Deriva instila poesia no Brasil real
Apresentada no Festival de Curitiba, peça parte de uma citação do geógrafo Milton Santos e pode ser percebida como um poema dramático, um poema em prosa e um poema visual e sonoro, ao mesmo tempo
TEXTO Mario Helio
07 de Abril de 2026
Foto Humberto Araújo
No próximo mês completa-se o centenário de nascimento do geógrafo Milton Santos. A peça Deriva – apresentada, na segunda-feira (6), no Festival de Curitiba – usou uma de suas frases como ponto de inspiração: “O centro do mundo está em todo lugar, o mundo é o que se vê de onde se está”. Na verdade, tratou de mostrar isso, na prática. Num belo exercício de esmigalhar aquela pobre hierarquização do mundo em centro e periferia.
Deriva é Curitiba. Provavelmente a capital brasileira mais voltada para si mesma, e com um planejamento urbano de que pode – ou pôde – se orgulhar. Aceitando-se ou não as afirmações dos poetas de que “é dos sonhos dos homens que uma cidade se inventa” ou de que a paisagem de uma cidade “muda mais do que um coração infiel”, cada lugar é parte da invenção da realidade promovida pelos que a vivem e vivenciam. Os envolvidos na montagem de Deriva refletem o real. Projetam e promovem experiências.
Com a dramaturgia de Pablito Kcarz e Maíra Lour (que também a dirige), Deriva fez sua estreia geral em fevereiro do ano passado. Pode ser percebida como um poema dramático, um poema em prosa e um poema visual e sonoro, ao mesmo tempo. A reiteração proposital da palavra poema serve para acentuar o gosto de prosopopeia que conduz o conjunto da peça. Não basta haver o poema, é preciso que exista poesia nele, e a há em Deriva. Uma colagem de vozes combinadas a diversas outras sugestões sonoras, corpos em movimento, gestos articulados. Uma fala-corpo, ou uma fala corporificada.
Curitiba está aí. Quem a conhece bem vai reconhecer as referências, as citações. Lugares, personagens, atos. Observar uma cidade não resulta em/de voyeurismo simples. Há sequências e não sequências. Tensões, humorismos, as incontáveis aspas de um cotidiano sempre plural, mesmo na sua repetição de fuga quase musical.
Não, no Brasil, nem tudo termina em pizza. Muitas vezes, é em churrasco, ou até melhor, num espetinho, que tudo acaba. Como foi a – boa – preferência de Deriva. Retomando uma sutileza lírica que aparece bem no começo, há uma fumacinha, encenada no ‘gran finale’. O fim do mundo como uma banalidade cotidiana. Desfrutar de um espetinho é hábito de muitíssimas cidades brasileiras. Se não há mais aquelas ‘cadeiras na calçada’, como na canção “Gente humilde”, há mesas postas de propósito, para conversas, risos, mexericos. Naquele “Brasil real” a que se referiu Machado de Assis e era tão repetido por Ariano Suassuna.
Na cidade ainda orgulhosa de todas as estações num só dia, Curitiba não está imune ao ‘aquecimento global’, nem às catástrofes climáticas e humanas. Com inteligência e proporção estética, Deriva mostra o caos ordenado, e, no fim, propõe outra ordem, além dos largos e dos estreitos. Deriva tanto pode ser lida como ‘derivação’ quanto ‘à deriva’. Mostra, enfim, o ‘de repente, não mais que de repente’. Latindo, latente. As mazelas. Depois da aparente bonança, a tempestade. Os rios transbordam. O lixo oculto vem à cena. Assim terminará o bonito invento humano das cidades e suas ágoras?