Artes Visuais

A arte plural de Roberta Queiroga

Artista está em fase de pesquisa para novo trabalho, sobre migração e território

TEXTO Cleide Alves

29 de Julho de 2026

Fragmentos do projeto Colcha de Retalhos, em fase de pesquisa

Fragmentos do projeto Colcha de Retalhos, em fase de pesquisa

Foto Roberta Queiroga

Paulistana radicada na Nova Zelândia há 25 anos, Roberta Queiroga é uma artista visual que adota diversas técnicas em seus quadros. E foge do lugar comum. Aos 13 anos, venceu um concurso para criação do cartão de Natal do Supermercado Zona Sul, no Rio de Janeiro, com o tema Natureza - Preservar para Viver. Ela desenhou, no fundo cinza, plantas pretas que iam renascendo ao serem tocadas por uma borboleta vermelha. Como prêmio, ganhou uma viagem ao parque temático da Disney (EUA), o primeiro de muitos deslocamentos que Roberta faria na vida e ajudaram a moldar a sua criação artística.

“Foi a primeira vez que fiz um trabalho com tiragem limitada, assinada e numerada. O supermercado imprimiu cópias do desenho e enviou para fornecedores, como mensagem de fim de ano, em dezembro de 1987”, recorda Roberta Queiroga. Quando morou em Portugal, numa viagem de estudos durante o curso de Arquitetura e Urbanismo, ao visitar um prédio, em Porto, viu que uma galeria de arte independente seria inaugurada no local. Acabou se inscrevendo no calendário de exposições e virou uma das primeiras artistas a participar de uma mostra individual na O Capas Galeria, em 1999.

Hoje desativada, a O Capas Galeria fez sucesso e promovia exposições que mesclavam colagens, pinturas e novas linguagens visuais. Lá, Roberta exibiu cerca de 20 quadros, em colagem com papel de seda. “Pareciam aquarelas”, comenta. Desde então, participou de outras 30 mostras (individuais, em dupla e coletivas), em Auckland, Wanaka, Arrowtown, Wellington, Waiheke, todas na Nova Zelândia, Japão (foto acima, acervo pessoal) e Dubai. E foi finalista de vários prêmios, como The Lake House Members Merit Awards, em Auckland, Parkin Prize (The Divorce Dress, finalista 2022, foto abaixo, Roberta Queiroga), em Wellington e Craigs Aspiring Art Prize, em Wanaka.

“Uso acrílica sobre tela ou no papel, mas gosto de misturar técnicas, quando tenho oportunidade de criar sem apelo comercial, trabalho com linho cru, tintas, folha de ouro”, declara. No momento, ela está desenvolvendo uma experiência com sacos de exportação de grãos de café, para uma pesquisa sobre pertencimento relacionado à imigração. “Estou testando, transfiro fotos para o saco e vou pintando, cada retalho é um fragmento de memória, minha ou uma história relatada pela minha família.” A ideia da artista é conseguir financiamento e apresentar a obra, Colcha de Retalhos, em 2027.

As telas terão tamanho A3 (algumas serão menores), sem uma estrutura fixa. É dessa forma modular que Roberta pretende amarrar os fios que interligam sua família, com origens em Portugal (Porto), na Espanha (Galiza) e no Brasil (Pernambuco), nas cidades de Palmares e do Recife, onde ela morou parte da vida. “Quero descobrir de onde veio cada integrante da família”, relata. “O que será que o meu bisavô português enfrentou quando chegou ao Recife?”, pondera Roberta, com a experiência de ter vivido em vários lugares: São Paulo, Recife, Rio de Janeiro, Portugal e Japão, antes da Nova Zelândia.

Na foto abaixo (Yoshinori Nagasaku), Roberta Queiroga e o artista Ito Junichi, com a obra que fizeram juntos, DUO, em acrílica e sumi sobre tela, durante residência artística no Japão, em 2025.

O projeto de investigação e criação artística, diz ela, “explora ancestralidade, migração e território através de uma prática gestual, emocional e em diálogo direto com a experiência vivida.” Roberta Queiroga parte da própria genealogia, enraizada em três países, “para analisar como memórias familiares, deslocamentos e paisagens atravessam gerações e moldam a construção da identidade.” O tema surgiu a partir de uma reflexão feita pela artista quando estava tentando elaborar o seu pepeha, a forma maori de se apresentar.

“Quando alguém se apresenta em situações formais, aqui na Nova Zelândia, numa palestra ou em uma pequena reunião, começa falando o seu pepeha, em maori, para depois prosseguir com a palestra em inglês”, explica Roberta. “Em vez de a pessoa se apresentar dizendo o nome e a profissão, ela descreve a conexão com a sua gente, sua ancestralidade, sua terra e sua identidade, citando uma montanha, um rio, um oceano, um modo de chegada ao lugar, uma tribo, um local de encontro comunitário, os antepassados”, explica.

Nessa sequência, o nome é a última informação a ser dada, e o pepeha pode ser personalizado, incluindo ou excluindo alguns pontos. “Seria algo mais ou menos assim: Capibaribe é o meu rio (ou Atlântico é o meu oceano), Auckland é onde moro, Ferreira e Queiroga eram os meus avós, Amélia é minha mãe, Paulo é meu pai e eu me chamo Roberta”, diz ela. “Os maori me explicaram que montanha, rio, tribo, etc, nem sempre são de onde nascemos, mas sim dos nossos ancestrais, de algumas gerações passadas.”

Enquanto desenvolve a proposta, ela participará de duas exposições coletivas e uma individual, em Auckland, onde vive. A primeira, em agosto, é um salão beneficente, com três dias de duração. A segunda, em 21 de novembro, também com caráter beneficente, é organizada em formato de um passeio por casas residenciais, que recebem as obras de arte e se transformam em galerias, apenas por um dia. “Na Art House Tour, a curadoria combina cada quadro selecionado para a mostra com o estilo da residência. Na última edição, meus quadros ficaram em uma casa modernista”, informa.

O evento é promovido a cada dois anos e ocupa desde residências antigas a casas modernas. O público, previamente inscrito, recebe um tíquete que dá acesso às moradias participantes do tour e só fica sabendo do roteiro na noite anterior à exposição. Para a Art House (https://www.arthousetour.co.nz ), ela selecionou telas grandes, de até 2 metros de largura, com pintura abstrata. No salão, realizado no hall de uma escola, serão exibidas telas pequenas, abstratas. “Uma delas, colorida, é bem diferente do que costumo fazer, é um Carnaval de rua inspirado no Carnaval de Olinda (foto abaixo, Roberta Queiroga), em acrílica e resina sobre tela, com moldura, e algumas obras menores em papel, com moldura de vidro”, detalha. Acima (foto Roberta Queiroga), tela da artista na exposiçao Art Connects Women, na cidade de Dubai, em 2025.

A individual, intitulada “Umbilical”, será inaugurada em 16 de dezembro de 2026 e se estenderá até 28 de janeiro de 2027, na Sidewalk Gallery do Studio One Toi Tū (https://www.studioone.org.nz).  É um trabalho que explora conexão, continuidade e movimento. “Uma única forma gestual atravessa as duas telas, criando um diálogo visual entre apego e independência. Através do movimento, da escala e das superfícies sobrepostas, a obra examina como os relacionamentos evoluem, deixando marcas duradouras. Umbilical reflete sobre os fios invisíveis que nos acompanham ao longo da vida.”

Sua última exposição solo aconteceu em janeiro e fevereiro de 2026, na Xhuba Gallery, em Auckland. “Considero essa a minha mais importante individual”, declara. “In Between - It's Still Me (foto abaixo, Saskia van Dijk) explora o espaço onde a energia e a quietude convergem. Gestos ousados e instintivos em superfícies vibrantes encontram reinos monocromáticos contemplativos, revelando camadas de conexão sob um aparente contraste. As obras convidam à imersão, guiando os espectadores da intensidade à sutileza e, através dessa jornada, emerge uma presença singular e persistente: a energia da artista”, diz o texto de apresentação da mostra.

Serviço

Salão beneficente Baradene Art Show 26

Local: Baradene College of the Sacred Heart

Data: 28 a 30 de agosto

Horário: Sexta (28, noite de abertura) das 18h30 às 21h30 / Sábado (29) e domingo (30), das 10h às16h

Endereço: 237 Victoria Avenue, Remuera, Auckland

Acesso:  NZ$ 75* (noite de abertura) / Gratuito no fim de semana

(*R$ 222 reais)

Exposição “Umbilical”

Local: Sidewalk Gallery do Studio One Toi Tū

Data: 16 de dezembro de 2026 a 28 de janeiro de 2027

Horário: 17h às 19h (Vernissage) / 24h nos demais dias

Endereço: 1 Ponsonby Road, Ponsonby, Auckland

Acesso: gratuito

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