Cinema

Carla Camurati mergulha no Sagrado Feminino

Documentário em longa-metragem mostra como as cinco maiores religiões - cristianismo, hinduísmo, islamismo, judaísmo e budismo - escreveram uma história que limitou papel feminino nas sociedades


TEXTO Danielle Romani

01 de Junho de 2026

Carla Camurati teve como inspiração para realização do trabalho, o livro a Bíblia das Mulheres, da feminista Elisabeth Stanton

Carla Camurati teve como inspiração para realização do trabalho, o livro a Bíblia das Mulheres, da feminista Elisabeth Stanton

fotografia Copacabana Filmes Produtora

Há filmes que chegam ao público como simples narrativas. Outros, porém, parecem surgir de um movimento mais profundo, quase como um convite ao mergulho interior. É nesse território delicado entre memória, espiritualidade e experiência feminina que se encontra Sagrado Feminino, novo documentário em formato longa metragem dirigido por Carla Camurati. Conhecida por uma trajetória marcada pela inquietação artística e pela capacidade de transitar entre cinema, teatro e literatura, a diretora volta seu olhar para questões que atravessam o corpo, o tempo e o imaginário das mulheres. O filme foi lançado em 31 de março nos cinemas. Em breve estará disponível na plataforma de streaming Aquarius.

No filme, ela analisa como o patriarcado concebeu as religiões, excluindo ou execrando o feminino nos seus versículos, sentenças, mitos e práticas diárias. Sem recorrer a fórmulas fáceis, o filme propõe uma investigação sensível sobre símbolos ancestrais, afetos e heranças culturais que ainda ecoam no presente. Com a participação da historiadora Mary del Priore, do rabino Nilton Bonder e da budista Monja Coen, entre muitos outros especialistas e espiritualistas, Carla Camurati disseca as cinco maiores religiões planetárias: cristianismo, budismo, islamismo, judaismo e hinduísmo. 

No percurso,  mostra que as escrituras dessas religiões foram historicamente escritas, interpretadas e institucionalizadas por homens, influenciando a posição social e cultural das mulheres até os dias atuais. A forma mais sutil e bem elaborada do patriarcado se apropriar da vida e do corpo feminino durante os últimos milênios. 

Obra da artista plástica Berna Reali, usada no filme,  mostra a violência contra o corpo feminino

Utilizando-se de uma linguagem que alterna entrevistas, imagens dos rituais e  depoimentos pontuais dos religiosos, praticantes e especialistas, o filme tem um ritmo delicado, ritualístico, mas impactante. Nele, o feminino aparece não como conceito abstrato, mas como força viva, contraditória, política e poética. O longa mistura delicadeza e intensidade para tocar em temas como identidade, liberdade, espiritualidade e pertencimento.

Ao longo de sua carreira, Carla Camurati sempre demonstrou interesse por personagens e universos movidos pela complexidade humana. Em Sagrado Feminino, essa busca ganha contornos ainda mais íntimos e contemporâneos, dialogando diretamente com debates urgentes sobre o lugar da mulher na sociedade e na arte.

Mais do que um filme sobre o feminino, a obra parece interessada em provocar perguntas: o que herdamos das mulheres que vieram antes de nós? Quais silêncios ainda permanecem? E de que maneira arte e espiritualidade podem se tornar instrumentos de transformação?

Nesta entrevista à Continente, Carla Camurati fala sobre o processo de criação do longa, as referências simbólicas presentes na narrativa e o desejo de construir um cinema capaz de despertar reflexão sem perder a dimensão sensível. A cineasta revela as camadas de um projeto que dialoga tanto com o íntimo quanto com o coletivo. Acompanhe.

CONTINENTE Em que momento você percebeu que a relação entre religião e patriarcado merecia um documentário?
CARLA CAMURATI Acho que a primeira coisa que acendeu dentro de mim foi quando eu estava lendo uma matéria e descobri um livro chamado A Bíblia das Mulheres, de uma feminista, Elisabeth Stanton, que tinha feito um trabalho maravilhoso, que foi separar da Bíblia todos os trechos que falavam de mulheres, e aí ela construiu A Bíblia das Mulheres.Esse raciocínio ficou dormindo dentro de mim durante algum tempo, mas eu realmente consegui fechar isso quando em 2017 eu saí dos Jogos Olímpicos, acabaram os Jogos Olímpicos e Paralímpicos, eu era diretora de conteúdo cultural.E aí que eu voltei para o mundo e eu comecei a ver a quantidade de feminicídios que estavam acontecendo. E eu falava com as pessoas e as pessoas achavam que isso era normal e que agora a gente estava vendo por causa da internet.E eu, como já tinha esse sentimento com relação ao livro, à Bíblia das Mulheres, resolvi estudar. toda vez que eu não entendo alguma coisa eu resolvo estudar isso pra entender e foi isso que eu fiz e aí comecei a estudar.

CONTINENTE O que mais a inquietava pessoalmente antes de começar essa investigação?
CARLA CAMURATI O que mais me inquietava era esse aumento dessa violência, era esse contraditório entre a mulher ir ganhando espaço e ir se estabelecendo, e a partir do momento que a mulher começa a ganhar mais espaço, começa a participar do mundo e das decisões, minimamente, porque o que a gente tem ainda de participação é quase nada, a gente começa a sofrer agressões enormes desde violência física até feminicídios. Então, isso era o que mais me chamava atenção, essa coisa contraditória entre um momento tão especial para as mulheres...e esse momento especial para as mulheres causar tanta insegurança nos homens e, de alguma maneira, uma competitividade tão desnecessária.

CONTINENTE Durante a pesquisa, qual tradição religiosa mais a surpreendeu em relação ao papel da mulher?
CARLA CAMURATI Quando você vai estudar, de alguma maneira você aprofunda o seu conhecimento sobre algum assunto, algum conteúdo, você sempre se surpreende. Todas as religiões me surpreenderam, sabe? O hinduísmo, o budismo. Não teve uma que eu, em algum momento, falei, nossa, não acredito. Porque é isso, a gente às vezes tem um conhecimento muito raso e quando você vai estudar você vai vendo as dimensões que cada religião dá para cada assunto, então, aí sim você consegue ter uma visão mais próxima. E todas, sabe, de alguma maneira me surpreenderam.

CONTINENTE Você acredita que o patriarcado deformou as religiões ou que ele já estava presente em suas origens?
CARLA CAMURATI Eu entendo que o patriarcado, de alguma maneira, foi um elemento crucial na formação das religiões, entendeu? Todas. Porque no momento em que elas foram criadas, as mulheres eram proibidas de ler e de escrever, e elas não participavam de nada. Eu não acho que o patriarcado deformou as religiões. Eu acho que o patriarcado, ao administrar as religiões, a formação das religiões, tudo, porque, na realidade, as mulheres não estavam presentes em nenhuma das religiões,  exatamente no momento que elas estavam sendo criadas, criou suas regras. Você tem até imagens que são colocadas ali, mas você não tem a participação direta das mulheres. Eu acho que foi isso.

CONTINENTE O filme sugere que controlar o corpo feminino foi também uma forma de controlar o sagrado. Essa ideia surgiu cedo no roteiro?
CARLA CAMURATI Isso foi uma coisa que aparecia no estudo acadêmico, mas que, na realidade, surgiu durante as entrevistas com vários entrevistados. Isso não foi uma coisa que aconteceu na pré-entrevista, isso fazia parte do estudo como um todo, e dentro da entrevista para a filmagem, alguns entrevistados tocaram nesse assunto. 

CONTINENTE Você acredita que o “sagrado feminino” foi reprimido historicamente ou apenas reinterpretado sob uma ótica masculina?
CARLA CAMURATI Eu acho que o feminino, sim, foi reprimido, foi esvaziado, foi calado, foi silenciado. Mas o feminino, de uma maneira geral, entendeu?  

CONTINENTE Como você pensou a linguagem visual do filme?
CARLA CAMURATI O documentário possui uma estética contemplativa, quase ritualística.É uma linguagem que eu já tinha experimentado um pouco no Oito Presidentes, um juramento, que é uma maneira de contar uma história com imagens e através dos fatos, no caso do “Raízes”, dos fatos históricos, religiosos, no caso do Oito Presidentes, com imagens da política. Em vez de ser uma coisa de conversa e de interpretação ou visão, opinião das pessoas, eu, na realidade, faço uma mistura de imagens dos fatos políticos ou históricos. É uma linguagem que é exatamente você ir unindo tudo sobre aquele assunto, para que você possa ter fluidez ao estar falando sobre aquele conteúdo.

CONTINENTE Você queria provocar desconforto ou reflexão?
CARLA CAMURATI Não, não quis causar em momento nenhum desconforto, em momento nenhum. Ao contrário, eu quis causar reflexão e procurei tirar, não informações, mas tirar do filme uma narrativa bélica ou crítica, e deixar, sim, uma narrativa propícia à reflexão, ao pensamento, independente da sua corrente religiosa.

CONTINENTE Qual entrevista mais a impactou emocionalmente?
CARLA CAMURATI Eu fiz muitas entrevistas, nem todas estão registradas, nem todas as pessoas e nem todas as entrevistas estão no filme. Era isso que eu estava contando, que o filme, o primeiro corte tinha praticamente três horas. Então, é difícil, porque, na realidade, tiveram tantas coisas, tantas dimensões diferentes nas entrevistas, no sentido de que, na seleção de falas e de entrevistados, a gente teve camadas que não estão necessariamente no filme. Então eu não sei dizer o que impactou mais,  eu gostei de fazer todas as entrevistas

CONTINENTE Durante a pesquisa, você encontrou resistência de lideranças religiosas masculinas?
CARLA CAMURATI Não, eu não encontrei resistência em momento nenhum, com nenhuma liderança religiosa masculina de nenhuma das cinco religiões. E, aliás, eu mandei o filme para os entrevistados e todos gostaram muito. Assim, se sentiram confortáveis no filme e felizes com o resultado. 

CONTINENTE O que ficou de fora do documentário e você gostaria de aprofundar futuramente?
CARLA CAMURATI Eu acho que poderia ser interessante um dia pensar em fazer uma série de cada uma das religiões, poderia ser muito interessante, com esse recorte, sabe? Como é que essas religiões veem as mulheres dentro delas. Isso daria uma série bem interessante no campo das religiões.

CONTINENTE Você acha que o patriarcado religioso ainda influencia mulheres que se consideram modernas e livres?
CARLA CAMURATI Eu acho que o patriarcado religioso influencia a todos nós, a todos, a toda a sociedade. E acho que enquanto as religiões não entrarem nessa relação do feminicídio, né, quer dizer, colocando que é importante que exista esse cuidado do homem com relação à mulher, à não violência, as coisas continuarão difíceis. As religiões precisam entrar nesse campo. A hora que elas entrarem, talvez a gente mude um pouco essa história.

CONTINENTE Uma coisa que me surpreendeu: paralelo ao crescimento de movimentos feministas, vemos esse crescente do conservadorismo religioso no mundo atual. Você acha que é uma reação à luta das mulheres?
CARLA CAMURATI Eu acho que esse é um movimento político que, adentrando dentro das religiões, tentando acender um fundamentalismo religioso, entendeu?Na realidade, eu acho que é um movimento... É quando a política entra dentro das religiões, porque você vê esse mesmo movimento de reação ao feminino dentro da política, dentro de alguns partidos, inclusive com mulheres advogando a favor. No outro dia, eu vi uma mulher na internet dizendo, - coitada, fiquei até penalizada - , porque era uma mulher bonita, parecia até ser inteligente, mas, quando abria a boca, falava tanta bobagem, assim, no sentido ela mal entendia o que era o feminismo, ela nunca tinha lido nada, então ela se expôs de uma maneira tão vergonhosa, sabe enfim... mas é isso que eu acho: isso é um movimento político porque a gente tem as religiões misturadas à política desde sempre, né? A gente vê isso claramente no filme. Não sou eu que estou falando, são os fatos históricos.

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