Artes Visuais

A obra de arte sucumbe ao sistema?

Na Art PE, debates questionam se o sistema da arte não estaria tomando para si o protagonismo e a espontaneidade da própria obra

TEXTO Carol Botelho

16 de Outubro de 2026

A artista paraibana Marlene Almeida com o filho José Rufino na Art PE

A artista paraibana Marlene Almeida com o filho José Rufino na Art PE

Foto Danilo Galvão

“Costumo dizer que na minha casa o rio corre ao contrário”, disse a artista paraibana Marlene Almeida sobre o fato de muito aprender com seu filho, o também artista José Rufino, que tem formação em Geologia, e ajudou Marlene em suas pesquisas sobre a terra. 

Marlene e Rufino sempre nadaram contra a correnteza da arte. Enquanto os artistas faziam a “Greve das Cores” pedindo preços mais baixos para os pigmentos importados, Marlene foi atrás do que a nossa terra podia proporcionar em termos de cartela de cores vinda de material natural. Os dois estiveram nesta quinta-feira (15/10) na Feira de Arte Contemporânea de Pernambuco (Art PE) conversando com a jornalista, curadora e coordenadora de comunicação da feira, Olívia Mindêlo. 

Transformar o pigmento já era, para Marlene, a obra de arte em si. Infelizmente, na década de 1970, quando ela começou suas pesquisas, seus pares ainda não enxergavam as coisas assim. “Pintava uma paisagem apenas para ser aceita. Porque eu não era aceita. Era apenas uma mulher pintando com material de terceira qualidade”, ela disse. 

Autodidata, Marlene foi juntando terras sem saber exatamente o que faria com elas. A preocupação com material, estudos e técnicas ainda não era comum na arte. “Precisei ler muito para fazer, refazer, começar e recomeçar”. Atualmente ela se diz uma colecionadora de cores e de suas origens. Assim como os pintores colocavam nas cores o nome do local onde eram encontradas. “Sou colecionadora que fica querendo mais uma cor, mais uma tinta, mais uma textura diferente. Depois comecei a ver que uma terra pode ter tipos de brilho diferentes. O mergulho no campo me fez deixar a tinta a óleo. Optei por trabalhar com têmpera que é mais parecida com a natureza”. 

A terra, para Marlene, é motivo de alegria e preocupação. Principalmente nesse momento de incerteza política e ameaça ao nosso território. “Participei de todas as lutas pelos que trabalhavam pela terra. Acho linda a palavra campo e camponês. Depois de 1964, camponês se tornou uma palavra subversiva. O operário do campo passou a se chamar agricultor”, observa Marlene, que não retirou a palavra camponês do seu vocabulário. Ela credita esse sumiço também à moda, algo que encara como perigoso devido ao seu caráter efêmero. 

Tanto Marlene quanto José Rufino temem que a importância da obra de arte esteja se esvaindo diante de um sistema de arte cada vez mais grandioso. “Sentimos que o sistema está tão organizado a ponto de podar a arte. Isso nos assusta”, confessou Rufino. Saudoso do trabalho solitário do artista em seu ateliê, ele crê na força da arte que grita sozinha, mesmo baixinho. “Como artista vivo do risco. Precisamos retomar o caos, a experiência que não consegue ser retida. A força está na poética e não no arranjo”, analisa. 

Marlene completa: “sem a obra de arte não existe o sistema de arte. É loucura ter que fazer a narrativa de uma obra de arte. Estou na terra de Jomard Muniz de Britto (professor, poeta, filósofo e cineasta falecido em 12 de outubro), que ensinou que arte é aquilo que se rasga, se joga. A obra de arte não é para dar nome a gente. Tem um sentido de guerra, revolução. Viva Jomard!”, bradou a artista.  

Em consonância com o pensamento de Marlene e Rufino, o artista pernambucano Lourival Cuquinha defende a liberdade da arte diante das instituições da mesma maneira que defende a liberdade do indivíduo perante a sociedade. 

"Ingerência", de Lourival Cuquinha e Marcon Piatan. Foto: Danilo Galvão

Atuante no campo político, sua obra multidisciplinar inclui artes plásticas, audiovisual e intervenção, frequentemente interagindo com o público e o contexto urbano a fim de criar tensões dentro do sistema de arte. 

Cuquinha afirma que a obra de arte dele pretende engolir o sistema. “Há obras de arte que não estão no sistema mas engolem o sistema ou pelo menos regurgitam. Como a Ocupação 9 de Julho - espaço cultural e gastronômico gerenciado pelo Movimento dos Sem Teto do Centro (MSTC), em São Paulo - que, para mim, é uma escultura social que se desvia do sistema dominante”. 

No estande G27 da galeria Central, Cuquinha apresenta “De Fato ao Ato”, um conjunto de trabalhos que conectam valor, consumo, relações sociais e capital, temas recorrentes em suas obras. Realizado entre o primeiro e o segundo turno destas eleições, o projeto reflete esse momento conflituoso em que arte e cultura como trabalhos de subsistência voltam a ser ameaçados, assim como a própria democracia. Sempre sob o argumento do “progresso”.  

Entre as obras expostas, uma nota de duzentos reais bordada à mão estampa a frase “valor não tem preço”. Inutilizada, a cédula passa a ter outro valor, material mas também simbólico. Em Ingerência, de Cuquinha e Marcon Piatan, uma faixa presidencial feita com cédulas de dólar e real vem acompanhada de um documento, impresso em papel moeda, de notícia-crime sobre suposta intervenção dos EUA na política do Brasil. A obra custa R$ 1 milhão, quantia que teria sido enviada por aquele país para difamar o STF e interferir na nossa democracia. 

"Valor não tem preço", de Lourival Cuquinha. Foto: Divulgação

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