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“Utilizamos a mentira a serviço da verdade”

O filósofo, professor, além de editor e repórter do Diário Pernambucano Raphael Douglas Tenório conversa sobre os periódicos que lançam notícias falsas para tecer críticas à realidade

TEXTO Débora Nascimento

01 de Dezembro de 2014

Foto Divulgação

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 168 | dez 2014]

No rol das formas de humor que angariam adeptos
e seguidores, as fake news vêm se mostrando também concorrentes de peso do jornalismo tradicional e da “realidade”. “Informativos”, a exemplo do The Piauí Herald, Sensacionalista e Diário Pernambucano, são compartilhados diariamente como forma de entretenimento, embora haja leitores menos atentos, ou calejados pelo surrealismo do dia a dia, que acreditam nas “notícias”. O professor universitário, mestre em Filosofia, editor e repórter do DP, Raphael Douglas Tenório, concedeu entrevista à Continente, na qual faz uma análise desses periódicos. “Não se pode negar que essas falsas notícias, ao causarem um choque de perspectiva em meio às leituras cotidianas, encorajam a audiência a uma pausa reflexiva, ainda que por poucos segundos.”

CONTINENTE Quando, como e por que surgiu a ideia de criar o Diário Pernambucano?
RAPHAEL DOUGLAS TENÓRIO O insight aconteceu num sábado à tarde dos idos de 2010. A ideia era criar um site de notícias “falsiês” (falsas), emulando eficazmente a linguagem jornalística, adicionando uma pitada de acidez humorística tipicamente nordestina e o intuito de espraiar críticas, sátiras e todo tipo de investidas contra figuras sociopolíticas pouco exploradas pelos tentáculos da ironia. Foi bem difícil no início, uma vez que havia muitos colaboradores de diversas visões políticas e apolíticas. Darwin agiu e sobraram apenas dois: Heráclito Veras (quem vos escreve agora) e Giuseppe Nocchio (pseudônimos oficiosos). Dizem por aí que o Diário Pernambucano tem sido o jornal de maior credibilidade em linha reta da América Latina.

CONTINENTE Já vi compartilhamentos de notícias do Diário Pernambucano como se fossem verídicas. A que você atribui esse crédito das pessoas?
RAPHAEL DOUGLAS TENÓRIO Primeiro, porque utilizamos a mentira a serviço da verdade, o que acarreta dizer que “não mentimos”. Quem diz que o Diário Pernambucano mente, está faltando com a verdade! Tão somente oferecemos de forma oblíqua algo parecido com a verdade. Ao passo que vivemos um contexto de progressivo descrédito sobre os meios oficiais de informação, a oportunidade de informar de maneira alternativa encontra terreno fértil. Pode a mentira ser um indício de uma verdade? Costumo citar o filósofo Espinosa nesse caso. “Assim como a luz manifesta a si mesma e manifesta as trevas, assim a verdade é norma de si e do falso.” Não é o caso que o talento proposto seja o de desinformar. Dentro de todas as nossas notícias, há o fator do episódio real, da análise do fato para além da ficção. Temos o exemplo de quando soltamos a notícia de que Suzane Richthofen assumiria a Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara, nota absurdamente compartilhada. É uma óbvia mentira. Mas a ironia que ela carrega atinge de frente as ocasiões do contexto. Naquela altura, Marco Feliciano, recém-nomeado presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias causava amotinação pelo país. Começamos a pensar o que seria mais absurdo que um sujeito preconceituoso se fazendo líder das minorias. Achamos a fórmula! Alguém que matou os próprios pais pode assumir a segurança e tutela das famílias brasileiras! Algo como Hitler tomando conta de judeus. Por que tão compartilhado? Porque é um absurdo possível! Na cabeça do brasileiro, uma notícia verossimilhante.

No mais, para além da risada gratuita, passamos a depreciar o papel do “humor pastelão” e assumimos um status de meio “noticioso”. Através de uma sátira engajada, da mentira cômica e da linguagem jornalística, procuramos atingir indivíduos ou costumes operacionalizando denúncias, provocações e questionamentos de toda ordem. Outro fator que faz com que as notícias sejam tomadas como verdade é que, como diria Nicholas Carr, autor de Superficiais, na web a leitura é descuidada, o pensamento é apressado e o aprendizado é superficial. Nas redes sociais, via de regra, consumimos somente as manchetes, que são macroestruturas semânticas, e as compartilhamos como verdade, sem sequer aprofundar a leitura. Nesse movimento aparentemente pueril das mentirinhas programadas, entretanto, evidenciam-se certos equívocos de procedimento na apuração por parte dos profissionais de jornalismo, a frágil e manipulável credulidade do consumidor e a cultura generalizada de leitura e compreensão superficial dos produtos noticiosos. No fim das contas, estamos propondo uma pedagogia da apuração.

CONTINENTE A confiança dos leitores nessas notícias estapafúrdias seria um indício do quão mal anda a cobertura jornalística, o discernimento das pessoas ou a realidade? Ou tudo isso junto?
RAPHAEL DOUGLAS TENÓRIO Definitivamente, um mix dos três elementos. Uma vez que há uma crise generalizada de credibilidade por parte dos leitores sobre as mídias tradicionais, cada vez mais a serviço de interesses privados, as oportunidades de informar através de mídias alternativas crescem e muita gente se predispõe a consumir. Pode-se notar que a “instiga” das mídias como o Diário Pernambucano, é, entre outras coisas, escarnecer o fazer jornalístico tradicional. Entretanto, ao mesmo tempo em que se mune de chacota para criticar os grandes meios de comunicação, dependem diretamente, para garantir audiência, da emulação da linguagem desses que são historicamente deificados. Inclusive eu, Heráclito Veras, tenho em mente a ideia de estudar em que medida o pseudoperiodismo satírico digital, atuando entre humor e contra-hegemonia, pode ser considerado um produto informativo ou contrainformativo. Basta ter em mente as pesquisas, nos Estados Unidos, encabeçadas pelo Pew Research Center, entre 2004 e 2012, demonstrando o aparecimento de uma numerosa audiência adolescente emergida na busca de informação oriunda das fake news, que são versões atualizadas dos antigos pastiches e hebdomadários satíricos, em detrimento dos jornais tradicionais. O jovem, antes de optar pela CNN ou pelo NY Times, corre atrás do que disse Stephen Colbert ou Jon Stewart. Essa crise de confiança se dá, também, pelo fato de que alguma massa crítica se liberta da passividade e começa a construir por si meios de informar. Teóricos têm taxado esse pessoal de “neojornalistas”. Ou seja, todo mundo pode produzir informação. Ademais, a rarefação da imprensa de opinião impele o leitor a buscar informação construtiva em outras jazidas. De outra parte, há o emburrecimento da cultura, através da já citada superficialidade na navegação e do vício no excesso de infoentretenimento. Além das pesquisas personalizadas, o que o especialista em tecnologias Eli Parisier chama de “filtros bolha”. A tela do computador e dos smartphones se converte, cada dia mais, em um espelho. Buscamos, de forma manobrada, o que já temos e já sabemos: tudo proposto por algoritmos de ferramentas de busca. E, por fim, a realidade. Ah, a realidade… No Diário Pernambucano costumamos dizer que não há maior concorrente aos nossos esforços que a realidade. De modo que afirmamos erigir as notícias mais verossímeis que uma realidade absurda é capaz de produzir.

CONTINENTE Qual seria, ou quais seriam, o(s) motivo(s) do sucesso desses periódicos de noticiário fake?
RAPHAEL DOUGLAS TENÓRIO Sem dúvidas, as notícias satíricas possuem a capacidade de ter um impacto positivo sobre a audiência e as pesquisas citadas acima corroboram o que muitos jornalistas já têm em conta: a mídia tradicional, em suas diversas plataformas, vem se tornando cada vez menos fonte de consulta por parte de um público cuja formação é indissociável do ciberespaço e que busca informação no seio das mídias alternativas, na tentativa de evasão de fenômenos como o sensacionalismo e a desinformação. O produto diverte, aguça o senso crítico e dá a possibilidade de enxergar um fato através de outras lentes, de outras perspectivas. O humor é uma das mais tradicionais formas na injeção de uma crítica e os nossos dias, miméticos e irônicos, logram terreno propício para a semeadura de toda sorte de infossátiras. A combinação de duas fórmulas atavicamente contra-hegemônicas, a sátira e o jornalismo, faz das notícias fakes um meio caminho entre a realidade construída pelo jornalismo de massa, o puramente objetivo e a farsa deliberada. Atuando entre entretenimento e contrainformação, esses sites vêm causando certa polêmica, ao confundir leitores e impelindo jornais tradicionais a publicarem erratas. No entanto, não se pode negar que essas falsas notícias, ao causarem um choque de perspectiva em meio às leituras cotidianas, encorajam a audiência a uma pausa reflexiva, ainda que por poucos segundos. Há, por fim, um divertimento especial dos leitores conscientes do objetivo das falsas notícias em trollar os desavisados. 

DÉBORA NASCIMENTO, repórter especial da revista Continente.

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