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Yayoi Kusama, a diva das bolinhas psicodélicas, nos dá adeus

Artista contemporânea japonesa faleceu aos 97 anos em Tóquio, no dia 14 de agosto, mas somente foi divulgado nesta quinta-feira (27)

27 de Agosto de 2026

Retrato da artista quando jovem na obra In Here, But Nothing, na Galeria Yayoi Kusama, no Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG)

Retrato da artista quando jovem na obra In Here, But Nothing, na Galeria Yayoi Kusama, no Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG)

Foto Daniel Mansur

As bolinhas alucinógenas e fascinantes da artista japonesa Yayoi Kusama continuarão por aí a nos propor viagens lisérgicas. Mas sua criadora, performática por natureza, não está mais entre nós. Ela faleceu no último dia 14 de agosto, em Tóquio mas só ficamos sabendo nesta quinta-feira (27 de agosto). Ficamos sabendo também, através de anúncio oficial da galeria, que ela continuou pintando suas obsessivas bolas até os últimos dias de seus 97 anos. 

Com pinturas, desenhos e instalações imersivas espalhadas mundo afora, Kusama nasceu em 1929, em Matsumoto, no Japão. Foi lá que começou a pintar suas bolinhas aos 10 anos de idade, quando se deparou com a estampa em uma toalha de mesa. 

Aos 28 anos, mudou-se para os Estados Unidos, onde viveu até 1973. No território norte-americano, misturou psicodelia e por art com suas alucinações e transtornos mentais. Na infância, passou pelo trauma de ser obrigada pela mãe a espionar as escapadas sexuais do pai. O trauma só fez piorar com o tempo, quando colegas homens roubaram seus trabalhos. Resultado: repulsa ao sexo acompanhada de alucinações, esquizofrenia e outros transtornos mentais e tentativas de suicídio. 

Além das bolas coloridas gigantes e repetidas à exaustão como a expurgar momentos ruins, Kusama é famosa também pela série de instalações batizada de Infinity Mirror Room (Sala do Espelho Infinito). O museu a céu aberto Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG) guarda uma dessas obras, que a artista começou a fazer em 1960. Aliás, Inhotim conta com uma Galeria Yayoi Kusama. 

Em Aftermath of Obliteration of Eternity (Consequência da Obliteração da Eternidade), de 2009, o visitante é levado a um ambiente transcendental, onde a primeira sensação é de vazio e escuridão. Aos poucos, luzes amarelas remetendo às tradicionais lanternas japonesas intensificam e esmaecem até voltar à total escuridão. Os espelhos dão a ideia de espaço infinitamente aumentado. Uma reflexão ao mesmo tempo lúdica e triste sobre a vida e a morte.

Também instalada em Inhotim está a obra I’m Here, But Nothing (2000). Trata-se de um ambiente doméstico comum, tipo uma sala de jantar, devidamente mobiliado, só que munido de lâmpadas fluorescentes e todo adesivado com pequenas bolas coloridas. Fantástico. 

Outra obra do museu mineiro é externa: Narcissus Garden Inhotim (Jardim de Narciso), de 2009, traz 750 esferas de aço inoxidável sobre um espelho d’água, formando uma espécie de tapete cinético.   

As abóboras estampadas com os poás superdimensionados e as esculturas fálicas são outra marca registrada de Kusama, cuja repetição ad infinitum de padrões em poá veio como uma maneira de finalizar o desenho antes que a mãe o tirasse dela. 

Não demorou para que buscasse fugir desse ambiente extremamente opressor, que jamais aceitaria uma mulher pintora. Para levar dinheiro para os EUA (o que era proibido), Kusama costurou notas de dólar em seu kimono. A também artista Georgia O’Keeffe, já bem-sucedida, incentivou Kusama a ir para os EUA, após esta ter escrito uma carta pedindo conselhos sobre como se tornar uma artista. 

Sempre de cabelos vermelhos em corte chanel e franjas retas, a artista sempre foi uma performance de si mesma, ostentando looks tão ousados, hiper estampados e coloridos quanto suas obras. Tanto que chegou a criar uma linha de roupas e fez parceria com a grife de luxo francesa Louis Vuitton. Atuou ainda como cineasta ao dirigir, em 1967, ao lado de Judo Yalkut, o experimental e psicodélico Self-Obliteration. Partes dele podem ser assistidas no YouTube e a versão completa, na plataforma Mubi. Grande mulher e ícone da eternidade que fez da arte uma ferramenta de luta contra os desafios pessoais, transformando as alucinações em obras lúdicas. 

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