Série aborda a influência de João Cabral em outras artes
Com apresentação de Lirinha, direção de Adelina Pontual e Hilton Lacerda, "Palavras impossíveis de poema" tem sete episódios que vão ao ar nas terças-feiras, às 20h, no Canal Brasil
TEXTO Julio Cavani
21 de Outubro de 2026
Foto Divulgação
João Cabral de Melo Neto consagrou-se pela literatura, principalmente pela poesia escrita, impressa em páginas de papel. Sua obra, porém, por meio de releituras, interpretações e adaptações, alcançou outras plataformas e linguagens artísticas, como a dança, o teatro, a música, o design, o recital, as artes plásticas e o cinema. Essa possibilidade de hibridismo entre as artes estimulada pelos livros do escritor pernambucano é o fio condutor da série Palavras impossíveis de poema, com sete episódios que vão ao ar a partir desta terça às 20h no Canal Brasil.
Costurada por depoimentos de artistas e pesquisadores intercalados por uma extensa pesquisa de imagens, a série não é apenas documental, pois também se propõe ao exercício de criação. O cantor Lirinha (vocalista do grupo Cordel do Fogo Encantado) participa dos episódios como entrevistador, comentarista e também como intérprete dos poemas. Suas declamações são acompanhadas por alegorias visuais e fundos musicais criados por colaboradores como o pianista Vitor Araújo e o tecladista Chiquinho Moreira (da banda Mombojó). Essas cenas são como obras à parte, que recriam Cabral experimentalmente, com a participação também de músicos como Arnaldo Antunes (voz), Agda (voz), Clóvis Pereira Filho (violino), Henrique Albino (flauta baixo) e Mestre Lucio Henrique (sax).
“A arte tem que ter leituras infinitas”, defende Inez Cabral, filha de João Cabral de Melo Neto, em entrevista cedida a Lirinha na série. Para ela, “uma obra de arte tem muitas interpretações. Cada pessoa que lê, ou que vê, tem uma. Se você pegar um poema e todo mundo ver a mesma coisa que você viu, esse poema é uma porcaria”.
Em depoimento para a reportagem da Continente, Lirinha afirma que “o maior desafio foi interpretar João Cabral, processo dos mais difíceis da minha vida”. Na gravação dos episódios, ele recitou 20 poemas. “Eu venho de uma escola quase antagônica de como João entendia a poesia dele. Eu sou daquela declamação catártica, onde se poetiza o poema. Eu gosto disso mesmo, que a gente esteja próximo do impossível, do risco. Isso é o que possibilita a criação do que chamamos de novo”, avalia o cantor, que traz consigo, apesar das diferenças, um estilo de declamação essencialmente verbal e vocal, herdado do Sertão, universo presente na obra do escritor em obras como Morte e Vida Severina.
É praticamente uma videoarte a interpretação de Lirinha para a poesia Pequena ode mineral (no terceiro episódio), sobre trilha sonora de Chiquinho e imagens que mostram ruínas e casas abandonadas com paredes devastadas e frestas. Ainda no audiovisual, a série resgata que Morte e Vida Severina foi adaptada para o cinema por Zelito Viana, para a televisão por Walter Avancini e para a animação por Afonso Serpa. Não mencionadas nos episódios, Cão Sem Plumas ganhou também premiadas releituras dirigidas pelas cineastas Camila Valença (2026) e Kátia Mesel (em 1997, com o título Recife de dentro pra fora e músicas cantadas por Zé Ramalho, Elba Ramalho e Geraldo Azevedo).
Palavras impossíveis de poema inclusive relembra que Morte e Vida Severina é um auto de Natal originalmente escrito para o teatro a pedido de Maria Clara Machado, com sua primeira montagem dramática encenada por Benedito Nunes e Maria Sylvia Nunes em 1958. A peça chegou a ser apresentada simultaneamente em mais de 20 cidades. Na versão do Tuca (Teatro da Universidade Católica de São Paulo), ganhou músicas de Chico Buarque, que João Cabral aprovou depois de bastante resistência e preconceito, como relembra a filha Inez na série. Ele não acreditava que o estilo melódico do cantor fosse combinar com os versos.
A série resgata e confronta a polêmica sobre a falta de interesse de João Cabral pela arte da música. Nas entrevistas com Vitor Araújo e Egberto Gismonti, descobre-se que o poeta abria exceções para composições serialistas e dodecafonistas. Ele gostava ainda de frevo e flamenco, mas talvez mais pelas danças do que pelas composições sonoras. Isso é ilustrado em cenas protagonizadas pelo passista Edson Vogue e pela bailadora Vera Alejandra.
A aproximação com o flamenco surgiu especificamente no período em que João Cabral trabalhou como diplomata em Sevilha, na Espanha. Nessa época, conviveu bastante com o pintor espanhol Joan Miró, que mencionou em dois poemas e a quem dedicou um ensaio teórico. Como resgata o artista Paulo Bruscky no sexto episódio, o poeta iniciou uma aproximação mais forte com as artes visuais por meio da amizade com o pintor pernambucano Vicente do Rego Monteiro.
No século 21, novas adaptações, cada vez mais experimentais e desconstrutivas, voltaram a surgir em trabalhos da coreógrafa Deborah Colker (Cão sem plumas), do artista plástico Jonathas de Andrade (ABC da cana) e do coletivo teatral Magiluth (Estudo nº1: Morte e Vida), assim como do curador Moacir dos Anjos em exposições coletivas. “Interessa menos a nós a confirmação da reverência da obra e sim sua expansão, sua transformação; a construção de outros públicos”, observa o cineasta Hilton Lacerda, que dirige a série junto com Adelina Pontual.
Sobre a atualidade da obra do escritor, Lacerda considera que “Cabral consegue um feito incrível, que é unir dois universos que pareciam não dialogar de maneira alguma: a representação formal e o discurso social. Na linguagem que ele molda, ao confrontar os dois universos, ele remodela a maneira de observar os objetos de sua poesia. Suas construções se articulam no conflito das imagens propostas, o jogo da linguagem não se esgota. Hoje, ou desde lá, estamos nesse círculo de compreensão sobre a colocação da forma, a elaboração do conteúdo e seu cunho social.”
Para Adelina, “as temáticas que João Cabral aborda em seus poemas são, de certa forma, atemporais, falam de contradições e feridas sociais que permanecem em nosso tempo. Até mesmo a questão ecológica, quando fala do Rio Capibaribe ou dos canaviais e usinas da Zona da Mata pernambucana, que tudo devoram.”
“João Cabral era um homem do mundo. Ele soube trazer essas vivências para sua obra, mas sem nunca perder de vista o Brasil e Pernambuco. O rigor estético na construção dos seus poemas reverbera até os dias de hoje e a gente pode perceber nos depoimentos dos artistas e pesquisadores entrevistados nos episódios”, constata Adelina. Segundo ela, o projeto foi inicialmente proposto por Chica Mendonça, sua sócia na produtora Chá Cinematográfico. Palavras impossíveis de poema foi incentivado pela Lei Paulo Gustavo.
No Canal Brasil, os episódios são exibidos sempre nas terças às 20h, com reprises nas quartas às 18h e nas sextas às 14h. A programação da emissora também é transmitida ao vivo por streaming na Globoplay Premium.
FICHA TÉCNICA
Argumento: Chica Mendonça, Hilton Lacerda e Patrícia Cornils
Roteiros: Hilton Lacerda, Adelina Pontual, Natara Ney e Çarungaua
Pesquisa Literária: Patrícia Cornils
Apresentação: José Paes de Lira - Lirinha
Fotografia: Breno Cesar, Carlinhos Albuquerque
Som direto: Guga Rocha, Michel Benito, Priscila Alves e Pedro Moreira
Edição e Mixagem de Som: Nicolau Domingues
Montagem: Natara Ney e Çarungaua
Pesquisa de Imagem: Cláudia Lima e Paula Gago
Finalização: Çarungaua
Trilha sonora: Chiquinho Moreira
Figurino: Udison Cunha
Arte Gráfica: Miguel Sanches e Rico Lins
Direção de Produção e Produção Executiva: Chica Mendonça
Direção: Hilton Lacerda e Adelina Pontual
Produção: Chá Cinematográfico Ltda.
SERVIÇO
João Cabral: Palavras Impossíveis de Poema
Direção: Adelina Pontual e Hilton Lacerda
Apresentação: Lirinha
Horário: Terça, dia 20/10, às 20h00 (exibição semanal)
Alternativos: Quartas, às 18h30, sextas, às 14h
Exibição semanal: às terças-feiras
Horários alternativos: quartas-feiras, às 18h30, e sextas-feiras, às 14h
Onde assistir: Canal Brasil, disponível nas operadoras de TV por assinatura e no Globoplay Premium
Classificação indicativa: 12 anos
JULIO CAVANI, jornalista, curador do festival Animage, autor do livro Polinização e diretor do curta História Natural