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O pesadelo sanitário documentado

Ambientados na pandemia da Covid-19, Anatomia do caos (2026), de Dandara Ferreira, e Quando falta o ar (2022), das irmãs Petta, entraram em exibição gratuita nas plataformas de streaming

TEXTO Luciana Veras

23 de Outubro de 2026

Imagem do documentário

Imagem do documentário "Anatomia do caos"

Foto Divulgação

“Porque as pessoas que fazem cinema não se perguntam: até que ponto eu posso e devo usar essas imagens, até que ponto necessito de uma imagem ou não, até que ponto necessito desta imagem e deste som? E se quiser aprofundar isso, pode-se perguntar até que ponto deve ser feito cinema no Brasil, por que eu devo fazer cinema no Brasil. Se a resposta é sim, cabe perguntar por que devo fazer este filme, e não outro.”

Eduardo Coutinho (1933-2014), no livro O documentário de Eduardo Coutinho: televisão, cinema e vídeo (Zahar, 2004)


Se tivessem se encontrado neste mês de outubro, e recebido esta indagação da maior referência no documentário brasileiro contemporâneo, as cineastas Dandara Ferreira, Ana Petta e Helena Petta talvez respondessem em uníssono: porque não poderíamos fazer diferente. E porque, na verdade, nossos filmes nos escolheram. Por uma dessas confabulações do destino, Anatomia do caos (Brasil, 2026) e Quando falta o ar (Brasil, 2022), os longas-metragens respectivamente assinados por Dandara e pelas irmãs Petta e ambientados na pandemia de Covid-19, entraram simultaneamente em exibição gratuita em plataformas de streaming, nesse hiato entre o primeiro e o segundo turno das eleições presidenciais.

O primeiro está no YouTube da Descoloniza Filmes, sua distribuidora, em cartaz até domingo (25), data em que a nação verde e amarela volta às urnas para reeleger Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ou conduzir Flávio Bolsonaro (PL) ao Palácio do Planalto. Já o segundo pode ser acessado na Sommos Amazônia, portal criado para “valorizar e difundir a cultura da Amazônia”, até o dia 31. “Depois de uma trajetória pelos cinemas e de provocar debates em diferentes cidades do país, Anatomia do caos agora poderá chegar ainda mais longe”, escreveu Ibirá Machado, da Descoloniza, na newsletter enviada à imprensa, nesses “dias para assistir, compartilhar e fazer essa história circular: imunize-se contra o esquecimento”.

Quando Anatomia do caos começa, a seguinte informação aparece em tela: abril de 2021 - 395.022 mortes. Dandara Ferreira nos arremessa para o olho do furacão da CPI da Covid, registrando as articulações de senadores como Randolfe Rodrigues (do Amapá, à época, com mandato pela REDE, agora no PT), o alagoano Renan Calheiros (MDB) e o pernambucano Humberto Costa (PT) em preparo para as audiências públicas. A câmera da diretora, empunhada por ela mesma, tem acesso privilegiado aos gabinetes e corredores do Congresso Federal. A partir daí, a narrativa se impõe revelando a CPI de dentro pra fora - a erupção dos bastidores para os depoimentos, muitas vezes tensos, repletos de embates e comoventes, televisionados para o Brasil inteiro. No foco dos trabalhos da comissão parlamentar de inquérito estava a atuação do Governo Federal e do Ministério da Saúde. “A CPI não investiga pessoas, seja de onde for. A CPI investiga fatos: ação e omissão cometidas no enfrentamento à pandemia”, define Randolfe em cena que Dandara captura de trás, em angulação distinta ao enquadramento de todas as emissoras de TV. Era

Por navegar pelas “coxias”, digamos assim, do espetáculo midiático das sessões da CPI, Anatomia do caos percorre uma rota que nos leva de imediato a O processo (2018), de Maria Augusta Ramos. Neste filme, ao descortinar os ritos do impeachment que removeu Dilma Rousseff da presidência a partir das reuniões das senadoras e senadores encarregados de defender a única mulher eleita e reeleita para o cargo mais alto do país, Maria Augusta foge das imagens exaustivamente difundidas pela mídia. Como ela, Dandara Ferreira abre uma outra janela para retratar uma crise - sanitária, política, social - em curso, encapsulando a urgência daquele momento numa montagem que a preserva e a amplifica.

“Saí filmando tudo, num processo muito caótico, e levou um ano só para poder organizar o material. Depois, foram mais ou menos três anos até chegar a um primeiro corte de 5h, exclusivamente com o meu material”, contou Dandara Ferreira à Continente em julho, na pré-estreia ocorrida no cinema São Luiz. “Só que meu material não dava pra contar a história, pois eu fiz tudo praticamente sozinha e fiquei muito centrada em bastidor. Fui atrás da TV Senado e também era muita imagem: cada depoimento tinha de 2h a 3h, eram muitos depoentes para filtrar e o filme poderia ir por vários caminhos. Foi ali que escolhi os eixos: gabinete paralelo, corrupção, negacionismo e fake news. Só aí foram 3 anos”, emendou.

Os eixos são apropriados para fazer jus ao título do documentário. É um golpe no estômago rever os depoimentos de Nise Yamaguchi, médica que virou porta-voz do tratamento “preventivo” à base de cloroquina preconizado pelo então presidente Jair Bolsonaro. Porém, Anatomia do caos não rebate os desatinos apenas a posteriori, na ilha de edição. Personagens da CPI que defendiam o rigor da ciência, como a pesquisadora e professora Deisy Ventura, entrevistada por Débora Nascimento para a Continente #243, de março de 2021, aparecem como as vozes dissonantes, já reforçando a opção cinematográfica e cidadã de Dandara Ferreira.

Aludindo às frases de Eduardo Coutinho expostas na epígrafe deste texto, Anatomia do caos atesta que a diretora se viu instada pela realidade a gravar e usar aquelas imagens. Na longa decantação da montagem, em que acompanhava o trabalho de Lara Beck e Renato Sircilli, entendeu que não seria a sua voz a narrar aquilo tudo. “Eu não me achava protagonista de nada, não queria contar essa história e por isso não quis adotar uma narração em off. Dou a voz à imprensa”, opina a diretora, que recorda as jornadas de aflição. “Nada daquilo foi fácil de filmar, em todos os sentidos. Minha produtora ficava de casa, me ajudando, e olhava as imagens do dia e me dizia ‘cadê Flávio Bolsonaro?’, mas eu não tinha coragem de me aproximar dele. Ele me intimidava com sua postura agressiva”, lembra.

QUANDO FALTA O AR
O recorte temporal de Quando falta o ar é mais estreito: as filmagens foram realizadas entre outubro de 2020 e janeiro de 2021, nos estados do Amazonas, Pará, Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro. Antes das primeiras vacinas chegarem ao país, portanto. Se Anatomia do caos mirava os pormenores da CPI, este documentário enfoca a atuação dos profissionais do Sistema Único de Saúde - SUS nas trincheiras contra o coronavírus. “Fui registrando o trabalho da linha de frente, acompanhando vários serviços de saúde ao lado da minha irmã, Ana, e mostrando principalmente as mulheres, que estavam segurando ali na unha a vida daquelas pessoas”, situou Helena Petta nesta segunda quinzena de outubro, em uma postagem no seu perfil do Instagram.

As irmãs Petta não eram estrangeiras naquele universo. Helena, que se descreve como uma “médica no audiovisual”, usou o conhecimento adquirido na graduação em Medicina e no mestrado em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz - Fiocruz no filme e na série Unidade básica, exibida na Globoplay. Ana Petta era uma das atrizes que contracenava com Caco Ciocler, intérprete de dr. Paulo, o médico responsável por uma UBS - unidade básica de saúde na periferia de São Paulo. Em abril de 2022, mês no qual Quando falta o ar venceu o troféu de melhor longa-metragem na competição brasileira do festival É Tudo Verdade, maior evento dedicado ao gênero documental na América Latina, a primeira temporada do seriado já havia estreado e a segunda estava em produção.

Em 70 minutos, Quando falta o ar alinhava sequências apavorantes de médicos ressuscitando pacientes em parada cardíaca a passagens de agentes comunitários de saúde atravessando rios na Amazônia ou ensinando a população a se higienizar corretamente no Morro da Conceição, no Recife. O dispositivo, elemento fundamental para qualquer documentário existir, na visão de Eduardo Coutinho, é a observação. Este é um filme que extrai sua força da brutalidade dos acontecimentos que a câmera testemunha com uma intimidade que chega a ser atroz. No entanto, essa mesma câmera que se aproxima é a lente que respeita a dor, acolhe a tristeza e celebra quaisquer vitórias em face ao desastre sanitário em curso.

Na justificativa dada pelo júri do É Tudo Verdade, composto pela historiadora Eloá Chouzal, pelo diretor de fotografia Carlos Ebert e pelo cineasta Renato Terra, o documentário “é mais do que uma radiografia contundente e corajosa da pandemia da Covid-19 no Brasil”. É a ampliação do “entendimento da tragédia humanitária em várias perspectivas: desde os agentes comunitários que trabalham na prevenção até as Unidades de Tratamento Intensivo dos Hospitais, passando pelos corpos ensacados e enterrados em quantidades assustadoras. Tudo feito com um olhar extremamente cuidadoso de quem sabe construir e captar cenas que valorizam os sentimentos humanos dos indivíduos retratados.”

“Este filme nasce da necessidade de construirmos memória e resistência”, declarou Helena Petta ainda em 2022. Quatro anos depois, quando se divulgou que o filme estava em cartaz na plataforma Sommos Amazônia, Ana Petta postou em seu perfil no Instagram: “Não esqueceremos jamais! Pela memória das mais de 700 mil pessoas que perderam a vida. Por todo sofrimento das famílias que perderam seus amores. Por todos os profissionais de saúde que foram abandonados pelo governo na maior crise sanitária da história. Pelo SUS, pela ciência e pela vida das pessoas”.

Quando falta o ar é dedicado “aos profissionais do SUS que resistiram e enfrentaram a pandemia”. Anatomia do caos é dedicado “à memória de todos os brasileiros que morreram na pandemia”. São projetos convergentes e complementares, concebidos por mulheres que se arriscaram para adentrar ambientes hostis e, em especial no caso da CPI da Covid, extremamente machistas e misóginos. E obras que, em sua essência, na razão de ser e nas dedicatórias, engendram respostas às questões propostas por Eduardo Coutinho - deve-se fazer cinema no Brasil para salvaguardar a memória de quem agiu pela vida a despeito de um governo que atrasou a compra de vacinas e ridicularizou os doentes.

É o que pensa a antropóloga e documentarista pernambucana Júlia Morim, que dirigiu os curtas-metragens Simbiose (2017) e Evitável (2018) - este último sobre casos de morte materna que poderiam, como o título denota, ser evitados. “Estes dois filmes reforçam a importância do cinema no sentido de documentar tudo para que essa tragédia, incluindo todas as pessoas que se opuseram a ela, não fique esquecida. Para não cair na amnésia generalizada que às vezes os políticos do campo mais extremado da direita parecem evocar em suas falas ou mesmo no discurso perigoso que ameaça o SUS”, argumenta.

Daqui a algumas décadas, se qualquer pessoa quiser pesquisar por que a pandemia foi tão letal no Brasil, terá à sua disposição filmes como Anatomia do caos e Quando falta o ar e o acervo de jornais, portais e agências, que se uniram para verificar dados e checar números e fatos na ausência de informações confiáveis fornecidas pelo Ministério da Saúde. Arte e jornalismo como ferramentas indissociáveis nessa travessia da memória que é fundamental para qualquer nação, ainda mais uma como o Brasil, em que a democracia vive sob ameaça. Lembrar é resistir.

LUCIANA VERAS, jornalista e crítica de cinema

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