Por que "O agente secreto" merece ganhar o Oscar
Que motivos levariam o filme pernambucano a ser premiado em quatro categorias na 98ª edição da cerimônia da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, que acontece no domingo (15), em Los Angeles
TEXTO Júlio Cavani
12 de Março de 2026
Foto Cinemascópio/Divulgação
Filmes considerados favoritos ao Oscar normalmente são aqueles que mais venceram outras premiações da temporada ou os finalistas com maior número de indicações em diferentes categorias. As especulações sobre favoritismo, portanto, não são baseadas no conteúdo das obras em si, mas em uma análise combinatória entre fatores externos, que incluem também os investimentos dos estúdios e distribuidoras em campanhas, marketing e lobbies, além do conjunto da carreira de alguns concorrentes. No fim das contas, portanto, os vencedores nem sempre serão necessariamente os melhores do ano. Em um mundo perfeito, os curtas, longas-metragens e profissionais deveriam ser avaliados apenas por sua contribuição artística. Mesmo que não vá coincidir com o resultado final, uma análise honesta sobre os prêmios pode seguir esse caminho ideal. Nesse sentido, se especulações e apostas não forem o critério principal, o Brasil merece ganhar cinco Oscars em 2026.
O agente secreto pode ser o vencedor do Oscar nas quatro categorias em que concorre? A resposta é sim, até porque não faria sentido anunciar finalistas se o resultado já estivesse definido. Não há cartas marcadas. Além disso, quem assistir ao filme pernambucano pode confirmar que ele tem qualidades à altura de seus concorrentes. A indicação na categoria principal, de Melhor Filme, não ocorreu à toa. O diretor Kleber Mendonça Filho e o ator Wagner Moura, afinal, foram premiados no último festival de Cannes e no Globo de Ouro, o que já os eleva a um patamar máximo na comparação com os demais competidores. O Brasil pode ainda conquistar um quinto Oscar este ano pelo trabalho do brasileiro Adolpho Veloso no filme norte-americano Sonhos de trem, indicado a Melhor Direção de Fotografia.
O agente secreto e Uma batalha após a outra têm em comum cenas com personagens politicamente perseguidos que se disfarçam com codinomes e usam telefones públicos para não serem localizados, apesar de se passarem em épocas e lugares distantes entre si. Se todo cinema é político, o conjunto de indicados a Melhor Filme transmite as inquietações do mundo atual (mesmo nas histórias ambientadas no passado) a partir do ponto de vista dos artistas e da indústria cinematográfica. Os finalistas abordam temas atuais urgentes, como a perseguição contra imigrantes, o racismo, questões de paternidade (em oito finalistas), o autoritarismo que persegue opositores, o poder transformador da arte, as teorias conspiratórias e até mesmo o terraplanismo (em Bugonia).
INDICADOS AO OSCAR EM 2026
MELHOR FILME
Bugonia
Fórmula 1: O filme
Frankenstein
Hamnet: A vida antes de Hamlet
Marty Supreme
O agente secreto
Pecadores
Sonhos de trem
Uma batalha após a outra
Valor sentimental
O agente secreto deveria ganhar o Oscar de Melhor Filme. Quem afirma isso não são apenas os brasileiros que naturalmente sempre torcerão pelo Brasil em competições internacionais, mas críticos de veículos de imprensa como The Guardian (Inglaterra), IndieWire, Variety e New Yorker (os três dos Estados Unidos). Se esses reconhecidos especialistas acreditam nessa hipótese, então ela não é totalmente absurda ou impensável. Quando havia apenas cinco indicados (até 2009), o normal era apenas serem finalistas filmes britânicos ou norte-americanos dirigidos por cineastas brancos. Com o aumento para 10 vagas, produções com outros perfis culturais, raciais e de gênero passaram a concorrer (alguns venceram). O agente secreto e Ainda estou aqui surgem nesse novo momento, reforçado pelas mudanças no perfil dos votantes da Academia, atualmente mais diverso, apesar de homens brancos ainda corresponderem a mais de 50% dos aptos a votar. Em 2026, pela lógica do favoritismo, Pecadores e Uma batalha após a outra têm mais chances. O primeiro por bater um recorde ao receber 16 indicações (entre outros marcos históricos culturais) e o segundo pelas premiações anteriores da temporada.
MELHOR ATOR
Ethan Hawke (Blue moon)
Leonardo DiCaprio (Uma batalha após a outra)
Michael B Jordan (Pecadores)
Timothée Chalamet (Marty Supreme)
Wagner Moura (O agente secreto)
Wagner Moura venceu o Globo de Ouro de Melhor Ator em Filmes de Drama em 2026. Isso é suficiente para demonstrar que o baiano não só tem o molho, como tem chances no Oscar. Nos últimos dez anos, houve coincidência entre os dois prêmios oito vezes. O maior concorrente é Michael B Jordan, que assim como Wagner, interpreta dois personagens em Pecadores e também ganhou um dos prêmios que mais coincidem com o resultado do Oscar, o Actor Awards. Timothée Chalamet também conquistou premiações que são consideradas prévias, mas sua falta de humildade em discursos e entrevistas deve prejudicá-lo. Essa disputa entre os dois norte-americanos, inclusive, pode favorecer Wagner Moura, pois os votos como um todo ficarão mais divididos e o brasileiro é o único dos cinco concorrentes já premiado em Cannes.
MELHOR FILME INTERNACIONAL
A voz de Hind Rajab (Tunísia/ Palestina)
Foi apenas um acidente (França/ Irã)
O agente secreto (Brasil)
Sirât (Espanha)
Valor sentimental (Noruega)
Quando um indicado concorre ao mesmo tempo nas categorias de Melhor Filme e Melhor Filme Internacional, as chances de vencer na segunda crescem bastante. Essa é a situação em que se encontra O agente secreto em 2026. Entretanto, há um empecilho, que é a presença de Valor sentimental também nas duas. A produção norueguesa, além disso, é finalista em 9 categorias no total. O Brasil venceu a Noruega no Globo de Ouro, mas perdeu no Bafta (equivalente britânico ao Oscar). No total de premiações internacionais, o pernambucano tem 85 troféus (segundo o Internet Movie Database), enquanto o concorrente chegou a 67. A disputa está equilibrada e demonstra que não é uma questão de qualidade, pois ambos estão muitíssimo bem avaliados. O diferencial, portanto, estará em escolhas pessoais dos votantes. O fato é que O agente secreto tem muito mais calor humano, ritmo mais ágil, tiroteio, suingue, sensualidade, colorido tropical, originalidade, humor, horror, assombrações, elenco carismático, música vibrante, sensorialidade e imprevisibilidade, até mesmo com algumas referências diretas a Hollywood. Tem tudo para conquistar aqueles que procuram algum tipo de exotismo cultural na categoria "internacional", além de possuir também muitas camadas psicanalíticas em questões de família, que estão entre os principais pontos de relevância de Valor sentimental. Nas últimas semanas anteriores ao Oscar, os brasileiros repercutiram mais e geraram um clima mais acalorado, em parte pelo filme ter sido lançado nos EUA e na Inglaterra com menos antecedência e pelas movimentações de Wagner e Kleber nas ações de campanha, além de toda a torcida espontânea demonstrada pelos foliões no Carnaval.
MELHOR ELENCO
Cassandra Kulukundis (Uma batalha após a outra)
Francine Maisler (Pecadores)
Gabriel Domingues (O Agente Secreto)
Jennifer Venditti (Marty Supreme)
Nina Gold (Hamnet: A vida antes de Hamlet)
Um Oscar para o Melhor Casting será entregue pela primeira vez este ano. Como essa categoria não existia antes, é a mais imprevisível de 2026. O agente secreto é representado por Gabriel Domingues, principal responsável pela escolha do elenco do filme. Ele merece ganhar o Oscar porque, entre os concorrentes, nenhum outro tem tanta diversidade étnica, tanta espontaneidade, tantos rostos antes desconhecidos ou tantos atores e atrizes cheios de carisma natural. É possível afirmar que essa escalação de artistas é uma das maiores qualidades do longa-metragem. Além de revelar novos talentos (diferencial de outro trabalhos anteriores dele, como a série Cangaço novo), Domingues também soube reunir brasileiros que já começaram a ficar conhecidos em obras de sucesso internacional. Wagner Moura é um nome estabelecido em Hollywood, Gabriel Leone protagonizou a minissérie Senna na Netflix, Udo Kier é um artista cult já consagrado mundialmente e Maria Fernanda Cândido participou de produções estrangeiras como a franquia Animais fantásticos e o italiano O traidor (selecionado para Cannes em 2019). O principal concorrente dos brasileiros é Pecadores, principalmente por causa do conjunto da obra de Francine Maisler, responsável pelo casting de grandes vencedores de Melhor Atriz e Melhor Ator. Ela participou, por exemplo, de Elysium (primeiro papel de destaque de Wagner Moura em Hollywood), O regresso (único Oscar de Leonardo DiCaprio) e Milk (segundo Oscar de Sean Penn), entre outras escalações premiadas, com estrelas como Lupita Nyong'o, Benicio Del Toro, Tom Hanks e Emma Stone.
MELHOR CINEMATOGRAFIA (DIREÇÃO DE FOTOGRAFIA)
Adolpho Veloso (Sonhos de trem)
Dan Laustsen (Frankestein)
Darius Khondji (Marty Supreme)
Michael Bauman (Uma batalha após a outra)
Autumn Durald (Pecadores)
Depois de trabalhar com o diretor Clint Bentley no filme Jockey (2021), o brasileiro Adolpho Veloso foi convidado novamente para colaborar com o cineasta em Sonhos de trem, que recebeu 4 indicações ao Oscar. Na categoria de Melhor Fotografia, é um dos favoritos porque consegue alcançar resultados tão bons e bonitos quanto seus concorrentes, mas com bem menos equipamentos e recursos financeiros. Ele consegue obter deslumbrantes efeitos plásticos, óticos e poéticos a partir da criatividade no aproveitamento da luz natural e com simplicidade no uso da técnica. Comprova que o talento de um bom fotógrafo está mais no olhar sensível do que nas traquitanas mirabolantes. Autumn Durald também tem chances de ganhar pelo trabalho dela em Pecadores, que combina sensibilidade nas luzes e cores com cenas de impacto filmadas em grande formato. Com Uma batalha após a outra, Michael Bauman impressiona pela complexidade dos movimentos de câmera e enquadramentos, sobretudo nas perseguições em estradas.
MELHOR DIREÇÃO
Chloé Zhao (Hamnet)
Josh Safdie (Marty Supreme)
Paul Thomas Anderson (Uma batalha após a outra)
Joachim Trier (Valor sentimental)
Ryan Coogler (Pecadores)
Paul Thomas Anderson já poderia ter vencido o Oscar com filmes como Boogie nights, Magnólia e Sangue negro, mas nunca ganhou uma estatueta de Melhor Direção. Uma batalha após a outra é a oportunidade perfeita para o cineasta, que aborda temas políticos atuais com ironia em um encadeamento narrativo ágil e complexo, além de ótima condução dramática do elenco. Ryan Coogler também merece o prêmio, sobretudo pela cena musical que é o ápice de Pecadores e pela essência político-autoral do filme como um todo, que aborda questões como ancestralidade, apropriação cultural e antirracismo, inseridas nas camadas de uma obra de entretenimento cheia de ação, sensualidade, crítica social e elementos de cinema de gênero pensados para as grandes massas.
MELHOR ATRIZ
Jessie Buckley (Hamnet)
Rose Byrne (Se eu tivesse pernas, eu te chutaria)
Kate Hudson (Song song blue: Um sonho a dois)
Renate Reinsve (Valor sentimental)
Emma Stone (Bugonia)
Jessie Buckley deve vencer porque Hamnet tem algumas das cenas de lágrimas mais devastadoras dos últimos anos. Todas as concorrentes possuem performances excelentes, mas ela é mais marcante pela intensidade emocional principalmente nos momentos de dor, com uma personagem que também demonstra muita força na criação dos filhos, no enfrentamento do conservadorismo moral e na relação com a natureza.
MELHOR LONGA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
Guerreiras do K-Pop
Zootopia 2
Elio
Arco
A pequena Amélie
Guerreiras do K-Pop é o favorito para ganhar o Oscar porque se tornou um fenômeno cultural e comportamental. É a produção de mais sucesso já lançada pela Netflix, com audiência maior do que qualquer outro filme ou série da plataforma. A música Golden, que também deve vencer na categoria de Melhor Canção Original, é um hit que toca em festas infantis e pistas de dança ao redor do mundo. O longa-metragem francês Arco, dirigido pelo desenhista Ugo Bienvenu, pode ser melhor como obra de autor, mas não tem esse status de ícone pop que viraliza e transcende o cinema. Curiosamente, animadores mais consagrados, como a francesa Florence Mialhe e a dupla canadense Chris Lavis e Maciek Szczerbowsk, concorrem este ano na categoria de Melhor Curta de Animação, respectivamente com Papillon e The girl who cried pearls.
OUTRAS CATEGORIAS
MELHOR ATOR COADJUVANTE
Benício Del Toro (Uma batalha após a outra)
Jacob Elordi (Frankenstein)
Sean Penn (Uma batalha após a outra)
Delroy Lindo (Pecadores)
Stellan Skarsgård (Valor sentimental)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Elle Fanning (Valor sentimental)
Inga Ibsdotter Lilleaas (Valor sentimental)
Teyana Taylor (Uma batalha após a outra)
Wunmi Mosaku (Pecadores)
Amy Madigan (A hora do mal)
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Blue Moon
Foi apenas um acidente
Marty Supreme
Valor sentimental
Pecadores
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Bugonia
Frankenstein
Hamnet
Uma batalha após a outra
Sonhos de trem
MELHOR FIGURINO
Avatar: Fogo e cinzas
Frankenstein
Hamnet
Marty Supreme
Pecadores
MELHOR EDIÇÃO
F1: O filme
Marty Supreme
Uma batalha após a outra
Valor sentimental
Pecadores
MELHOR SOM
F1: O Filme
Pecadores
Sirat
Frankenstein
Uma batalha após a outra
MELHOR DESENHO DE PRODUÇÃO (DIREÇÃO DE ARTE)
Frankenstein
Hamnet
Marty Supreme
Uma batalha após a outra
Pecadores
MELHORES EFEITOS VISUAIS
Avatar: Fogo e cinzas
F1: O filme
Jurassic World: Recomeço
Pecadores
O ônibus perdido
MELHOR MAQUIAGEM E PENTEADO
Frankenstein
Kokuho
Pecadores
Coração de lutador: The smashing machine
A meia-irmã feia
MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
Papillon
Forevergreen
The girl who cried pearls
Retirement plan
The three sisters
MELHOR LONGA-METRAGEM DOCUMENTÁRIO
Alabama: Presos do Sistema
Embaixo da luz de neon
Rompendo rochas
Mr. Nobody Against Putin
A vizinha perfeita
MELHOR CURTA-METRAGEM DOCUMENTÁRIO
All the empty rooms
Armed with a only a Camera: The life and death of Brent Renaud
Children no more: "Were and are gone"
The devil is busy
Perfecly a strangeness
MELHOR CURTA-METRAGEM DE FICÇÃO
Butcher's stain
A friend of Dorothy
Jane Austen's period drama
Os cantores
Two people exchanging saliva
MELHOR TRILHA SONORA
Bugonia
Frankenstein
Hamnet
Pecadores
Uma batalha após a outra
MELHOR CANÇÃO
Dear me (Diane Warren: Relentless)
Golden (Guerreiras do K-Pop)
I lied to you (Pecadores)
Sweet dreams of joy (Viva Verdi)
Train dreams (Sonhos de Trem)
JULIO CAVANI, jornalista, crítico de cinema, curador do festival Animage e diretor do curta-metragem História natural