14 anos, passei a pensar que se a pessoa fumar o tal do baseado ficava doido. Nunca fumei baseado. Beber, bebia.Tomava meu copinho. Mas lá no Diagonal (bar do Leblon, Zona Sul carioca), as pessoas diziam que o meu era o porre mais barato do mundo. Queriam ser eu, porque tomava dois chopes e já ficava bêbo”.

FOLHAS E RAÍZES   

“Tudo na minha música remete ao Agreste e ao Sertão”. Canta um trecho de um aboio, solfeja. Improvisa um aboio: ‘Em São Bento ouvi sanfona/de oito baixos tocada/violeiro, cordelista, coquista de embolada/ai rua amarga/no alto falante ouvia/ toda a noite, todo o dia/ a voz de Luiz Gonzaga’. Tem vários Alceus. Esta mistura vem dos aboios, das toadas, violeiros. Meu avô fazia versos de improviso, e os que escrevia. Tio Lucilo, irmão do meu pai, os dois fizeram uma dupla, fizeram até cordéis, um dupla, de repentistas, Patativa e Azulão. Eu ouvia, eles tocavam. Meu avô lia música por pauta, tocava choro. Os parentes de Pesqueira, de Arcoverde, Alagoinha, São Bento do Una vinham para os saraus dele lá no Riachão (fazenda de seu Décio Valença, pai de Alceu). Meu avô por lado materno, Adalberto Monteiro Paiva, filho do português Rodolfo Monteiro Paiva, tocava bandolim. Tio Nô tocava violino, Tia Nonô mora em Caruaru, tocava piano. Eu venho da coisa ibérica do meu avô, que tocava violino e piano, este lado ibérico e clássico, o lado clássico. Do lado de vovô Oreste e Lucilo, este lado mais popular, da cultura prima. Tio Rinaldo tocava choro e samba. Tudo ficou na minha cabeça. As minhas primas, que eram mais velhas, cantavam, para dividir as vozes. Formação de Alceu Valença: Riachão, cantadores, na feira de São Bento tinha tudo isso. Sabe o que é berimbau de bacia? É deitado, soa como uma coisa meio árabe, muito mourisca. Tinha o alto-falante de São Bento, o rádio da minha casa. Às vezes, eu ia pra casa do meu avô, e ele botava disco na radiola, às vezes música clássica. Na minha casa não tinha radiola.

Meu Tio Rinaldo, bom de violão, participou do conjunto Os Caetés, que tinha Luiz Queiroga, o pai de Lula. Eles viajaram com Orlando Silva, em apresentações pelo interior pernambucano, onde tivesse auditório. Solfeja a melodia de um chorinho desse tio, pra quem escreveu, aos 15 anos, a primeira letra, que ganhou o nome de ‘Candango Sofredor’ (curiosamente, raramente cita o primo do pai, o pesqueirense Nelson Valença, autor de ‘O Fole Roncou’, e alguns clássicos de Luiz Gonzaga).”

PELA RUA QUE ANDOU

“Eu ia da minha casa, na Rua dos Palmares, até a cidade ouvindo tudo, puta que o pariu, orquestra de frevo. Nelson Ferreira, que morava na mesma rua (cantarola ‘Evocação’), aquelas mulheres cantando, a coisa mais linda do mundo. Frevo de bloco e o frevo de rua. O que foi que o frevo de rua fez pra mim? Fui fazer um show em Chão de Estrelas (bairro do Recife, próximo a Peixinhos, Olinda). Entrei, cantei a primeira música, e aí faltou luz. Fui lá pra traz e fiquei me lembrando dos carnavais, e fiz a música ‘Acende a luz’ (um frevo instrumental).”

SALVO POR DUDA

“Mandei ‘Acende a Luz’ pra Duda (o maestro), porque Duda me salvou. Eu era encabulado com música. No sarau do meu avô Oreste, tinha um pandeiro. Aí eu, pequenino, ficava batendo no pandeiro, tava cagando pro que ele estivesse tocando. Tava ouvindo apenas o pandeiro. Ele gritava, ‘Tira este menino de Décio daqui, que ele não tem compasso não’. Se eu tiver tocando, e pensar em vovô Oreste, perco o ritmo. Depois me disseram que eu tenho compasso.”

NÃO AMAVA BEATLES NEM ROLLING STONES

“Passei por uma época em que tinha a coisa dos Beatles, caguei para os Beatles, não estou dizendo que não seja bom. Beatles e Rolling Stones, nunca tive um disco, não tinha radiola. Não ouvi. Aquela menina de que falei, que disse que era bonita, o pai alugou uma casa em Candeias. Chego lá tá todo mundo, os amigos dela, surfistas. Botaram aquele disco que tinha a vaca (consulta o assessor, o jornalista Julio Moura, para saber de qual banda: Pink Floyd). Eu achei chato pra caralho. Não aguentei aquilo ali. Ele pode gostar, você pode gostar, não gostei.

Salvei Paulinho (Rafael), que foi de uma geração que negava a sua própria cultura, e ouvia Pink Floyd e Yes. Eu disse pra ele: ‘Porra, Paulinho, seja menos ‘Yes’ e mais ‘No’; seja menos Londres e mais Caruaru. Ele era de Caruaru. Fizemos uma amizade tão grande, e ele começou procurar nos HDs da memória, e a fazer a música do Nordeste. Ele não suportava samba, não suportava Luiz Gonzaga. Começou a mergulhar no universo que era dele e virou Paulo Rafael.”

FORRÓ

"As pessoas precisam entender o que é o timbre tradicional e o timbre que você pode mudar. Ariano Suassuna, na hora H ele pegou uma música daqui e colocou os violinos, com orquestra. Ele saiu da tradição, mas continuou dentro da história, embora os instrumentos não tenham nada a ver. Quando botei a guitarra dentro da minha coisa, boto ‘A briga do cachorro com a onça’ em Planetário. No primeiro disco meu não tem banda, não sei nem quem tocou. Chamava uma pessoa e pedia ‘faça isso aqui’. Quando pego, boto guitarra e faço um dueto com a flauta. O primeiro pífano é a guitarra; o segundo pífano, a flauta. Diziam que eu vinha com um negócio novo. Nunca fui tropicalista porra nenhuma, porque não tinha radiola, não tinha lá em casa. Fui para o Rio, lá não tinha radiola."

YEAH YEAH YEAH

"Ouvi os Beatles pela primeira vez com Valdevan do Eu Acho É Pouco. Na casa dele e da mulher, na época namorada, tinha uma radiola. Eu morava, quando casei, perto dele, onde Cadoca também morava. Ia passando pela porta do apartamento dele, e ele estava ouvindo um disco dos Beatles. Quando meu filho Rafael, agora tem 24 anos, foi para uma  escola nova no Rio, já era CD, botaram Beatles, e eu fui ouvir. Quando ouvi, falei pra Yané: se eu tivesse ouvido isso aí, tava lascado, porque é muito bom. Graças a Deus não ouvi."

ATRÁS DE DRUMMOND

No Recife, Alceu foi à casa de Dominguinhos, que tinha uma melodia para letra dele, que resultou em ‘Lava Mágoas’, faixa do álbum Cavalo de Pau (1982). A inspiração veio de um taxista que se lamentava durante o trajeto, e da chuva torrencial que caía. A letra saiu de primeira.

"Achei que poderia ter plagiado alguém. Fui consultar Tarcísio, da Livro 7, pedi pra ele ver poetas que escreveram sobre chuva. Tarcísio deu uma olhada e me disse que procurou. A princípio, não parecia ser plágio. Vou pro Rio e quem eu encontro? Drummond. Ele tem um poema, o ‘Caso Pluvioso’ (“A chuva me irritava/Até que um dia/descobri que a chuva era Maria...”). Fui fechar a capa do disco na Ariola. Aprovada, pedi pra dedicar a Drummond. Volto pra Ipanema, tava com um amigo num bar. De repente, Carlos Drummond passou. Meu amigo disse, ‘Rapaz vai dizer a ele’. Eu falei ‘não, deixa o cara caminhar em paz’. Ele disse, ‘vai’. Eu corri, ele já tinha dobrado uma esquina. Saiu numa carreira tão grande que passei pela esquina. Cem metros à frente e volto. ‘Cadê ele?’ Tava na esquina, na calçada, vendo um cara empalhar uma cadeira. Chego pra ele e digo: ‘Poeta Carlos Drummond’. Ele olha pra mim, tava sentado. ‘Olhe, acabei de compor uma música, botei no meu disco, e dediquei ao senhor’. Ele olhou pra mim e disse: ‘Estou muito velho pra receber homenagens’. Ficou olhando assim, e eu botei o rabo entre as pernas. No outro dia, tô com Waltinho Queiroz, tomando um chopinho num bar na Vinicius de Moraes, no mesmo canto. E lá vem ele. Eu grito: ‘A poesia de Carlos Drummond de Andrade a caminhar pela Vinicius de Moraes’".

JOSÉ TELES, crítico, pesquisador e escritor

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