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“O cinema atual, em sua maioria, é medroso”

O crítico e ensaísta carioca João Luiz Vieira conversa com a Continente sobre como o tema sexo vem sendo abordado na cinematografia contemporânea

TEXTO Luciana Veras

01 de Fevereiro de 2014

[conteúdo vinculado à reportagem de "Claquete" | ed. 158 | fevereiro 2014]

Professor do Departamento de Cinema e Vídeo da UFF,
referência nos estudos sobre a história do cinema e sobre a produção cinematográfica mundial, o crítico e ensaísta carioca João Luiz Vieira é autor de D.W.Griffith and the biograph company (1984), Cinema novo & beyond (EUA, 1998) e Câmera-faca: o cinema de Sérgio Bianchi (Portugal, 2004). À Continente, ele propôs algumas reflexões sobre a representação do sexo no cinema contemporâneo.

CONTINENTE Filmes recentes como Azul é a cor mais quente, O estranho no lago, Ninfomaníaca – Volume 1 e Tatuagem, de uma certa forma, reacenderam a discussão sobre sexo como linguagem no cinema. Hoje, os diretores ousam mais ao incorporar o sexo e sua representação à narrativa cinematográfica?
JOÃO LUIZ VIEIRA Parece-me que é um fenômeno bem recente, restrito a um circuito de filmes especiais, de circulação mais limitada. Em sua maioria, o cinema contemporâneo é ainda pudico, medroso, que mais promete do que mostra mesmo. As comédias brasileiras, por exemplo, falam muito de sexo – e também, na maioria das vezes, de forma infantilizada, feito piadas de colégio –, mas não mostram nada. Lembro, por exemplo, filmes até sérios, como Bruna Surfistinha, que prometia algo muito diferente do que sua própria publicidade e imagem narrativa anunciavam enganosamente. Deveria ser caso para o Procon. Filmes chapa-branca que, ao final da sessão, fazem com que tenhamos saudade de uma outra época mais liberal até, como acontecia em muitas pornochanchadas, por exemplo, mas não só. Nesse aspecto, Tatuagem é, sim, um filme ousado e corajoso, divisor de águas em nosso cinema, pois, além da representação mais direta do sexo, é mesmo um marco por aqui ao encená-lo (e muito bem) com pessoas do mesmo sexo. Curiosamente, além da representação sexual mais gráfica, com exceção de Ninfomaníaca I, os outros três filmes citados compartilham dessa conquista.

CONTINENTE Em 1976, Império dos sentidos, de Nagisa Oshima, foi considerado “pornô” por causa de algumas sequências, em especial uma ejaculação na boca e a cena em que um ovo é introduzido na vagina da protagonista. Em 2013, quase quatro décadas depois, portanto, o vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes, Azul é a cor mais quente, chegou a ser descrito com o mesmo adjetivo e taxado de “voyeurístico” por ter sido dirigido por um homem. Mudou o cinema e não mudou a plateia?
JOÃO LUIZ VIEIRA Tudo me parece mesmo uma questão de tempo, de mentalidade, de costumes. E tudo é dinâmico, muda o cinema, mudam as plateias, sempre. A reação de grupos específicos (feministas, jornalistas, críticos, não importa) não representa outras possibilidades de visão. Generalizar, a partir de apenas um grupo, significa cair de novo em dualismos fáceis. Oshima, pelo que fez, está longe do mercado estritamente pornô, pois nunca pertenceu a esse nicho. O que faz um filme voyeurista, em minha opinião, é também uma questão de ponto de vista: olhar pelo buraco da fechadura, espreitar, ter uma personagem em cena que se dedica à essa “perversão”, segundo a psicanálise. Filmes como Janela indiscreta, de Alfred Hitchcock, Dublê de corpo, de Brian de Palma, ou Peeping Tom, da dupla inglesa Powell & Pressburger, estes, sim, adotam narrativamente um ponto de vista voyeurista e o transformam magistralmente no próprio tema do filme. Azul... é muito diferente. E uma outra questão se coloca: se a direção desse mesmo Azul fosse de uma mulher, o mesmo filme, igualzinho, seria rejeitado por ser pornô ou voyeurista?

CONTINENTE Para você, que diretor e filme recentes se sobressaem no uso do sexo como discurso?
JOÃO LUIZ VIEIRA Acho que de todos esses quatro filmes em cartaz, simultaneamente, com exceção de Lars von Trier (pelo menos nessa primeira parte de Ninfomaníaca), tanto Abdellatif Kechiche quanto Alain Guiraudie e, especialmente, Hilton Lacerda, os três se sobressaem, cada um à sua maneira, e contribuem para um avanço na representação do sexo no cinema. O dinamarquês me parece ainda preso a uma visão tradicional do sexo como algo negativo, traumático, pesado. Que não é novidade e pautou a obra de outro escandinavo, Ingmar Bergman. Guiraudie, numa chave de inspiração hitchcockiana (incluindo voyeurismo), consegue ainda mostrar prazer (mesmo que associado à morte) e traz planos que enterram, de vez, o cinema dito “pornô”. Kechiche conseguiu o mesmo que Guiraudie e, de forma bastante competente, traduziu em imagens, sons e uma ótima direção de atrizes, algo de difícil representação que é o orgasmo feminino (em oposição ao grafismo da ejaculação masculina, visível, palpável). E Hilton Lacerda me pareceu ainda mais corajoso e ousado, levando-se em consideração o contexto e a sociedade na qual trabalha. Claro que são sociedades, culturas, roteiros e intenções bastante diferentes, mas, comparando com o brilhante filme de Ang Lee O segredo de Brokeback Mountain, Tatuagem traz uma visão libertária do sexo, solar, alto astral que tanto Irandhir Santos quanto Jesuíta Barbosa, como excelentes atores que são, conseguiram também transmitir e legitimar no cinema brasileiro, marcando assim um novo ponto de partida. 

LUCIANA VERAS, repórter especial da revista Continente.

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