Artes Cênicas

Anunciação transforma a obra de Alceu em musical

Espetáculo dirigido por Miguel Colker e Duda Maia recusa o modelo da biografia ilustrada para mergulhar no imaginário criado pelo artista pernambucano

TEXTO Bruno Albertim

24 de Agosto de 2026

Foto Divulgação

No ano de 1975, diante de uma plateia vazia no início da temporada do show Vou Danado pra Catende, Alceu Valença improvisou um megafone de cartolina e saiu com sua banda pela Rua Siqueira Campos, em Copacabana. O cortejo fez efeito: o teatro, que começara vazio, terminou lotado e, Alceu, reconhecido como um nome que chegou pra ficar na MPB. A história, por si só, parece uma pequena cena de teatro. Não por acaso, é uma das passagens brilhantes da trajetória do artista que Anunciação – O musical de Alceu Valença transforma em matéria cênica. Depois da exitosa estreia no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro, o espetáculo chega ao Recife para uma temporada, de 2 a 6 de setembro, no Teatro do Parque.

A grande virtude do espetáculo idealizado por Miguel Colker está justamente em não transformar a vida de Alceu numa sucessão de episódios biográficos ilustrados. Em tempos de proliferação dos musicais sobre grandes nomes da música popular brasileira, muitos deles submetidos à cartilha cronológica que organiza nascimento, formação, conflitos, consagração e legado, Anunciação escolhe outro caminho, mais prazeroso. Há passagens da vida do artista, sim. Há referências geográficas e temporais. Há personagens e situações que remetem à sua trajetória. Mas nada disso funciona como uma aula sobre Alceu Valença.

Para conhecer a biografia do artista, aliás, há o excelente Pelas Ruas que Andei - Uma Biografia de Alceu Valença (Cepe, 2023), publicado pelo jornalista Júlio Moura. No palco, a operação é outra. O que Miguel Colker, Duda Maia, a diretora artística e os autores da dramaturgia (e atores) Duda Rios e Luiza Loroza fazem é tomar a obra de Alceu como território de invenção. Cerca de 35 canções servem de matéria para uma dramaturgia que não pretende explicar o artista, mas experimentar cenicamente o mundo que ele criou.

A origem do espetáculo ajuda a entender essa escolha. Em 2019, depois da morte do fotógrafo pernambucano Cafi, pai de Miguel Colker, amigo e autor de capas históricas de álbuns de Alceu, o diretor mergulhou em um acervo com mais de 40 mil fotografias. O contato com aquelas imagens acabou levando-o de volta ao teatro e à obra do artista. “Nesse processo de digitalização, me deparei com milhares de imagens históricas de Alceu. Vivíamos o pós-pandemia e eu sentia um desejo forte de voltar a fazer teatro. Juntei esse desejo pessoal com a relevância de Alceu e propus à Yanê Montenegro, sua parceira e companheira de vida, levar seu universo poético e criativo para o palco teatral. Ela topou de bate-pronto”, conta Colker.

O que nasceu desse mergulho não é uma reconstituição da vida de Alceu, mas uma espécie de cartografia afetiva de sua obra. Recife, Olinda, São Bento do Una e Rio de Janeiro aparecem menos como lugares geográficos do que como territórios de memória, desejo e invenção. Alceu Valença é, ao mesmo tempo, reflexo e agente da construção da imagética nordestina contemporânea. Sua obra nasce de paisagens, ritmos, personagens e tradições reconhecíveis, mas nunca se limita a reproduzi-los. Sertão e cidade, frevo e rock, cultura popular e psicodelia, festa e desejo convivem numa obra que ajudou a produzir novas imagens sobre o Nordeste e novas possibilidades de compreensão da região. Anunciação percebe essa potência e não tenta domesticá-la.

Para Duda Rios, ator e autor, o impulso inicial da dramaturgia esteve menos numa construção racional do que numa espécie de disposição para a invenção: “Foi uma vontade de fazer muganga, uma sensação de festa, de maluquice. Depois fomos entendendo que Alceu tem essa doidice saudável, comprometida com a autenticidade da sua expressão.” A frase talvez sintetize o espírito da montagem melhor do que qualquer explicação programática.

Desde os primeiros minutos, o espetáculo já encontra seu pulso. Não há uma longa preparação até que a cena adquira vida. Tudo parece entrar em movimento simultaneamente: corpos, instrumentos, vozes, figurinos, luzes, deslocamentos. A encenação de Duda Maia entende que, diante de uma obra tão marcada pela invenção, explicar demais seria empobrecer. Como diz a diretora, “a encenação entra e sai do texto o tempo inteiro, trabalhando com imagem, suspensão e sem a necessidade de explicar tudo”.

São oito intérpretes, sem personagens fixos, formando uma espécie de corpo coletivo que se desfaz e se recompõe o tempo inteiro. Brilhantes e harmoniosos: Duda Rios, Luiza Loroza, Maria Pérola, Juzé, Jef Lyrio, Natascha Falcão, Beto Lemos e Rafael Lorga. A música não está colocada à margem da ação, como trilha sonora de uma narrativa já pronta. Ela participa da própria dramaturgia. Os instrumentos são carregados, tocados e incorporados ao movimento dos atores. Alguns momentos condensam essa potência de maneira particularmente feliz. Natascha Falcão, suspensa sobre um trapézio triangular enquanto canta “Espelho Cristalino”, com voz doce e angulosa, produz uma imagem de rara força cênica. Não é simplesmente um número musical. O corpo elevado, a voz e o risco físico se combinam para criar uma cena que parece ter escapado de dentro da própria imaginação de Alceu. O elenco inteiro trabalha nessa zona de contaminação entre teatro e música, feliz como essas duas linguagens podem deixar de disputar espaço para se tornar uma terceira entidade híbrida.

Outro dos pontos altos é o namoro entre Recife e Olinda. Interpretadas por Duda Rios e Natascha Falcão, as duas cidades entram em cena como um casal que se aproxima, se estranha e se reconhece. A beleza da cena está justamente em não apagar as diferenças. Recife e Olinda não aparecem como abstrações turísticas ou como cartões-postais, mas como duas personalidades distintas, unidas por uma intimidade histórica que também comporta disputa, provocação e desejo.

Juzé, músico e ator paraibano, também se destaca nessa engrenagem. Sua presença acrescenta ao espetáculo uma musicalidade que não parece sobreposta à atuação. Há nele uma naturalidade rara no trânsito entre tocar, cantar e representar.

A direção musical de Ricco Viana e os arranjos vocais de Beto Lemos contribuem decisivamente para isso. As canções de Alceu não são tratadas como sucessos à espera do reconhecimento da plateia. São desmontadas, reorganizadas, atravessadas por vozes e corpos. O resultado é uma leitura teatral de uma obra musical. Quando “Coração Bobo” é cantada pelo coletivo ou quando o elenco assume uma passagem a capella, o que importa não é apenas reconhecer a canção, mas perceber o que ela pode produzir dentro daquela máquina cênica.

É aí que Anunciação encontra sua maior liberdade. A montagem não precisa representar Alceu para falar de Alceu. Tampouco precisa reconstruir sua vida para revelar sua importância. Ao contrário: quanto mais se afasta da obrigação de contar tudo, mais se aproxima daquilo que parece ser essencial na obra do artista: a capacidade de transformar referências em invenção, memória em movimento, território em imaginação. Há, no espetáculo, uma compreensão de que a obra de Alceu Valença não cabe confortavelmente numa moldura. Ela é feita de deslocamentos. E Anunciação acerta justamente quando aceita se deslocar com ela. Um espetáculo que não pretende apenas contar quem foi e quem é Alceu Valença, mas descobrir o que ainda pode nascer do universo valenciano.

SERVIÇO
Anunciação - O musical de Alceu Valença
Onde: Teatro do Parque (Rua do Hospício, 81, Boa Vista)
Quando: 2 a 6 de setembro de 2026; quarta, quinta e sexta às 20h; sábado e domingo às 18h; no sábado vai ter intérprete em libras e bate papo com diretor e elenco
Quanto: R$120, inteira; R$ 60, meia. Ingressos na Sympla

veja também

Leidson Ferraz garimpa a história do teatro pernambucano nos anos 1960

2x Ariano: “Auto da Compadecida” e “Farsa da Boa Preguiça” entram em cartaz

Leidson Ferraz faz um balanço do teatro pernambucano da atualidade