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O “blogueiro” do século 19

Obra revela a trajetória do jornalista Angelo Agostini e mostra a evolução da mídia impressa no Brasil imperial

TEXTO Danielle Romani

01 de Julho de 2011

Fundada por Agostini, a Revista Illustrada deu fundamental contribuição à crítica social

Fundada por Agostini, a Revista Illustrada deu fundamental contribuição à crítica social

Imagem Reprodução

O livro Angelo Agostini – A imprensa ilustrada da corte à capital federal, 1864-1910 (Devir Livraria – 256 páginas – R$ 39,50) pode soar ultrapassado, à primeira vista, em tempos de convergência de mídias, e de discussões em torno de qual será o futuro dos jornais impressos e da velocidade da web na veiculação de notícias online. Mas quem se dedicar à leitura de suas páginas vai rapidamente mudar de ideia, e perceber que o trabalho em mãos é uma importante contribuição para entendermos não apenas o papel de um dos homens que mais se empenharam na consolidação da imprensa livre brasileira – o italiano Agostini -, como para compreender de que forma a mídia impressa nacional deu seus primeiros passos.

Escrito pelo professor de Jornalismo Gilberto Maringoni, que é também doutor em História Social, o livro ajuda a conhecer a figura de Angelo Agostini (1843-1910), e também a acompanhar a evolução da imprensa no Brasil imperial do século 19, época em que sequer se imaginava a possibilidade de uma transmissão radiofônica, que só viria acontecer décadas depois, e na qual pareceria loucura falar na formação de uma aldeia global. Maringoni, entretanto, consegue situar com pertinência o papel que Agostini ocupou, e chega a afirmar que o italiano – com as devidas proporções – foi uma espécie de “blogueiro” do século 19, devido à rapidez com que difundia e acompanhava os principais fatos da época. Além de ressaltar a sua versatilidade de atuar em várias frentes.

O jornalista Joseph Mill, contemporâneo de Agostini, o descreve como o mais importante artista gráfico do Brasil da segunda metade do século 19. Mas, no livro, Maringoni mostra que ele foi além. “Entre 1864 e 1910 ele desenhou 3,4 mil páginas, em dezenas de publicações. Foi ao mesmo tempo caricaturista, pintor, um dos inventores das histórias em quadrinhos, jornalista, repórter, editor e militante político... Ele, seguramente, produziu entre nós a mais extensa representação gráfica de uma sociedade que sai da monarquia e do regime de trabalho servil, rumo a se tornar uma república elitista que teima em empurrar para a frente suas contradições profundas”, escreveu o autor.

CABRIÃO
O livro busca mapear a passagem da imprensa brasileira artesanal para a industrial. E, também, mostrar como o Brasil foi um dos últimos países a formar uma imprensa livre no continente americano. Enquanto ela surge no Peru em 1538, no México, em 1539, e nas colônias inglesas por volta de 1650, as primeiras publicações aportaram no Brasil apenas após a chegada da família real, em 1808. Antes disso, a metrópole havia reprimido qualquer tentativa de aquisição e funcionamento de maquinário de impressão por aqui. Somente na segunda metade do século 19 o setor ganhou impulso e as competências locais puderam se revelar.

Foi justamente nessa época – em 1859 – que Agostini chegou à cidade de São Paulo. Algum tempo depois, em 1864, o italiano de Piemonte, unido a um grupo de amigos, começou a fazer “barulho”, assinando as caricaturas do jornal batizado de Diabo Coxo. Mas foi com o Cabrião, lançado em setembro de 1866, que o nome de Agostini passou a ser reconhecido.

Foi nesse jornal que o artista publicou a primeira charge a ser alvo de um processo no Brasil. Nela, mostrava homens poderosos confraternizando com mortos e desrespeitava, segundo os críticos, a paz dos “que já se foram”. Um atentado aos costumes dos conservadores.

Agostini deu, também, uma imensa contribuição à cobertura da Guerra do Paraguai e à defesa da abolição da escravatura. No caso da guerra, ele defendeu o governo brasileiro. Mas, crítico, não se deteve nisso: diversas vezes questionou o envio de tropas, nitidamente despreparadas, e a manutenção de um conflito caro e longo demais.

Em 1867, ao se transferir para o Rio de Janeiro, nova reviravolta e mais prestígio profissional. Na então capital federal, ele iniciou a produção dos quadrinhos que redundariam na primeira saga do gênero produzida no Brasil, As aventuras de Nho Quim. No Rio, também, fundou a Revista Illustrada, que foi um dos mais importantes periódicos nacionais e um dos mais ferrenhos críticos à escravatura. Em 1886, o impresso veiculou uma série de desenhos mostrando os horrores do trabalho escravo.

Em 1888, Agostini, que era casado, engravidou uma aluna e foi obrigado a se refugiar na Europa. Ao retornar, em 1894, fundou a revista Don Quixote, que, como todas as outras que capitaneou, tinha como ponto forte as matérias gráficas. Mas, àquela altura, com o advento da fotografia, e com as novas técnicas de impressão, esse gênero de jornalismo já se encontrava ultrapassado. Amargo e ressentido, no final da vida, foi acusado de conservador e racista. Ironicamente, como milhares de brasileiros que ajudaram a acabar com a escravidão, expunha ideias preconceituosas contra os negros livres, que considerava responsáveis pela decadência da sociedade brasileira. Agostini foi um homem que revolucionou uma época, sendo depois “atropelado” pela rapidez das mudanças do seu próprio tempo. 

DANIELLE ROMANI, repórter especial da revista Continente

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