Artes Visuais

A pluralidade da exposição Surrealismos – arte para além da razão

Mostra tem curadoria de Max Perlingeiro e Tadeu Chiarelli e marca a mudança de endereço da galeria Pinakotheke para o bairro de Higienópolis

TEXTO Mario Helio

17 de Maio de 2026

Óleo sobre tela de Walter Lewy, datado de 1949

Óleo sobre tela de Walter Lewy, datado de 1949

 

Surrealismos – arte para além da razão. Este é o título da exposição aberta, ontem (16-5-26), na Pinakotheke, em São Paulo. Sob a curadoria de Max Perlingeiro e Tadeu Chiarelli. O evento marcou a mudança de endereço da galeria, que, antes, tinha sede no bairro do Morumbi, e, agora, em Higienópolis.

Figura com cubos (1928), Ismael Nery

A escolha do surrealismo para inaugurar a nova fase mostra uma sutil correlação. Não pelo tema em si, mas pelo enfoque, pois, ao colocar no plural o nome do movimento, acentua a pluralidade da própria galeria. De sentido e olhares. Estão expostos tanto os surrealistas já classificados e etiquetados há muito, quanto outros menos evidenciados e não diretamente “surrealizados”.

A segunda parte do título nos dá uma chave para o conjunto do trabalho da curadoria, feito de modo tão elegante, e nada “surrealista”. Muito pelo contrário. Um passeio lúcido e confortável. Pelos três andares da galeria. Pinturas, esculturas, fotografias, alguns objetos e vídeos.

Arte além da razão, tanto num sonho quanto numa longa vigília, sugere também o seu contrário: Além: razão da arte e Razão além da arte. Esta última apropriação da frase merece uma explicação: o surrealismo é, provavelmente, a única vanguarda cujo nome se popularizou, até ao ponto de se incorporar à linguagem cotidiana. As pessoas comuns dizem que há coisas ‘surreais’, sem pensar, de modo nenhum, em André Breton, Apollinaire ou, sobretudo, nos artistas. Sim, o surrealismo está no pensamento, na sensibilidade e no comportamento humanos, e não apenas na arte. Walter Benjamin chegou a chamá-lo de ‘o último instantâneo da inteligência europeia’.

Quem esteja em São Paulo, ou vá, não deve deixar de visitar uma exposição que reúne mais de uma centena de obras que são um convite a muitas “viagens”. Graças a colecionadores particulares e ao trabalho dos curadores, podem ser vistas reunidas pela primeira e, talvez, única vez, juntas, obras de Rufino Tamayo, Guignard, Ismael Nery, Cícero Dias, Vicente do Rego Monteiro, Tarsila do Amaral, Diego Rivera, Maria Martins, Jorge de Lima, Athos Bulcão, Marcel Duchamp, Di Cavalcanti, Sergio Lima, Chagall, Miró, Picasso e um longo etecétera.

Se na casa divina “há muitas moradas”, na casa surrealista não há menos. Como bem põe à mostra a nova casa da Pinakotheke, em São Paulo. Em evidência o surrealismo, tanto o manifesto, quanto o latente (para usar o conteúdo reivindicado por Breton).

O uso do surrealismo além do sentido artístico ocorreu cedo no Brasil. A ponto de um jornal gaúcho como A Federação adjetivar, em 1929, o bolchevismo de surrealista. Porventura tem sido, desde o início, este país tropical surrealista por antonomásia. Uma das primeiras manifestações desse tipo de arte ocorreu no Rio de Janeiro, em 1928, conforme notícia do jornal carioca A Noite, em 18 de junho de 1928:

Retrato ancestral, Flávio de Carvalho, 1938

“Inaugura-se amanhã, às 17 horas, no salão da Policlínica, à Avenida Rio Branco, a exposição dos quadros e desenhos do jovem pinto brasileiro Cicero Dias. É a primeira manifestação da pintura surrealista no Brasil. O surrealismo é uma libertação ainda mais intensa do que o expressionismo. Depois da rigidez matemática do cubismo, o surrealismo surgiu para exprimir liricamente a realidade transcendente, que não é a dos cinco sentidos, que é a do sonho e da imaginação, indiferente às leis da geometria e da mecânica."

A isto se associa o comentário do poeta Manuel Bandeira, num artigo no jornal A Província, do Recife, em 9 de novembro de 1928:

“Cicero Dias – pernambucano é um caso à parte entre os modernos pintores do Brasil: a sua extravagância é natural e não para armar efeito. (...) Os quadros de Cicero, sobretudo os da série clara, surpreendem por um desconchavo bagunceiro organizado paradoxalmente em acrobacias permanentes. Neles tudo anda às avessas. Em ‘Partida de tênis', uma aquarela, há duas pelas os jogadores são impossíveis [sic], o juiz olha para o lado oposto, a rede é vermelha, e ao fundo, sobre quatro árvores que são bolas verdes espetadas em paus, quatro torcedores - toda a assistência - gesticulam; um toca sanfona, motivo frequente na obra de Cícero. As palavras não podem dar ideia da alegria dessa composição.”

Certa vez, indagada, em entrevista se estaria em declínio o surrealismo, a pintora Remedios Varo respondeu:

“Não acredito que ele possa entrar em declínio em sua essência, já que é um sentimento inerente ao ser humano.”

É desse “sentimento inerente ao ser humano” em vigor permanente que se nutre a mostra Surrealismos: arte para além da razão. Em cartaz, na Pinakotheke, em São Paulo, de amanhã (dia 18), até o 15 de agosto.

 

Serviço:

Exposição: Surrealismos – Arte para além da razão

Pinakotheke

Rua Minas Gerais, 246, Higienópolis, São Paulo

18 de maio a 15 de agosto de 2026

Segunda a sexta-feira, das 10h às 18h

Sábados: das 10h às 16h

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