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“Nos rituais de cura, a reverência ao sagrado é a base”

A pesquisadora da USP Maria Thereza Lemos de Arruda Camargo, que estuda a medicina popular há 40 anos, conversa sobre a cura através das plantas e sua ligação com crenças e religiões

TEXTO Luciana Veras

01 de Agosto de 2014

Maria Thereza Lemos de Arruda Camargo

Maria Thereza Lemos de Arruda Camargo

Foto Luiz Santos

[conteúdo vinculado à reportagem de "Tradição" | ed. 164 | ago 2014]

Em julho, uma das principais palestrantes do seminário
Folhas sagradas, promovido no Recife pela Aurora 21, foi uma senhora de 86 anos. Aplaudida com entusiasmo, a pesquisadora Maria Thereza Lemos de Arruda Camargo, do Centro de Estudos da Religião Duglas Teixeira Monteiro, da USP-PUC/SP, é uma autoridade com quatro décadas de estudos dedicadas à medicina popular. Seu interesse pelo assunto remonta à infância, quando acompanhava o pai, o médico Avelino Lemos Jr., em expedições às periferias de São Paulo. Ainda em 1972, ela venceu o prêmio Mário de Andrade, outorgado pela Prefeitura de São Paulo, por um trabalho realizado nas favelas paulistanas. Seu 14º livro, As plantas medicinais e o sagrado – a etnofarmacobotânica em uma revisão historiográfica da medicina popular do Brasil, foi tema de sua conversa com a Continente.

CONTINENTE De que fala seu novo livro?
MARIA THEREZA Todos os meus livros são sobre as folhas, sabe? Sempre quis pesquisar a medicina popular e por isso tenho andado o Brasil inteiro desde os anos 1970. Comecei a escrever este livro no início da década de 1990. Minha ideia era traçar a historiografia do trânsito das plantas no Brasil. Do primeiro contato do colono português com os índios, de quando os jesuítas chegam e já encontram os índios influenciados pelo catolicismo dos colonos, do que os negros trouxeram e do que já encontraram aqui… Para entender essa tradição bastante mesclada, eu precisava pesquisar o que acontecia no século 16 no mundo inteiro. Então fui estudar o que os portugueses trouxeram da Europa, da África e da Ásia para cá, o que levaram para a África através de suas feitorias. Cheguei aos fenícios, às navegações, à Mesopotâmia e à herança cultural que acompanha as folhas sagradas.

CONTINENTE Qual a sua principal conclusão?
MARIA THEREZA Não existe nenhuma medicina popular que não esteja vinculada a um sistema de crença. No Brasil, há um sincretismo com as influências indígenas, europeias e negras, mas em todos os rituais de cura a reverência ao sagrado é a base, a chave-mestra. As plantas possuem habitat próprio e as condições climáticas ou do solo influenciam os tipos que crescem ali, então existem plantas típicas do Nordeste e outras características do Sul. E também as condições de hoje são bem diferentes, pois não existe mais lugar para plantar e os quintais urbanos são escassos. Porém, o valor de uma espécie passa de uma geração para a outra, de modo que o consumo seja sempre mantido, e sempre ligado à religiosidade, especialmente no Nordeste.

CONTINENTE Por quê?
MARIA THEREZA Porque, no Nordeste, os indivíduos são mais fiéis aos sistemas de crença que adotaram, seja a umbanda ou o xangô, seja ele juremeiro, catimbozeiro ou pai de santo. Aqui há mais reverência do que no Sul. Lá, você até encontra os facultativos, gente que recorre às folhas sem muita convicção, mas no Nordeste é muito forte o vínculo com a religião. O indivíduo ouve, vê, aprende e pertence ao meio religioso dele. Ali deposita sua fé. A religiosidade nordestina é intensa, é declarada com muita sinceridade, e isso é um elemento primordial no consumo das folhas sagradas. 

Leia também:
Os povos indígenas e as plantas medicinais

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