Dalton Trevisan reaparece no Teatro
Com apresentações nos dias 26 e 27 de março, no Festival de Teatro de Curitiba, "Daqui ninguém sai" celebra o falecido escritor que tinha relação intrínseca com a capital paranaense
TEXTO Mario Helio
27 de Março de 2025
"Daqui ninguém sai" tem direção de Nena Inoue, a partir da dramaturgia de Henrique Fontes
Foto Divulgação
O Festival de Teatro de Curitiba prossegue com uma oferta tão generosa de espetáculos que pode saciar o mais pantagruélico dos amantes das cenas. Ontem, às 20h30, no Guairinha, lotação esgotada, o Teatro de Comédia do Paraná apresentou Daqui ninguém sai. Uma recolha inteligente feita “da obra de Dalton Trevisan”, como indica uma espécie de subtítulo. A direção é de Nena Inoue, a partir da dramaturgia de Henrique Fontes.
Dalton Trevisan, como o James Joyce com Dublin, teve ao longo de 99 anos uma relação tão carnal com Curitiba como se a cidade fosse a sua túnica de Dejanira. O Hércules que porventura houvesse nele se expressou em antitrabalhos e antifaçanhas, principalmente nos contos sincopados e condensador que o notabilizaram. A peça apresentada sintetiza um pouco disso, hiperteatralizando o que em si já é um conjunto de dramas, comédias e farsas em miniatura.
O que se vê em Daqui ninguém sai é uma combinação de homenagem com exploração dramática das possibilidades dos contos e das cartas de Trevisan. Uma das melhores cenas da peça é o momento em que os autores dialogam sobre a correspondência do autor e leem trechos dela. Também foi uma engenhosa solução uma insinuação de mise em abîme que perpassa todo o espetáculo, até fazer o começo reaparecer no fim, e com a inserção do “próprio” Trevisan no palco, perguntando, provocadoramente: “Eu já estou desaparecendo”. Todos os que tomaram contato com sua história e suas obras sabem que ele foi um excelente prestidigitador na arte de crescer, aparecer e desaparecer, sendo o desaparecimento a melhor forma de ser notado. Como o foi também em autores como Salinger e Herberto Helder.
Os contos de Dalton Trevisan são, em grande parte, crônicas de costumes. O seu moralismo no antimoralismo enfático elabora de modo personalíssimo um vitorianismo às avessas. Neste, e até em outros aspectos, o paranaense bem poderia ser um heterônimo mais bem comportado de Nelson Rodrigues.
Na época atual, em que o puritanismo - ou falso puritanismo – podem produzir rimas perfeitas para a hipocrisia, um autor como Dalton Trevisan merece, cada vez mais, ser revisitado, como faz essa montagem do TCP. Ludicamente. Um espetáculo musical, uma ópera quiçá, uma brincadeira brechtiana, Daqui ninguém sai estrutura-se em “movimentos”. No primeiro deles, temos Maria Bueno. Uma frase repetida como um bordão que servisse de início a um manifesto pode levar um leitor mais desconfiado ou distraído de DT a perguntar se “ninguém é dono de Maria” é uma antecipação sua ao politicamente correto de hoje ou uma inserção bem-intencionada da agenda woke na peça. De um modo ou de outro, esse primeiro “ato”- movimento dá o tom, que, com firme direção, segue até o final. Nada melhor do que começar como essa quase ode a uma Carmen tupiniquim.
Talvez fosse ainda melhor o resultado se pudesse o espetáculo prescindir de uma mania brasileira, que é a homenagem. No caso, o pretexto é a celebração do centenário de Dalton Trevisan. Mas, num Brasil sempre ainda tão curiosamente feudal, como evitar a vassalagem de algum tipo? Felizmente não cai nisso a homenagem a esse que é, sem dúvida, o grande nome da literatura moderna em prosa do Paraná. Um bom tema para a sociologia da literatura seria investigar este, que é um dos tantos paradoxos do Brasil: o autor mais “oficial” ou oficializado de Santa Catarina é o preto Cruz e Souza que escrevia como europeu, e os do Paraná são, sem dúvida, Paulo Leminski e Dalton Trevisan, cujo vigor anárquico impede que o oficial os fossilize.
Maria Bueno, Curitiba, Que cidade é essa?, Maria, Passeio Público, João e Maria, Noite da Paixão, Buraco da Fechadura, Cartas. Com “movimentos” assim, Daqui ninguém sai cumpre bem o objetivo de divertir o público. São competentes a forma e o método escolhidos para apresentar Dalton Trevisan tanto aos iniciados na sua obra quanto àqueles que nunca leram um conto dele sequer.
Inventar o teatro a partir dos contos e de uma poesis dos escritos íntimos de Dalton Trevisan resulta numa empatia fácil com o público local de Curitiba. Mas não significa uma limitação. O contista não foi um mero retratista, mas um observador crítico. Pode-se dizer que o caráter dramático, teatral, performático é a própria essência de Dalton Trevisan. A miríade de personagens e a força dos diálogos são simples exemplos. Igualmente teatral foi Dalton Trevisan quando inventou o personagem Dalton Trevisan, e nutriu-se desse autovampirismo até o fim. Na verdade, desde o começo. Inclusive numa micrometafísica irônica sob a forma de soneto. Trata-se do poema “A Morte e a Vida”, publicado na coluna Vida Social, no Diário da Tarde, do Paraná, no dia 31 de outubro de 1940, dedicado à memória de Correia Júnior, e assinado por um certo Dalton Trevisan:
“A morte, meus irmãos (falou o primeiro)
É treva: a vida é luz, só fagueiro...”
Este era um dos cinco homens, não poeta.
“A vida... m...! A morte... não sei a meta”,
Diz descrente o segundo companheiro.
Exclamou aí então, deles o terceiro:
“Viver... Morrer... Por quê? A curva e a reta?”
É filósofo, nem ímpio nem é esteta.
“Calai-vos, calai-vos, nobres ateus
- O quarto tinha fé, que veio a dizer
A morte me revela: a vida é Deus!”
E o silêncio fez-se no escuro horto.
Nada dizia somente o último ser.
Daqueles cinco amigos, era o morto...”
MARIO HELIO, editor das revistas Continente e Pernambuco