Artes Cênicas

Além da quarta parede, e do próprio teatro

Espetáculo sobre violência doméstica se enquadra na mania do politicamente correto e cada cena faz parte de um ritual o mais ordinariamente cotidiano

TEXTO Mario Helio

08 de Abril de 2026

Foto Annelize Tozetto/Festival de Teatro de Curitiba/Divulgação

Ao concluir-se o espetáculo Atrás das paredes, ontem, no Festival de Teatro de Curitiba, o público, que quase lotou o pequeno auditório da Caixa Cultural, aplaudiu de pé. O paradoxo é que não havia nenhum motivo para a ovação e, muito menos, para um frisson consequente da função dramática em si. Nem por causa do texto. Algo que talvez explique mais da sociologia do público local que das apresentações. Como se uma mentira piedosa autoimposta ou imitada tivesse tomado conta das plateias brasileiras.

               Pode-se, no entanto, desconfiar desse argumento contra o aplauso mecânico ou meio orgânico. É possível realmente que se tenha adivinhado o pretexto para uma aprovação tão enfática. O tema. Que se enquadra na mania do politicamente correto, que vem sendo abraçada por muito, que veem uma grande razão na arte: melhorar a sociedade. O que não foi nunca a razão da grande arte.

               A violência doméstica, o inferno oculto sob as aparências de uma família em harmonia: coisas assim já foram teatralizadas. Muitíssimas vezes. Ações violentas, de qualquer tipo, por sinal, costumam ser frequentes em todas as artes. A própria origem do teatro se marca pela violência sacrificial. A primeira cena de Atrás das paredes chega até a insinuar para as mentes mais imaginativas que algo de bruto vai acontecer, ou já começou. Pretexto para avançar cada cena como parte de um ritual o mais ordinariamente cotidiano.

               Um casal, o espaço doméstico, a presença ausente de uma criança, os ratos, os receios, a encenação de um aniversário. Durante uma hora, esses elementos vão sendo postos numa mesa de cozinha simbólica, e o jogo-de-damas ou de dominó se organiza, para culminar numa denúncia.

Por fim, na fala de uma das atrizes, vem um serviço de utilidade pública: não seja conivente, denuncie. Não se esqueça da política, preste atenção em quem vai votar. Coisas assim não tornam Atrás das paredes um espetáculo mais interessante. Mas podem ser úteis a uma instigação mínima convertida numa pergunta: mais vale a pena no teatro que haja personagens em busca de um autor ou uma (boa) causa em busca de um público que lhe dê guarida?

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