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Rebeca Jamir, dos palcos ao cinema

Atriz pernambucana interpreta Isaura, em O Filho de Mil Homens, filme da Netflix com Rodrigo Santoro, e Juliana, personagem do musical Domingo no Parque, baseada na obra de Gilberto Gil

TEXTO Cleodon Coelho

25 de Fevereiro de 2026

Foto Caio Oviedo/Divulgação

Antes de dividir a tela com grandes nomes do cinema brasileiro ou protagonizar um musical inspirado em Gilberto Gil, Rebeca Jamir aprendeu a escutar o tempo do palco em uma instituição centenária do Recife. Foi no Teatro de Amadores de Pernambuco que a atriz teve o primeiro contato com o rigor da cena, ainda criança, quando nem de longe imaginava que, aos 31 anos, estaria no catálogo da Netflix e estreando como protagonista de um grande espetáculo em São Paulo, Domingo no Parque – O Musical. No entanto, o gesto inaugural, garante ela, segue sendo o mesmo: teatro como base, música como pulsação e o Recife como território formador.

Rebeca deixou a cidade aos 18 anos para estudar atuação no Rio de Janeiro, em um movimento que definiu sua inserção profissional fora de Pernambuco. Hoje radicada em São Paulo, carrega o deslocamento como parte constitutiva da própria identidade artística. “Ser pernambucana pauta o meu olhar, o meu gesto, a minha maneira de ser”, afirma. A relação com o estado de origem permanece viva não como saudade idealizada, mas como referência estética e política. “O cinema, o teatro, a música e as artes visuais de Pernambuco são influências muito sólidas na minha vida”.

Essa formação, marcada pela cena local, ajuda a entender a coerência de um percurso que no final de 2025 ganhou projeção nacional. Em cartaz no streaming com O Filho de Mil Homens, Rebeca estreia no cinema interpretando Isaura, personagem atravessada pelo silenciamento feminino. Dirigido por Daniel Rezende e baseado no romance de Valter Hugo Mãe – que, a partir deste trabalho, deixou de assinar seu nome com letras minúsculas –, o filme apresenta uma jovem que, após perder a virgindade antes do casamento, passa a viver sob controle familiar e vigilância moral. “Isaura carrega uma invisibilidade que é estrutural”, observa a atriz. “Ela está tentando se apropriar da própria vida. A mudança não vem de fora, parte dela mesma”.

Rodrigo Santoro e Rebeca Jamir em "O Filho de Mil Homens"
Foto: Netflix/Divulgação

O papel, conta a pernambucana, exigiu um mergulho profundo. Houve preparação física rigorosa (ela precisou perder oito quilos), mas o maior desafio foi interno. “Sou muito efusiva, risonha, e ela é o extremo oposto disso. Atuar tem muito de se jogar em abismos, em busca da personagem. Eu sinto que sempre saio mais inteira desses mergulhos”, conta. No elenco, contracena com ninguém menos que o astro internacional Rodrigo Santoro, além de Johnny Massaro e Grace Passô.

Para Rebeca, a leitura política do longa aproxima a narrativa do presente. “As mulheres ainda são educadas para servir, não para se colocar a serviço da própria felicidade. Aprender a se escutar e a estabelecer limites segue sendo urgente”, reflete. O drama íntimo de Isaura ecoa estruturas sociais ainda operantes, conectando o filme ao agora.

Paralelamente, a atriz amplia sua presença no audiovisual com participações em As Vitrines, de Flávia Castro, no curta Lena Teresa e na quinta temporada da série Sintonia, também da Netflix. Ainda assim, é no teatro que sua pesquisa artística se mantém mais contínua, herança direta da formação iniciada no Recife. “Nos palcos, participei de montagens como O Ninho – Um Recado da Raiz, A Divina Farsa, O Bem-Amado Musicado, Cangaceiras – Guerreiras do Sertão, todas do meu amado conterrâneo Newton Moreno”, recorda.

Um dos mais celebrados dramaturgos brasileiros contemporâneos, Newton não economiza elogios. “Rebeca empresta comprometimento e alta voltagem emocional a todas as personagens que assume. Nos vários trabalhos que fizemos juntos, a sua presença cênica e seu canto singular só potencializaram os espetáculos”, enfatiza.

Rebeca Jamir no musical "Domingo no Parque"
Foto: Priscila Prade/Divulgação

Desde 2016, ela desenvolve pesquisa em música brasileira, integrando canto e instrumentos à prática cênica. Essa investigação encontra síntese em Domingo no Parque – O Musical, ambientado no início dos anos 1970 e atravessado pela memória da ditadura militar. Com direção e texto de Alexandre Reinecke e direção musical de Bem Gil, filho de Gilberto Gil, o grande homenageado, o espetáculo coloca Rebeca no papel de Juliana, mulher exuberante, dividida entre dois amores e movida pela ideia de liberdade. “É muito forte ter crescido ouvindo essa música que dá título ao musical e, agora, poder viver essa personagem”, comenta. “Juliana tem sede de vida. A liberdade é a força motriz dela”.

A preparação foi intensa: aulas de canto, capoeira e sanfona se somaram à maratona vocal exigida por um musical protagonizado do início ao fim. O contraste com Isaura é radical. Se em O Filho de Mil Homens Rebeca habita o silêncio, no palco ela explode em corpo, voz e presença. Desde a estreia, no início de janeiro, a plateia reconhece o esforço com aplausos em cena aberta.

Entre o Recife que a formou — com seus grupos, palcos e tradições —, o cinema que amplia seu alcance e o teatro que permanece como casa, Rebeca Jamir se afirma como uma artista pernambucana em destaque no cenário nacional. Sua trajetória não se organiza por rupturas espetaculares, mas por escolhas sustentadas pelo trabalho diário e por um vínculo permanente com o lugar onde tudo começou.

CLEODON COELHO, jornalista, roteirista e autor de livros biográficos.

 

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