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Cobertura

A reinvenção do cinema pelas mulheres

Seja na forma de organização ou na escolha dos filmes, segunda edição do Fincar nos ensina sobre outras possibilidades de fazer e mostrar a produção audiovisual

TEXTO Sophia Branco

20 de Agosto de 2018

Mulheres realizadoras do Fincar 2018

Mulheres realizadoras do Fincar 2018

Foto Foto: Beatriz Ataidio/Divulgação

Acompanhar o Festival Internacional de Cinema de Realizadoras (Fincar) entre os dias 14 e 19 deste mês foi um convite para pensar sobre o momento que estamos vivendo no Brasil. Pensei ser essa a melhor forma de começar um texto sobre o evento, porque, em geral, as obras das mulheres tendem a ser entendidas como obras que falam de “especificidades”. Então, um festival como esse é lido como um evento que interessa às mulheres ou a quem quer conhecer e refletir sobre as experiências das mulheres. Se entende que a sua inovação ou a sua grande questão é a visibilização da autoria feminina – algo que, a meu ver, também é urgente e tem uma relevância indiscutível.

Mas eu gostaria de falar sobre outras questões trazidas pelo festival, sem que para isso seja necessário adentrar na discussão “especificidades” versus “universalidade”, a qual sempre precisamos recorrer quando vamos falar da autoria das mulheres. Quanto a esse debate, me limito a falar que toda pretensa universalidade é simplesmente uma especificidade munida do poder – simbólico, material, e muitas vezes bélico – de transformar a experiência de uns como representativa da experiência de todas e todos. Se frequentamos festivais em que a maioria dos longas-metragens são de autoria masculina, estamos também consumindo “especificidades”. Esse olhar universal em relação ao qual o “específico” é contraposto simplesmente não existe.

No Fincar, assisti a filmes que discorriam sobre ocupações urbanas, violência policial, racismo e o extermínio da juventude negra; sobre a cidade e como estamos inseridas nela; sobre desenvolvimentismo, questões indígenas e agroecologia. Filmes que falavam sobre nossos corpos, nossas sexualidades, nossas identidades e nossas lutas. Sobre o sistema prisional, as relações de trabalho e a precaridade da educação no Brasil. Filmes que projetavam na tela problemas que estão colocados nos nossos cotidianos e nos fizeram ver e imaginar transgressões possíveis. Eram documentários, filmes de terror, ficção científica, videoarte, cinema experimental, filmes futuristas, pós-pornôs, animações e talvez outros gêneros que eu não saiba nomear. São filmes que falam sobre uma diversidade de temas a partir de uma diversidade de formas porque nós, mulheres, somos diversas entre nós e temos interesses também diversos.

Mas acredito que não é apenas por causa dessa diversidade que a experiência do Fincar nos ajuda a pensar sobre o Brasil. O que, para mim, foi muito precioso na sua curadoria é que ela trouxe como elemento central a necessidade de pensarmos sobre o encontro entre diferenças. E, com isso, abriu espaço para pensarmos sobre como podemos construir coisas conjuntamente, ou simplesmente conviver sem que essas diferenças sejam invisibilizadas ou massacradas.


Cena do filme Real conquista, de Fabiana Assis. Foto: Beatriz Ataidio/Divulgação

A gente vem atravessando desde 2016, ou antes disso, um momento estranho e, em muitos sentidos, desalentador. O diálogo tem se tornado algo difícil, e as possibilidades de efetivar ações que colaborem com a promoção da diversidade têm encontrado muitas barreiras. “Crise”, “revisão” e “reinvenção” são palavras que andam povoando nossos cotidianos. Tem sido um momento de repensar o que é e o que pode ser “a arte”, o que é e a que pode servir “o cinema”, assim como “a música”, “a literatura”, “a sala de aula”, “a filosofia”, “a sociologia”. Acho que para todas e todos nós que nos dedicamos ao exercício da reflexão crítica, esse tem sido um momento de reelaboração de propósitos, e com a reelaboração dos propósitos vem também a reelaboração dos caminhos.

Ao longo do Fincar, tive o sentimento de estar caminhando entre uma série de debates que vêm sendo colocados na cena audiovisual pernambucana nos últimos anos. São debates que questionam quem faz cinema em Pernambuco, por que e para quem. Quando conversei com Maria Cardozo, uma das idealizadoras do festival, ficaram evidentes as relações entre as transformações que essa cena tem vivido e as transformações que marcam o Fincar da sua primeira edição, em 2016, para esta segunda, em 2018.

Maria me falou sobre como o festival não pode ser entendido de forma isolada na cena do audiovisual pernambucano. Citou episódios como as polêmicas em torno do “que porra é cinema de mulher?”, o Quebrando Vidraças, o caso dos ataques machistas na sessão do filme de Anna Muylaert, a auto-organização das mulheres a partir do Mulheres no Audiovisual PE (Mape), que, por sua vez, acompanha um processo de auto-organização das mulheres no audiovisual em todo país. São episódios que fazem parte de um momento de fortalecimento nacional de discussões ligadas à vida das mulheres, desde a nossa invisibilidade e precariedade profissional a todas as formas de violência que nos atingem.

O Fincar surge nesse contexto como um espaço de afirmação da autoria da mulher no audiovisual. É uma resposta à divisão sexual do trabalho que atravessa também essa cadeia produtiva, onde as mulheres normalmente se encontram em lugares de pouca visibilidade e autonomia criativa. Mas ao se colocar o desafio de repensar a cadeia de hierarquias que atravessa a produção audiovisual, me parece que o festival se propôs ser um espaço de experimentação de possibilidades que pudessem responder a essas questões, radicalizando seu processo de reflexividade.

Na conversa com Maria, pude entender melhor como a preocupação em pensar sobre as nossas diferenças esteve presente também na forma como o festival foi organizado. A equipe de curadoria do Fincar era grande e diversa – mulheres brancas e negras, de diferentes classes sociais, faixas etárias e religiosidades, cis e trans. Foi muito bonito ver essa equipe reunida, e o que ela tinha a dizer, na abertura festival e a cada sessão, apresentada por uma integrante diferente. A programação foi sendo construída em cima de muitos debates. Com essa aposta, o festival buscava refletir uma maior diversidade nas telas do cinema, entendendo que, para isso, é preciso diversificar as sensibilidades a partir das quais se tomam decisões sobre o que será exibido. Ao mesmo tempo, a ampliação da equipe de curadoria pretendeu fazer do festival um espaço de formação, a fim de que mais mulheres possam ocupar lugares de curadoria também em outros festivais. Ao conceber uma equipe ampliada de curadoria, o Fincar tensionou, portanto, alguns lugares de poder que estão postos no mundo das artes, experimentando um formato mais horizontal de construção da sua concepção.

Foi interessante ouvir, nos debates com as realizadoras dos filmes, como a preocupação com a construção de formas mais horizontais de trabalhar em equipe também esteve presente em filmes como Boca de loba, com direção de Bárbara Cabeça; Entre pernas, de Ayla de Oliveira; e Mulheres rurais em movimento, dirigido de forma colaborativa pelas militantes do Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais do Nordeste (MMTR-NE) e Héloïse Prévost.

Existem inúmeras discussões sobre a forma como as mulheres trabalham coletivamente, que às vezes atravessam reflexões sobre “sensibilidades femininas”. Particularmente, e em diálogo com diferentes correntes do pensamento feminista, não acredito numa essência feminina que garanta que as ações das mulheres tenham “tais” ou “tais” características. O que me parece, entretanto, é que quando se organizam coletivamente, a partir de uma perspectiva crítica, as mulheres têm se preocupado em construir ambientes mais cuidadosos, mais generosos, que trazem a necessidade de repensar relações de poder como uma preocupação política de como lidar com a diversidade e com as condições reais das vidas das mulheres. São preocupações ligadas ao fato de as mulheres terem estado historicamente excluídas desses lugares de poder. São formas de trabalhar que também falam do espírito colaborativo necessário quando nos vemos diante da falta de acesso a recursos, que marca a produção audiovisual das mulheres, sobretudo das mulheres negras e periféricas. Não entendo essas experiências como reflexo de uma benevolência ou solidariedade intrínseca às mulheres, mas como o esforço político de pensar a nossa sobrevivência nos espaços, assim como de inventar novas relações de trabalho e afeto.


Mulheres do Fincar em ciranda. Foto: Beatriz Ataidio/Divulgação

***

O desenho de programação do festival também trouxe outra preocupação importante: a necessidade de diversificar o público dos festivais de cinema. Essa não é uma preocupação nova, mas o que é interessante na experiência do Fincar é que ela foi colocada no centro da concepção do Festival. Uma série de iniciativas foram tomadas como forma de investigar possibilidades para alcançar outros públicos e potencializar encontros.

Além dos cinemas das regiões centrais do Recife (São Luiz e Fundaj-Derby), o festival buscou descentralizar sua programação com exibições no Cineteatro Bianor Mendonça Monteiro, em Camaragibe. Foram também realizadas sessões para estudantes da rede pública de ensino. Os ingressos tiveram seus valores reduzidos à meia entrada para todo o público. Através da iniciativa do Sócias Fincar, mulheres que não poderiam arcar com a entrada dos filmes tiveram acesso liberado. Ao inscrever seus filmes no festival, as realizadoras também eram convidadas a disponibilizá-los para uma rede de cineclubes. São iniciativas que já existem em outros festivais, mas a aposta simultânea de muitas ações que pudessem diversificar o público certamente marca uma diferença na concepção do Fincar e nos espaços de troca que ele possibilitou.

São esforços que revelam o amadurecimento de reflexões sobre a democratização da arte e a urgência de construirmos mais espaços de diálogo entre pessoas que pensam diferente, como uma resposta ao autoritarismo que vem sendo aclamado no contexto que estamos vivendo. Não são tarefas simples, não é pequeno o problema que está posto para as artes, a democracia e o respeito à diversidade. E também não é simples o seu enfrentamento.

Os debates após as sessões dos filmes em Camaragibe que pude presenciar demonstraram a importância dessas iniciativas. A sessão do documentário sobre o MMTR-NE no São Luiz foi um dos momentos bonitos dessa possibilidade de diálogo. A sala estava lotada e a diversidade do público era evidente. Algumas mulheres do MMTR-NE que nunca tinham ido ao cinema entraram na sala para ver o próprio filme que realizaram. É uma sessão que vai ficar guardada na minha memória como uma outra possibilidade de ocupar o Cinema São Luiz.

Não cabe aqui dizer o que o cinema deve ser. O cinema, como quase tudo na vida, pode ser muitas coisas. Mas esses últimos dias me fizeram pensar que o cinema também pode ser um lugar de encontro. Ele pode ser um lugar de encontro no qual a gente imagina novas formas de existir e se relacionar a partir do que a gente vê na tela. E pode também ser uma ponte, um lugar de encontro entre as nossas diferenças; pode ser um convite para dialogarmos. Mas esse não é um propósito alcançado facilmente. É preciso que haja empenho para que o diálogo entre as diferenças possa acontecer. Acredito que a experiência do Fincar pode ensinar muito aos outros festivais e a todas e todos nós. O Fincar foi, em muitos níveis, uma abertura para a reelaboração de identidades, dos sentidos do corpo, das nossas verdades, do cinema, de com quem e como queremos dialogar. Acho que a palavra do Fincar é reinvenção.

SOPHIA BRANCO é socióloga, militante do Fórum de Mulheres de Pernambuco e colaboradora da Universidade Livre Feminista.

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