Alex Červený, o homem-árvore
Livro dedicado à obra do artista visual paulistano reúne 40 anos de trabalho em textos e imagens
TEXTO Carol Botelho
08 de Janeiro de 2026
Alex acredita na metamorfose do homem em árvore e vice-versa
Seres humanos helicoidais tomam a forma do que os compõe, ao menos biologicamente: o DNA. E assim eles voam e flutuam, deitados sobre o horizonte azulado de céu e oceano. Outros descansam enterrados no solo, entre as raízes que se ramificam. Não estão mortos. Ao contrário, vivíssimos, alimentando a terra que provê a árvore, que por sua vez reflete o indivíduo: o homem-árvore. Com a ajuda de troncos retorcidos e galhos a representar a complexidade do ser, cria-se um mix entre mapa afetivo e árvore genealógica.
As paisagens, coletadas em viagens - realizadas ou não -, recriam o que o artista paulistano Alex Júlio de Oliveira Červený, 63 anos, concebe como mundo real. O traço fino materializa o visual acoplado a narrações textuais como em iluminuras tão delicadas quanto míticas, fantásticas, extraordinárias. O movimento vem com as camadas concebidas pelas aquarelas misturadas ao nanquim e ao pincel. Os escritos são tão alheios quanto os que praticavam os surrealistas no automatismo psíquico. As obras de Alex, aliás, são comparadas à fase metafísica do italiano Giorgio De Chirico, onde a estética das escalas distorcidas é pano de fundo para a busca do conhecimento do ser e da natureza fundamental da realidade.
Alex desenha como um naturalista dos tempos coloniais desenhava nossa fauna e flora para os tempos em que a fotografia sequer existia. O crocodilo nos sorri; o esqueleto da estrela do mar surge em solo desértico. O corpo do homem se confunde com as nuvens, em forma etérea de fumaça, quase desaparecendo. E talvez seja esse mesmo o nosso destino, se não pensarmos na importância das árvores como pensa Alex, para quem a onipresente figura da árvore representa uma radiografia do mundo mental. “É isto que me surpreende: perceber como a vida humana é breve, mesmo quando centenária. Muitas árvores que vemos hoje, nas florestas ou mesmo nas cidades, nasceram antes de nós. E estarão lá depois que partirmos. Por isso acho que são como mensageiras. As árvores carregam o passado e apontam para um futuro que não viveremos.”
Uma boa maneira de conhecer a arte de Alex é folheá-la. Lançado em dezembro passado, o livro Excelsior (Ubu editora/ Almeida & Dale, R$ 249) é uma coletânea de suas obras ao longo de 40 anos de produção, de 1983 até hoje. “Alerta: este livro contém imagens”, escreve Alex, na apresentação da publicação bilíngue e cuidadosamente editada. Um livro que carrega consigo a beleza em sua definição. Em aspas assinadas, desenhos aleatórios, carimbos, enxergamos o artista: “Gosto de pensar nos meus quadros, todos eles, como autorretratos”.
Como em outras tantas vezes, escutamos aqui o clichê: arte tem mais a ver com suar do que com levar brisa suave no rosto enquanto trabalha. Alex que o diga: “Tudo o que está reproduzido nas páginas a seguir foi feito à mão, pacientemente, sem ajudantes nem qualquer instrumento facilitador, salvo raríssimas exceções”.
Para tanto, haja sofrência: “Paixão, ciúmes, obsessão, compulsão, rancor e até mesmo algum amor são os ingredientes imateriais dessas obras”. Sentimentos esses que foram pintados, desenhados, gravados e esculpidos em linho puro, papéis de algodão, água tratada, pigmentos ultra resistentes, óleos e resinas caras.
É o que nos revela o artista visual brasileiro cuja primeira mostra individual aconteceu aos 19 anos de idade, em 1983, em Belém (PA). Enciclopédias (muito da anatomia humana) e selos herdados do avô filatelista e a televisão foram compondo a bagagem iconográfica de Alex. Assim como as memórias de viagens feitas na infância, principalmente para Nova Granada, onde ele encontra o interior de São Paulo e seus elementos tão distintos da cidade. O curador, historiador de arte e organizador do livro, Giancarlo Hannud, que assina outro texto do livro, afirma que Nova Granada é para Alex como uma “Atlântida afetiva a partir do qual construiu um universo ambíguo”. A contradição vinha das tensões políticas e transformações econômicas pelas quais o Brasil passava enquanto Alex crescia.
“Nos anos 1980, eu estava preocupado em resolver questões pessoais. A arte era um refúgio; ela me distraía das urgências mais profundas. Era uma época muito difícil. No começo da década, eram somente boatos, mas, no fim, a epidemia de aids se tornou uma questão aterrorizadora. Na gravura Carbono, essa presença, essa sombra se revelou. Era como um raio X da morte: um cervo gigante, com toda a sua imponência e, ainda assim, morto”.
A árvore já salvou Alex de um afogamento. E o náufrago é figura recorrente em seus trabalhos. Foi na represa de Jurumim, segundo Hannud, que o trauma se deu. “A canoa em que estava virou e ele, agarrado a um tronco, resquício de árvore que sobreviveu ao enchimento da represa, permaneceu por horas à espera do resgate. A experiência, liminar e simbólica, deixou marcas profundas, fazendo do náufrago uma figura cada vez mais recorrente em sua imaginação visual”.
“A pintura de Alex Červený não se inscreve em nenhuma ‘tendência’ da arte contemporânea”, escreve o curador e crítico de arte francês Nicolas Bourriaud, que assina a introdução do livro bilíngue de 296 páginas. “Ele é insituável, tanto histórica quanto geograficamente”, escreve Bourriaud.