Artes Visuais

Galeria Base abre a exposição Ogunhê, de Luiz Martins

Depois de temporada em São Paulo, mostra do artista mineiro chega ao Recife, a partir do dia 23 de setembro, marcando sua primeira individual na cidade

17 de Setembro de 2026

Foto Victor Galvão/Divulgação

A Galeria Base Recife recebe, a partir do dia 23 de setembro, a exposição Ogunhê, de Luiz Martins — sua primeira individual na cidade. Desde a abertura da unidade na capital pernambucana, obras do artista já passaram pelo espaço, mas nunca reunidas em uma mostra própria. Ogunhê foi apresentada em São Paulo, entre março e abril deste ano. 

O título da mostra evoca Ogum, orixá do ferro, dos caminhos e da forja — divindade que reúne, num mesmo corpo, o corte e o cuidado, a técnica e a natureza, a rua e a casa. “O sincretismo religioso aparece através do conceito e da expografia, é uma referência direta ao orixá Ogum. Eu fiz uma leitura filosófica e visual deste orixá, apresentado através da matéria utilizada nas obras: ferro, madeira, terra. Acho que aí aparece essa relação do orixá Ogum com as questões artísticas. O nome Ogunhê vem de uma saudação a esse orixá que fazemos dentro da Umbanda”, explica Martins. 

Na tradição iorubá, Ogum é senhor dos caminhos e das novas oportunidades: abre trilhas, guia travessias difíceis e é também aquele que aprende, depois do excesso, a medida do próprio gesto. “O que talvez caracterize Ogum seja menos a lâmina em si do que o que ela anuncia: passagem. Senhor dos caminhos e das novas oportunidades, ele abre trilhas para o caminhar de seus devotos, guia nos momentos difíceis e conhece os atalhos do destino. Caminhos que se abrem e se fecham conforme sua vontade — imagem que, no Brasil, ganha densidade concreta. Num horizonte de oportunidades profundamente desiguais, recorrer a Ogum é buscar força para atravessar o que bloqueia: a pobreza, a violência cotidiana, as barreiras sociais e raciais que persistem”, escreve Priscyla Gomes no texto crítico feito para a exposição na capital paulista.

É nesse arquétipo que Martins reconhece parte do próprio percurso. Nascido em Machacalis, no nordeste de Minas Gerais — território habitado por indígenas e marcado pela pobreza e pelo abandono do Estado, mas que ele narra sobretudo pela riqueza humana —, Martins também precisou abrir caminho para se tornar artista. Sua pesquisa parte desse chão de origem e se constrói como um processo contínuo, ao mesmo tempo humano e artístico: memórias familiares, a marcenaria do pai, os potes de comida da avó, aromas e utensílios que retornam como matéria de trabalho.

“Essa exposição é muito autoral, está falando exatamente do meu crescimento enquanto indivíduo, na fé, na religião. Mostrando o que ocorre nesse caminho, nessa produção, deixando bem clara a minha posição, as memórias da minha infância, as raízes da minha família que vem de uma matriz negra, voltada à religião afro. Ogum é o meu orixá, é o meu meu guia do dia a dia, a quem eu peço luz, inspiração. É algo muito intimista, da minha vida mesmo”, pontua. 

PURIFICAÇÃO
Para o Recife, a mostra chega reduzida em número de obras e adaptada ao espaço disponível. A relação entre memória e matéria é um ponto central na produção do artista que tem seus percursos investigativos marcados pelas suas heranças familiares. Não à toa, Martins costuma dizer que todo objeto que cria fala do que viveu e do que não viveu, da saudade, de aromas, de utensílios que marcaram suas vivências. 

“Seu trabalho, diz ele, é feito para 'questionar pensamentos, questionar história'. E, a partir disso, buscar as raízes por meio de pesquisas arqueológicas, antropológicas e sociológicas. Há algo de ogúnico nesse impulso: não aceitar o presente como superfície lisa, mas como camada; não aceitar a história como narrativa única, mas como campo de disputa; não aceitar a imagem como acabamento, mas como vestígio e ferida. Martins quer conhecer o passado e transformá-lo em vida, como se o arquivo precisasse voltar a respirar no corpo do agora”, diz o texto crítico de Priscyla Gomes.

O espaço dedicado à ideia de purificação, que, para o artista, pode ser entendida como a morte, o momento de purificação da matéria, é bastante impactante. Dezenas de quilos de sal grosso cobrem o piso, nas paredes, que quase formam um quadrado, apenas obras brancas, uma mesa branca (também coberta de sal), com louça branca na quina e uma taça de cristal cheia de água. Apenas os pés da mesa são de ferro, numa referência ao ofício de Ogum como ferreiro. Um dos materiais mais antigos da história humana, o sal — usado para conservar alimentos, selar pactos e demarcar limites simbólicos em diferentes culturas — se torna aqui uma operação física: cada passo gera atrito e som, cada peso deixa marca, e o caminhar se transforma em prática. 

“Ogunhê, então, não é só um título ou uma saudação: é a própria chave de leitura do percurso. Ogum abre caminho e, ao abrir, expõe os riscos do corte. Ogum forja ferramenta e, ao forjar, inventa ofício e modernidade. Ogum mora na estrada e, ao morar, torna a travessia um destino”, conclui Priscyla Gomes ao fim do seu texto.

A chegada da mostra ao Recife vem reforçar e consolidar o objetivo da Galeria Base Recife, trazer à cidade artistas de renome nacional e internacional (Martins segue até o fim deste mês com a individual Nhorinhá, na galeria Ricardo Fernandes, em Paris) que ainda não são muito conhecidos na cena artística pernambucana. “Quando criamos a filial da Base no Recife, tínhamos esse desejo de apostar em nomes de fora, de trazê-los para um diálogo com a cena local. Essa exposição de Luiz Martins é incrível, teve grande repercussão em São Paulo e sabíamos que precisávamos apresentar por aqui. É uma alegria abrir as portas da Galeria Base Recife para Luiz Martins”, finaliza a galerista Gabriela Maranhão. 

SERVIÇO
Ogunhê, de Luiz Martins
Onde: Rua Professor José Brandão, 163 — Boa Viagem, Recife
Quando: Abertura: 23 de setembro de 2026, 18h. Período: 24 de setembro a 13 de novembro. Segunda a sexta, das 9h às 18h
@galeriabase_recife @galeriabase
www.galeriabase.com.br

 

veja também

Atelier Livre de Arte Ploeg realiza ações artísticas e culturais

Introdução à História da Arte de Pernambuco em minicurso gratuito

Gabriel Wickbold celebra 20 anos de carreira com exposição no Mepe